Arco & A Pequena Amélie | A Dobradinha da Infância #4
Críticas GeraisInspiradora a forma infantil de ver e idealizar a nossa vida. Nossas primeiras experiências ficam marcadas como cicatrizes que carregamos durante todo o período que nos resta aqui nesse mundo. Mais inspirador ainda é quando retornamos ao nosso pequeno mundinho particular, moldado pelos grandiosos castelos de areia que construímos naquela época. Seja vendo uma foto ou tendo o privilégio de ter arquivos em vídeo de quando éramos pequenas crianças sonhadoras, é natural se reconectar com seu eu do passado e criar uma “empatia” por nós mesmos. Como se fôssemos outra pessoa hoje.
E, de certa forma, somos. Mas aquela criança ainda está nos nossos corações, em um lugar extremamente íntimo. Afinal, só nós sabemos o que essas crianças sonhavam e imaginavam para seu futuro. Só nós sabemos o que aquela criança conquistou e o que ela perdeu. Por conta disso, por mais que possa existir orgulho ao visualizarmos algum registro antigo pessoal, há muita dor e frustração, pois o que vivemos nessa época ficou para a vida toda, seja para o bem e para o mal. Somos a consequência do que ocorreu naqueles anos.
Já faz um tempo que tive o privilégio de assistir “A Pequena Amélie”, e neste último final de semana pude ficar maravilhado ao prestigiar “Arco”, no cinema. O primeiro quase acabou se tornando objeto de estudo em um texto que comecei a esboçar, porém algo nele me deixou destruído que, só de lembrar, já começava a chorar. Por sua vez, o segundo não foi diferente. Algo nele acabou me pegando de uma forma que não esperava, de jeito nenhum. Até que me vi pensando demais nesses filmes e, consequentemente, apresentando sentimentos mistos à premiação do Oscar, que ocorrerá semana que vem, e decidi comentar sobre.

Estes dois filmes foram nomeados na categoria de Melhor Animação, ao lado de “Elio”, “Zootopia 2” e o favorito “Guerreiras do K-Pop”. Aliás, um fun fact próprio é que “Arco” era o último filme que faltava para completar todos do Oscar (ficou faltando alguns documentários apenas, como sempre - mas até o dia 15 creio que consigo terminar).
Voltando aos outros filmes, ainda pretendo publicar um texto com meus rankings de preferência e apostas para a grande noite, mas já adiantando: por mais que eu ame a Pixar, “Elio” está longe demais da excelência que o estúdio já demonstrou; “Zootopia 2” é a animação popular que mais gostei de todas as opções, eu realmente adorei esse filme, tanto pelo divertimento da história quanto pelos inúmeros detalhes presentes na produção; agora, se fosse para arriscar, a aposta mais segura é o “Guerreiras do K-Pop”, certamente. Apesar de me simpatizar bastante com o sucesso absoluto da Netflix (e ficar embalado com um hit atrás do outro das HUNTR/X), não seria meu voto se eu tivesse tal honraria. Neste caso, só votaria em “Golden” mesmo para canção original. Portanto, em se tratando de animação, as duas favoritas são justamente essa dobradinha do texto da semana. Mas quem sabe acontece algo parecido com ano passado, com “Flow” se consagrando vencedor.

Dito tudo isso, os sentimentos mistos ao Oscar residem na alegria de poder conhecer esses filmes que tiveram seus holofotes ainda mais iluminados graças à temporada de premiações, mas também na frustração de saber que não serão premiados como mereciam. E é nessa ‘consagração’ que o mix emocional é batido no liquidificador mental com força. O que é se consagrar? É alguém, ao fim de tudo, chegar e falar ‘parabéns, você conseguiu’? Ou seria, ao fim de tudo, ter a consciência de que chegando a algum lugar ou não, esse foi o meu caminho, a minha história, independente de fatores e comparações. Foi assim que aconteceu, e isso basta. Seria essa a tal perfeição? Tal conquista é individual ou coletiva? Por mais que haja coletividades em certas batalhas nas nossas vidas, é sozinho no seu quarto que você começa a fazer um balanço de tudo. Talvez a consagração esteja aí, ou talvez a consagração esteja ao longo do caminho mesmo.
Pensando nisso, podemos retornar ao exercício da foto antiga, visitando a infância novamente. “Arco” e “A Pequena Amélie” são desses filmes que te fazem retornar ao período da vida mais amado para muitos. Não por nostalgia, necessariamente, até porque são duas animações originais e não continuações de algo que já conhecemos. Mas sim por entender hoje, depois de muitos anos longe da infância, que algumas coisas pontuais determinaram o que somos. E isto traz consequências. Em sua maioria, psicológicas. E é a forma como lidamos com isto que guarda o grande segredo da vida. Viver um dia após o outro, sem aquelas pretensões épicas de quando éramos crianças e o céu era o limite. Hoje o limite não é o céu. Na realidade, estamos com os nossos pés atolados no chão, firmemente. Mas como é lindo se encantar novamente… Como é lindo ver uma criança voando, traçando um caminho de arco-íris pelo céu imenso e azul. Como é lindo ver uma criança levitar e transcender seu espírito ao provar um chocolate branco pela primeira vez. A infância sempre foi linda, e nossos pensamentos sempre foram criativos. É inevitável perder boa parte desse brilho ao envelhecer. E está tudo bem. Mas como é necessário olhar para seu eu do passado e dizer ‘eu te admiro e te invejo demais, criança’.
Seguimos falando da dobradinha, com alguns pequenos spoilers.
A Pequena Amélie
Dirigido por Maïlys Vallade e Liane-cho Han, “A Pequena Amélie” acompanha os primeiros anos de vida de Amélie, uma criança belga que nasceu no Japão, ao lado de seus pais, seus irmãos e, principalmente, da governanta da casa Nishio-san. Durante toda a animação, acompanhamos as primeiras experiências de Amélie. Sua relação com sua avó, com os alimentos, com a natureza, com seus próprios sentimentos e, consequentemente, com as feridas que a vida irá proporcionar, e a aceitação de que o tempo tudo irá curar.

