Família de Aluguel, David Byrne & os diferentes papéis que interpretamos
Aspectos SocioculturaisO que realmente nos define? Quando nos perguntam o que somos, somos levados à responder sobre nossa profissão. Isto é um ato socialmente aceito porque as coisas simplesmente funcionam assim, e não se pode ir muito contra a maré nesse sentido. Sem contar que dificilmente as pessoas estão tão interessadas em saber mais sobre você, além de entender como você supostamente ganha sua vida.

Mas será que isso nos define por inteiro? Somos somente o que produzimos em um determinado horário do dia? O que fazemos em tempo livre ou a forma como tratamos os outros não faz parte da definição de quem nós somos? É claro que faz, mas o ponto aqui é debater sobre nosso papel dentro de uma sociedade capitalista que se retroalimenta por interesse. E se pudéssemos ser mais? E se pudéssemos virar interesse de inúmeras pessoas performando diferentes papéis.

Certamente, isto faz parte do grande leque da atuação. Atuar é performar papéis diversos, fazendo com que o espectador acredite por determinado tempo que aquilo é real, que você realmente está trabalhando com aquela coisa X ou Y. Isto é porque nós, como público, permitimo-nos entrar na ilusão da obra. Como quando estamos prestigiando a um show de mágica. Sabemos que são truques diante dos nossos olhos, e queremos ser ludibriados pela arte. Mas isto tudo está no âmbito da ficção. E quando isso não faz parte de uma obra, mas sim da vida real. É realidade? Continua sendo ficção? As relações são meramente contratuais e líquidas? O que define um “ator da vida real”, então?
Foram com estes diversos questionamentos que fiquei ao assistir “Família de Aluguel”, disponível no Disney+. Na realidade, já assisti há um tempinho, e não iria escrever nada a princípio, por alguns motivos. Estreou nos cinemas brasileiros em Janeiro deste ano. Infelizmente não consegui assistir, pois não chegou na minha cidade, e nesta época estava difícil o deslocamento. Mesmo assim, desde o primeiro momento que assisti ao trailer, este filme ficou no meu radar por muito tempo. Até que as semanas foram passando, e o filme foi ofuscado pelos grandes lançamentos das produções cotadas para a grande temporada de premiações, e saiu rapidamente de cartaz. Eis que o longa chegou no Disney+ no final de março, e enrolei para verificá-lo, até conseguir durante este mês de Maio.
Portanto, achei que não estivesse mais no “hype” para escrever sobre. Mas não posso deixar de comentar sobre este. Mesmo que não tenha hype, não importa. O que importa é que este filme mexeu muito comigo e preciso deixar registrado aqui.
Dirigido pela cineasta japonesa Hikari, escrito por Stephen Blahut e pela própria diretora, “Família de Aluguel” conta com o vencedor do Oscar, Brendan Fraser, interpretando Phil, um ator americano que vive no Japão há alguns anos depois de fazer sucesso com alguns comerciais de televisão de uma marca de pasta de dente. Phil está procurando novos empregos, pois não engata bons trabalhos há um tempo, até que nesse período seus caminhos se cruzam com uma empresa de ‘família de aluguel’, da qual consiste em uma agência de atores que é contratada para atuar em diferentes papeis na vida das pessoas. Isso faz com que Phil se relacione com diferentes pessoas de formas inusitadas.

Dentre todo tipo de relação, temos destaques maiores para duas: os extremos da vida. A velhice e a juventude. Em um dos papéis, Phil interpreta um jornalista que pretende entrevistar a lenda do cinema Kikuo Hasegawa (Akira Emoto), um ator idoso aposentado que pensa que não tem mais relevância nesse mundo. Phil é contratado pela filha de Kikuo para se passar por esse jornalista a fim de animar um pouco essa figura lendária no final de sua vida.

O que era a princípio apenas mais um papel acabou se tornando em uma amizade improvável com direito até a uma última aventura na estrada. Phil encontra profundidade com Kikuo, fazendo-o lembrar de seu falecido pai, sobre como a vida passa e o fim dela acaba circulando em um eterno tabu, como se apenas ignorar a morte fosse o melhor caminho a se seguir. Ignorar a morte pode ser o caminho mais fácil, mas talvez o mais doloroso à longo prazo. Iremos nos arrepender para o resto de nossas vidas se por acaso não voltarmos nossa atenção para os entes queridos e suas vontades nessa fase. Talvez tudo que um senhor ranzinza precisa é se reconectar com seu passado através de uma foto para, enfim, poder ir embora em paz. Kikuo não partiria em paz se Phil nunca aparecesse em sua vida, e Phil nunca se perdoaria por não comparecer ao enterro de seu pai se Kikuo não surgisse como um lindo anjo do céu.

Por sua vez, o outro extremo ganha vida com a trama de Hitomi (Shino Shinozaki) e Mia (Shannon Gorman), mãe e filha que vivem sozinhas depois do marido e pai deixá-las há anos. Phil é contratado por Hitomi para interpretar o pai de Mia, pois é necessário a presença completa dos pais na entrevista de uma escola de muito prestígio e tradição de Tóquio. É aqui que o coração do filme bate mais forte. Phil começa a se apegar demais a Mia, e vice-versa. Os dois acabam construindo uma relação tão bonita, como se ambos precisassem dessa sensação e não sabiam. Mia começa a entregar presentes para seu suposto pai, e Phil os guarda com todo carinho em seu pequeno apartamento solitário, preenchendo o vazio daquele ambiente engolido pelo desamparo que a cidade grande proporciona.

