Isso Ainda Está De Pé?, Under Pressure & o quebrar para consertar

Críticas Gerais

Lançado originalmente no final do ano passado, e estrelado nos cinemas brasileiros em fevereiro de 2026, o mais novo filme dirigido por Bradley Cooper acabou de chegar ao Disney+ nesta quarta-feira (13/05). É o terceiro longa que o astro assina a direção, depois do aclamado “Nasce Uma Estrela” (2018) e do metódico “Maestro” (2023). Aqui, diferente dos anteriores, Cooper opta por trocar a magnitude do espetáculo pelo íntimo de um casal em ruínas, dando espaço a um silêncio agridoce, moldado pela cumplicidade e honestidade.

Uma história de John Bishop, Mark Chappell e Will Arnett, com o roteiro dos próprios Chappell e Arnett, além do diretor Cooper, na comédia dramática “Isso Ainda Está de Pé?”, acompanhamos o casal Alex (Arnett) e Tess (Laura Dern) passando por um divórcio. Ambos estão em fases complexas de suas vidas, tendo que lidar com o peso da idade, a criação dos filhos e o fim de um relacionamento de mais de vinte anos. Como o próprio Alex comenta, não houve traição ou coisa do tipo. Aliás, começamos o filme com a decisão já determinada de modo pacífico. Não há aquela tensão absoluta e desgastante de um “Kramer vs Kramer” ou brigas intensas de um “História de Casamento”. Nada disto, temos um olhar sensível sobre a compreensão mútua de que aquilo já não está dando mais certo. O desencanto fala por si só, apesar do amor ainda existir.

Isso Ainda Está de Pé?": Bradley Cooper dirige comédia dramática sobre  separação - Folha PE

Voltando à narrativa, depois de uma noite com os amigos, ainda no início do longa, percebemos a rachadura do casal, embora o sentimento de decepção por “falharem” seja ainda maior do que qualquer mágoa com o parceiro. Tess pega o metrô e, instintivamente, Alex senta ao seu lado. Até que os dois percebem que não irão para o mesmo lugar. Agora as coisas mudariam. Eis que o vácuo presente na tela é preenchido pelo título “Is This Thing On?”. Acabou mesmo? É apenas mais uma crise? Ou é preciso aceitar o fim mesmo que seja doloroso para os dois?

Isso Ainda Está de Pé? - Cenas de Cinema - Crítica | Cinema

Alguns minutos se passam e Alex se encontra vagando pelas ruas noturnas de Nova York, até chegar em um pequeno clube de comédia. Impulsionado pela procura de algo que ele nem sabe muito bem o que é, Alex entra e começa a se apresentar no open mic da casa, isto é, uma apresentação curta de stand-up para testar piadas. É neste momento que percebemos um certo afago em seu semblante. Alex estava usando aquele palco como terapia, como um diário, como um pequeno momento dedicado a falar sobre esses assuntos. A piada, o riso, as punch-lines não são estruturais aqui, mas sim ocasionais devido à espontaneidade e pura naturalidade de Alex. E isto acaba o fazendo tão bem, a ponto de retornar outras noites, como se estivesse se reinventando, caminhando por uma autodescoberta desconhecida.

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Paralelamente, Tess repensa alguns caminhos de sua volta. Ao longo do filme, descobrimos que ela foi uma lenda do vôlei, até se aposentar há alguns anos. Longe das quadras, Tess se sente incompleta, e é pelas lacunas de suas discussões com Alex que descobrimos as coisas que ficaram por dizer. A falta de amparo e diferença ao encarar o presente, o envelhecimento. Quando todos estavam em seu auge era mais fácil. O difícil era se manter, era encarar os embates apesar dos pesares, ou - como o próprio roteiro enfatiza - “ser infelizes juntos”. Superar os problemas juntos. Como uma forma de recomeçar, Tess assume a comissão técnica da seleção de vôlei, pensando nas próximas Olimpíadas.