Definitivamente, a graça maior está no ponto de vista da protagonista. Enquanto ouvimos a narração encantadora de Amélie tentando justificar seus pensamentos e ações, deparamos com o âmbito sensorial de suas vivências. Cada contato com algo novo, seja prazeroso ou doloroso, é vivido intensamente. Além disso, o primeiro contato com o luto e a despedida são retratados de uma maneira tão delicada que é impossível não se ver naquela situação, dada toda a nossa bagagem. Devo abrir um espaço para dividir um pouco minha experiência pessoal de vida com esse filme.

Na trama, vemos as interações reais e lúdicas entre Amélie e sua avó paterna. Muito provavelmente - pensando em como nossas memórias se esvaem com o tempo, principalmente quando somos muito novos - temos a consciência de que quando crescer, Amélie não se lembrará tanto assim de sua avó. Quando a nossa pequena protagonista fica sabendo do falecimento de sua avó, ela não entende muito bem o que está acontecendo, tal qual uma criança de sua idade. Sua avó havia prometido retornar para uma nova visita, como assim ela não iria voltar? Ela vê seu pai, pela primeira vez, sem chão. Mas ora, a pessoa que chorava bastante nessa casa até um tempo atrás era apenas ela, por que seu pai estaria chorando agora, sendo que ele é um adulto e, supostamente, sabe controlar melhor seus sentimentos.

Este fato me pegou muito, pois nunca esqueço de uma das minhas memórias mais antigas. Não é a primeira verdadeiramente que me lembro (no sentido cronológico), mas uma das mais velhas certamente. Quando eu tinha uns 4 anos, meu avô paterno faleceu, e algo em mim sabia o que era aquilo, e algo claramente não estava entendendo nada. Lembro de ver meu pai e meu tio completamente abalados, e isto me deixava tão confuso, pois nunca havia encontrado meu pai naquela situação. Disse que não era a primeira memória, pois lembro sim de alguns flashes de pequenos momentos que tive com meu avô, mas para mim ficaram apenas nisto. Flashes, relances. Não me vem som, nem mesmo cheiro. Mas sim uma sensação, tal qual Amélie em seus delírios viciantes. Algo que sempre que estava lá na casa de meu avô, sentia meu pai muito à vontade. Só que verbalizar isso não me parece tão certo, sabe? Eu, claramente, não tinha consciência o suficiente para afirmar que era isso que eu estava sentindo naquele momento. Mas algo em mim, naquele espaço que comentei que cada um tem o seu, diz isso com muita certeza.

“Esse lugar não é para você, Amélie, não ainda” é o que a avó da protagonista sugere para ela em um momento lúdico tocante, próximo ao fim do filme. Amélie está se conectando com sua avó em um outro plano. O filme é tão delicado na forma que sugere temas sensíveis, que uma cena em que Amélie (supostamente) apenas se descuidou e se afogou no mar, pode ser entendido como uma grande metáfora para o suicídio. Assim como crianças, muitas vezes não sabemos o que estamos fazendo da nossa vida, decidindo optar por algumas medidas fatais. Amélie tem muito que viver ainda. Assim como nós, que não podemos nos deixar levar pela maré.