Phil encontra em Mia aquele brilho que só a inocência de uma criança tem. Mia precisava de um pai, e Phil se fez presente além de apenas atuar, como um amigo. Por mais que aquilo tudo estivesse sendo encenado, contratado e - até podemos dizer - armado, para os dois estava sendo muito real. O que define esse “ator da vida real”, afinal? Ele só está atuando ser um pai para uma criança, ou naquele momento estava sendo o maior presente que aquela criança poderia ter? Ademais, uma hora aquilo tudo teria um fim, como qualquer serviço, como qualquer papel. E que papel! Pelo menos, para Phil fica claro que este era seu papel favorito, não à toa teve que fazer uma escolha difícil e recusar a aprovação de um teste para uma série que ele tanto lutou para participar. Phil havia encontrado muito mais que apenas um trabalho, tinha encontrado um propósito.

Outrossim, temos os outros atores da agência como o próprio dono Shinji (Takehiro Hira), que apresenta uma sub-trama interessantíssima sobre vida dupla e o vazio existencial (uma das maiores surpresas do filme que me deixou profundamente pensativo). Além dele, também temos Kota (Fumiya Kimura) e Aiko (Mari Yamamoto), esta última com um arco próprio muito bem desenvolvido também, com ótimos diálogos com Phil a respeito da peculiaridade de seu trabalho.

Para concluir, “Família de Aluguel” é uma comédia dramática que apresenta um senso de humor bem dosado com a profundidade necessária para o debate sobre solidão, definições internas, crises existenciais e o que fazemos nesse mundo. Para além do exercício teatral e experimental de um laboratório para atores, o filme aborda a questão de definições de uma maneira leve que por fora pode parecer sutil, mas por dentro acaba nos tocando completamente. A ambientação de Tóquio remonta àquela cidade gigantesca recheada de pessoas solitárias, como vimos muito bem em “Encontros e Desencontros”, de Sofia Coppola. Percebemos o quanto ela é grande e plural ao passo que fria e impessoal justamente pelo próprio protagonista - um gaijin como Aiko menciona.

Neste sentido, uma das músicas que integra a trilha do filme é a sensacional “Glass, Concrete & Stone”, do grande David Byrne (vida longa ao Talking Heads!). Em sua letra, Byrne menciona “glass and concrete and stone.. it is just a house, not a home”, ressaltando a dificuldade em se encaixar na selva de concreto quando estamos perdidos e sozinhos. Como se mesmo estando sob um teto, rodeado de vidro, concreto e pedra, não nos sentimos em um lar. O lar, às vezes, não está em uma casa. O pertencimento não está no material, mas sim no imaterial, no ideal, no humano de fato, nas relações interpessoais, no sentimento, no acolhimento.
Um estrangeiro que pode estar há muito tempo já no Japão, mas nunca irá entender aquele país em sua magnitude, apesar de querer. E é como se Phil se sentisse um estrangeiro o tempo todo. Ele não pertence àquela família, não é amigo daquelas pessoas, mas ele quer muito estar inserido, ele quer fazer parte daquilo, porque querer fazer parte faz parte de seu trabalho. Só que não estamos falando de obras cinematográficas, estamos falando de vidas, de relações interpessoais, de alma.

“Às vezes não tem problema fingir”, o próprio filme menciona esta linha como uma piscadela para sua trama, além de apontar uma indagação, mais do que uma resposta. Esta indagação reside na dualidade entre a interpretação e o real. É errado aquilo tudo por estar lidando com o sentimento de outras pessoas? E se essas pessoas estão tão solitárias que para se sentirem completas precisam de alguém ali, apenas para se sentir especial em uma festa no karaokê, por exemplo? Apenas para se sentir especial no próprio funeral? Ou apenas para seguir sua vida com a verdadeira pessoa que você ama, sem preconceitos e travas de sua própria família? Seria errado fazer alguém feliz? Que tipo de definição se dá para as duas partes, a que contratou e a que está prestando o serviço? Ambos são mentirosos? Ou ditos benfeitores?

Às vezes para sorrir de verdade precisamos fingir estar sorrindo e enganar a nós mesmos. Assim, poderemos encontrar alguma graça nisso e posteriormente daremos risada disso tudo. Aquele pequeno momento de felicidade seria verdadeiro, porém ele precisou ter o seu início a partir de um fingimento, uma atuação, uma “mentira”. E isso não é feio, não é menos, é apenas uma maneira de viver, uma maneira de sobreviver. Vivemos performando o tempo inteiro, tendo que ser contidos no trabalho, liberando certos lados com a família ou reprimindo dependendo do caso, sendo verdadeiros com alguns amigos, tendo que esconder algumas coisas de outros, fingir estar bem para suas parcerias, desabando de chorar em seguida. Às vezes para algo ser liberado, é preciso fingir no início, e é justamente esta a verdade complexa dentro da simplicidade de uma mentira.

Seja real ou ficção, “Família de Aluguel” já é um dos meus favoritos do ano, sem dúvidas. Recomendo não só pela lição, mas por ser uma produção leve até em muitos pontos, com uma delicadeza linda e gostosa de se envolver. Brendan Fraser está radiante. Destaque para a grande atuação do filme sendo da pequena Shannon Gorman com uma personagem extremamente sensível. Além disso, destaco um bebezinho muito fofo que aparece em uma rápida cena onde Phil está fazendo diversos trabalhos. Que coisinha mais linda aquele neném! Viva o início da vida e viva o fim dela! Viva a vida do jeito que for, sendo verdadeiro consigo mesmo!








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