Toy Story 5 | Tirando leite de uma pedra preciosa
Críticas GeraisDirigido por Andrew Stanton, o novo capítulo da saga dos brinquedos mais amados do Cinema, “Toy Story 5”, teve sua estreia recentemente. Não é novidade que de todas as franquias da Pixar, é a mais querida do estúdio. Um dos motivos, certamente, deve-se ao fato de “Toy Story”, de 1995, ser o primogênito da casa. Além disso, é a franquia mais longeva com maior número de continuações que o estúdio já produziu - sem contar o spin-off “Lightyear”, de 2022 - chegando agora em sua quinta parte.

Parte deste carinho está relacionada à conexão do público. São premissas relacionáveis em todos os filmes. Nos dois primeiros nos conectamos com Andy em uma época muito amada - a da infância. Seguindo, no terceiro temos aquele sentimento que dá um nó na garganta que é o início da fase adulta marcada pela despedida dos brinquedos com seu antigo dono. Já no 4º episódio - já sem Andy - focamos mais nos brinquedos e nos seus próprios propósitos, refletindo sobre recomeços e redirecionamentos da vida. Finalmente, então, chegamos à “Toy Story 5” com uma diferença mais que bem vinda na franquia: o protagonismo está todo com Jessie.

Partindo deste caminho, podemos inferir que já não há mais para onde ir com Woody e Buzz. Ambos já tiveram seus arcos encerrados há muito tempo. Há quem diga que depois do “3” já não havia história a ser contada. Não vou negar, também disse isso lá em 2019. Até conferir o tal “Toy Story 4” e me encontrar em prantos com aquele final. A despedida (mais uma) final! Woody e Buzz no que seria um último abraço. Como uma criança que cresceu com essa franquia, naquela época - já adulto - percebi o quão cinza e melancólico esse filme se demonstra com suas motivações de existência. Existe o lado comercial que não podemos fingir que não existe, mesmo se tratando de um estúdio que sempre prezou pela qualidade. A franquia dos brinquedos sempre deu muita grana para a Disney/Pixar e vai continuar dando. Porém, apesar disso, é preciso exaltar o mérito em retratar crises existenciais que esse filme apresenta.

Muito mais do que crises existenciais, aliás. O quarto capítulo aborda sobre ressignificações, mudanças de rota que a vida nos oferece mesmo depois de uma certa idade. Falta de propósito, aprender a deixar de lado, aprender a se desprender de todas as amarras que um dia já te fizeram bem, e que hoje talvez já não seja o melhor para você. “Toy Story 4” pode ser muito odiado por simplesmente existir, mas encontro um valor imensurável em sua história. Só não consigo gostar dele mais do que a trilogia inicial, pois para mim são três filmes perfeitos. Apoiando essas sequências ou não, é inegável que “Toy Story” é uma franquia sensacional e de muita qualidade.

Refletindo sobre o novo lançamento, aqui acompanhamos o drama de Jessie e seus amigos no momento em que Bonnie ganha de presente a Lilypad, um tablet que seus pais lhe deram para se conectar com novos amigos. Aqui, temos espaço para aprofundar na personagem de Bonnie como uma menina introvertida apresentando muita dificuldade para fazer amigos. Além disso, é uma das únicas crianças que ainda brinca com brinquedos tradicionais, o que leva a sofrer bullying de seus colegas de escola. Tentando evitar constrangimento, Bonnie renega seus brinquedos na tentativa de se enturmar. Isto faz com que Jessie fique preocupada com os tipos de amizades fáceis que se pode ter através da internet, criando um conflito geracional entre brinquedos e aparelhos.

Certamente, a premissa é muito interessante e se faz necessária pelo debate que proporciona. Porém, há de se concordar que existe um certo atraso nessa discussão por parte da franquia. Acompanhamos essa mudança entre as crianças das novas gerações há uns bons anos. Essa troca de brincadeiras no mundo real para a construção de relações líquidas no mundo digital já é de conhecimento em nossa sociedade desde que a globalização expandiu ainda mais no mundo todo. Isto acaba sendo um ponto positivo para a produção que sempre consegue trazer temas relacionáveis em suas histórias, no entanto acaba dando sinais de fadiga no público no que diz respeito à expectativas.