Here's Your First Look At Laura Dern In 'Is This Thing On?' - Brit + Co

Acompanhamos, então, o desmembramento do casal, ao mesmo tempo que há uma certa reconexão gradativa e dolorosa. O amor nunca deixou de ser complexo, porém o sentimento de tê-lo é uma das coisas mais simples da vida. Às vezes, você quer ficar com alguém porque simplesmente a ama. Não precisa fosforilar demais nisso. Cada um de nós temos nossas individualidades e sonhos pessoais, e quando se assume amar alguém, além do valor romântico existe a parceria, o suporte emocional, como um verdadeiro amigo mesmo. E é neste ponto que o casamento como constituição insiste em falhar, visando o escopo do negócio, do contrato, e não do afeto, do abraço. Às vezes, é preciso quebrar para consertar. Quebrar esse contrato desse negócio, para consertar o abraço desse afeto.

Consequentemente, é sob esta pressão que podemos vislumbrar o quanto faz falta o silêncio de um diálogo à dois. Além de embalar literalmente a trilha do filme com “Under Pressure” de Queen e David Bowie (aliás, coloca esse filme em alguma lista junto com “Aftersun” de finais de apertar o coração ao som dessa música), os dois filhos do casal também estão confusos com a situação, tudo é muito novo para todos os envolvidos. Além disso, temos a pressão dos pais de Alex, dos amigos do casal. Todos apresentando suas desventuras e dilemas. Aliás, um dos amigos de Alex é interpretado pelo próprio Bradley Cooper, o Balls. Balls também está em crise no seu casamento com Christine (Andra Day), o que nos garante ótimos momentos reflexivos de conversas entre os dois amigos sobre suas inseguranças e tentativas de recomeço.

Is This Thing On – official trailer (Searchlight Pictures)

Cooper aproveita todo o encanto da grande Laura Dern para que fiquemos deslumbrados com a força dessa personagem cheia de energia e comprometimento consigo mesma. Ademais, sua química com Will Arnett está impecável. Conseguimos visualizar um casal de anos que ainda se amam e se respeitam, mas que infelizmente estão passando por um dos piores momentos de suas vidas emocionalmente. Arnett, por sua vez, apresenta uma veia dramática da qual me agrada demais, desde os tempos de “Bojack Horseman”, além de manter sua comédia intacta dentro de sua tragédia particular (preciso citar aqui que minha dupla favorita de séries sitcom sempre será Will Arnett e Jason Bateman em “Arrested Development” - eu amo esses atores).

Is This Thing On?' review: Happy together - InBetweenDrafts

Definitivamente, “Isso Ainda Está De Pé?” acabou se tornando o meu favorito da curta filmografia como diretor de Bradley Cooper. Devo deixar claro que não sou nenhum hater do cineasta, embora reconheça que houve sim muita egotrip na campanha de “Maestro” nas premiações. Porém, mesmo não me encantando tanto com a cinebiografia de Leonard Bernstein, identifico esmero e elegância na visão de Cooper. Mesmo assim, ainda preferia o dinamismo e intensidade como um todo, entregues no sucesso do longa com a Lady Gaga.

Cinema: Is This Thing On? – Portugal Resident

Entretanto, ao me deparar com este novo longa, consegui encontrar uma direção mais madura, como se ao deixar a grandiosidade de lado um pouco fosse bom para o desenvolvimento do cineasta. Às vezes, nos afogamos nesta pressão que a sociedade nos impõe para sermos perfeitos ou “melhores”, e é por conta disto que precisamos quebrar essa versão distorcida, moldadas por armadilhas particulares para, então, consertar o que mais devemos valorizar: a nossa sobrevivência. A infelicidade vai estar lá, mas estarei infeliz com quem quero estar para sempre, e sobreviverei assim.

Is This Thing On? review – John Bishop inspired this Bradley Cooper movie,  and it somehow works! | The Independent

“Why can't we give love that one more chance? Why can't we give love? Give love, give love, give love…”. E por que não? Por que não podemos dar mais uma chance ao amor? O amor te desafia a mudar o jeito que nos preocupamos com nós mesmos, e essa é a nossa última dança, já diziam os ingleses. Ótimo filme! Bradley Cooper mais maduro, e Will Arnett e Laura Dern dando um show de química e sensibilidade.

Is This Thing On? | Rotten Tomatoes

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