Uma Batalha Após a Outra e uma superficialidade revolucionária

Críticas Gerais

Os Estados Unidos sempre atravessaram períodos sombrios ao longo de sua história, e o presente parece ser mais um desses momentos de tensão latente. A intensificação das ações do ICE, a polícia migratória do país, escancara a raiva acumulada de parte da população, enquanto a revolta contra o então presidente Donald Trump e suas falas inflamadas ajuda a compor um cenário político instável e agressivo. Nesse contexto, é curioso perceber como Uma Batalha Após a Outra, lançado no ano anterior, passa a dialogar de forma ainda mais direta com a realidade estadunidense justamente agora, quando retorna ao centro das atenções durante a temporada de premiações.

Levemente inspirado no romance Vineland, a narrativa acompanha Bob (Leonardo DiCaprio), um revolucionário aposentado que precisou fugir e reconstruir sua vida para escapar da perseguição do exército e proteger sua filha, Willa (Chase Infiniti). Dezesseis anos após sua fuga, Bob é forçado a voltar à ativa quando seu arqui-inimigo, o Coronel Lockjaw (Sean Penn), sequestra Willa e ameaça executá-la.

Discutir política através da arte não é apenas válido, mas necessário. Como bem disse Fernanda Torres ao vencer o Globo de Ouro no ano passado, “a arte pode durar pela vida, até durante momentos difíceis”. Ainda assim, Paul Thomas Anderson parece hesitar sobre qual posição assumir diante do conflito que apresenta. O resultado é uma abordagem por vezes excessivamente ambígua, que transforma personagens já pouco carismáticos em figuras próximas do irritante. No caso de Lockjaw, essa repulsa é claramente intencional, sobretudo após o personagem se revelar um supremacista. Já Bob, o protagonista, frequentemente ultrapassa esse limite e se mostra um sujeito incoerente e até tolo em momentos cruciais, comprometendo o envolvimento emocional do espectador.

O filme, porém, não se sustenta apenas em Bob ou Willa. Aos poucos, constrói-se um protagonismo coletivo que instiga e mantém o interesse elevado durante os dois primeiros atos. Ainda assim, a crítica política que Anderson tenta carregar se mostra rasa em diversos momentos, evidenciando o principal problema da obra: a superficialidade. Curiosamente, quando o diretor abandona a necessidade de dizer algo grandioso e se entrega à sua já conhecida energia formal, com uma montagem frenética e uma trilha sonora impecável, o filme encontra seus melhores instantes. Ao misturar suspense, ação e comédia, Uma Batalha Após a Outra acerta em sequências memoráveis, como toda a participação do personagem de Benicio Del Toro e a já amplamente debatida cena da estrada, próxima ao desfecho.

O medo e o equívoco caminham lado a lado. O medo de soar irrelevante ou entediante, e o equívoco de responder a isso por meio da espetacularização. Ao tentar discutir a violência política americana em um país que já assistiu ao assassinato de quatro presidentes, o filme acaba recaindo em um erro recorrente do cinema dos Estados Unidos: tratar temas revolucionários de forma excessivamente mastigada, simplificada e autocentrada. Assim, para muitos, a obra pode parecer um dos grandes retratos do assunto, mesmo sem alcançar a profundidade que se propõe.

Apesar de suas falhas de aprofundamento, desenvolvimento, tom e construção narrativa, Uma Batalha Após a Outra ainda é um bom filme. Muito disso se deve ao talento de Paul Thomas Anderson, que imprime qualidade em diversos aspectos da produção. A obra está longe de ser perfeita e ainda tropeça ao transformar questões políticas complexas em espetáculo, esvaziando parte de seu discurso. Embora talvez funcione como um primeiro disparo, capaz de provocar discussões mais amplas e profundas. Nesse sentido, mesmo com ressalvas, o filme cumpre um papel relevante e necessário nos dias de hoje.

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