Apesar disso, o filme é muito feliz em não focar exclusivamente nesse duelo ‘tradição contra novidade’. Neste sentido, temos um ótimo trabalho de construção e desconstrução de personagens ao longo de sua metragem. Por exemplo, mesmo começando o filme com uma certa raiva de Lilypad, acabamos nos apegando à ela, percebendo que ela tem a sua importância no mundo de hoje. Não dá para ser 100% desconectado. O que não pode ser, de fato, é ficar alheio às relações verdadeiras, não dar valor ao toque humano, às memórias construídas no mundo real. É preciso da tecnologia de uma Lilypad para se registrar um momento genuíno entre duas amigas que se conheceram graças ao poder do ‘online’.

Destaque, inclusive, para a ótima integração da personagem Blaze, que acaba criando paralelos entre o passado de Jessie (com sua primeira criança Emily) e o drama de Bonnie. Falando em Jessie e Emily, preciso entrar em SPOILERS aqui (fique por sua conta em risco): a retomada deste assunto acabou sendo muito bem inserida. Sempre foram essas sacadas nada sutis que fizeram da Pixar esse fenômeno. Trazer Jessie (e nós como público) em um lugar emocionante da franquia como aquela árvore e aquele balanço que só havíamos conhecido no marcante flashback do “Toy Story 2” foi o momento mais emocionante do filme, particularmente. Estamos mais que conectados com Jessie e descobrir junto à protagonista sobre a homenagem de Emily já está marcado como um dos “momentos chorar de soluçar” das animações Disney/Pixar.

Outrossim, os novos personagens tecnológicos acabam ganhando ótimo destaque com suas interações divertidas que servem para levar a trama para frente. Pessoalmente, os aparelhos eletrônicos da Blaze me conquistaram mais do que aquelas pelúcias que ajudaram o Buzz no quarto filme (este foi o ponto negativo do “4” para mim: o descaso com o patrulheiro espacial).

Falando em descaso, é uma boa hora para mencionar a quase-não-presença do Woody nesse novo capítulo. Porém aqui não classifico como descaso, mas sim como uma participação especial de luxo. Como mencionado, Woody já teve seu arco encerrado em “Toy Story 4” e trazê-lo de volta aqui é apenas um acalento para os velhos fãs - ainda mais por brincar sobre calvície e obesidade (muito bom!).

Pegando o gancho do acalento, nada mais prazeroso em “Toy Story” do que ver um Buzz descobrir que não é um astronauta de verdade e sim um brinquedo. Isso nunca vai perder a graça, e aqui nesse novo filme um dos pontos mais engraçados (jogados no começo, mas fazendo sentido no final) é o grupo perdido de vários ‘Buzz Lightyears’ em sua própria missão, cumprindo a regra que a franquia tem de manter os subplots do Buzz os mais insanos possíveis.

Por fim, podemos concluir que “Toy Story 5” é mais uma ótima animação da Pixar que, apesar da fadiga, ainda mantém sua trama relevante justamente pelo carisma e desenvolvimento de todos os personagens. Podemos reclamar que esses filmes não precisavam existir, que acabou no “Toy Story 3”. E, talvez, aquela história que mais nos interessava de fato se encerrou no terceiro.

Contudo, assim como os diversos curtas presentes no Disney+, ainda há espaço para a exploração desse universo no cinema. Não sinto que estejam tirando leite de uma pedra qualquer forçadamente a torto e a direito. Sinto que os realizadores ainda interpretam essa franquia como uma pedra preciosa, a mais linda de toda a história do estúdio. E isso faz a diferença. Resumindo: o dia que a Pixar fizer um filme ruim de “Toy Story” vou usar aquele velho discurso de “não sabem a hora de parar”. Porém, ainda não é o caso! “Toy Story 5” é um baita filme divertido e emocionante. Sem o charme e elegância dos primeiros, mas ainda muito acima da média em relação aos demais atualmente.











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