Outro ponto totalmente delicado é a despedida. O filme estabelece tão bem a relação fraternal (quase maternal) de Amélie com Nishio-san, que quando o fim daquele convívio se mostra próximo, ficamos desolados ao ver o sofrimento de uma criança tendo que dar seu primeiro adeus. Esse diferente do adeus de sua avó. Uma outra forma de luto. O luto da distância, mesmo sabendo que pode se encontrar novamente. Nada será como antes. E mesmo depois de adulto, ainda sofremos com esse tipo de coisa. Mas ver uma criança presenciar isto gradativamente, pela primeira vez, faz com que a gente reflita sobre o quão cedo temos que lidar com a estrada tortuosa da vida. E o modo como lidamos com isto, ao longo dos anos, determina que tipo de pessoa seremos. Que filme lindo! O tempo pode não curar, Amélie, mas ele trata.

Arco
Dirigido por Ugo Bienvenu, “Arco” se passa em um futuro distante, onde as pessoas vivem acima das nuvens, depois de uma sequência de desastres climáticos, e são capazes de voar tanto a ponto de viajar no tempo, formando um lindo trajeto de arco-íris. No início da trama, podemos notar que Arco, um menino de 10 anos, nutre um desejo incessante por ter a experiência do vôo e viajar até conhecer os dinossauros. Porém, neste contexto, o vôo só é permitido a partir dos 12 anos. Isto faz com que em certa noite, ao perceber uma brecha, Arco saia por aí atrás de seus sonhos, deixando para trás seu pai, sua mãe e sua irmã, até cair no ano de 2075, conhecendo Íris.

O que dizer de “Arco”? Acho que já deixei claro o quanto fiquei encantado com “A Pequena Amélie”, mas “Arco” acabou virando coisa de paixão mesmo. Que animação linda! Visualmente, narrativamente. Tudo tem muito coração, além de ser criativo. Temos o futuro na época do Arco, mas também temos o futuro onde vive Íris, com robôs ajudantes de casa e cúpulas protetoras de desastres. Aliás, podemos mencionar diversos detalhes que levam à este lado mais ‘ficção-científica’ da coisa, mas também para o âmbito crítico e de denúncia que o filme propõe. Não só para as questões ambientais, mas para o consumo e dependência em relação à tudo que a tecnologia já nos proporcionou. Por mais que haja muita importância e relevância na abordagem destes temas, o coração de tudo está nessas duas crianças, Arco e Íris. Uma das cenas mais lindas do filme é quando os dois estão interagindo sobre a língua dos pássaros. É tão encantador ver que ali está tendo uma conversa genuína de duas crianças mesmo, sem forçar nada. Ao mesmo tempo que está sendo algo tão profundo, de modo que você sabe que esta conversa marcará a vida dos dois, nos seus respectivos futuros.

Íris, assim como Arco, quer que as coisas mudem. Ela não sabe dizer muito bem o que. Mas entendemos o que ela quer dizer. Pois, por mais que haja a dúvida de uma criança somada à sua ansiedade, insegurança e insatisfação, não é muito diferente quando se é adulto. Muitas vezes, acabamos nos encontrando perdidos, desligados daquilo que nos cerca, distantes de tudo. Parece que nunca iremos alcançar algo. Mesmo a definição desse tal algo já se encontra perdida, à certa altura.

Voltando ao reencontro com a nossa infância, tentando nos ver como pessoas diferentes, às vezes alguns objetivos não existem mais porque já não fazem mais tanto sentido. Por mais que haja desejo, não há mais necessidade, pois fomos nos adaptando a cada frustração. E para cada recálculo de rota, um novo sonho, um novo caminho. Por isso a sensação de falta nos deixa angustiados a cada ano que passa. Quando se conquista algo, este algo já não lhe satisfaz ou se mostrou outra coisa depois de tê-lo.

E, seguramente, em “Arco” fica claro a frustração na conquista. Arco conseguiu voar e viajar no tempo. Arco conseguiu até ver os dinossauros (não do jeito que ele pensava, mas igualmente especial). Porém isso teve um preço. Entrando em área de sci-fi com viagem temporal, sabemos algumas consequências que esse tipo de brincadeira pode trazer. Arco conseguiu o que ele queria, mas se frustrou ao conseguir. Isso lhe custou tempo, uma vida toda na verdade, ao lado das pessoas que ele mais ama. Arco, assim como um arco-íris, veio e se foi na vida de Íris. De forma rápida, ansiosa. Íris, por sua vez, vivenciou aquilo tão intensamente quanto Arco, só que ela ainda tinha tempo. E levaria, ao longo desse tempo todo, todas essas memórias com ela. Memórias essas que Mikki, o robô ajudante da família, ajudou a registrar e deixar marcado na história, mostrando que viver importa mais. Muito mais do que conquistar, do que consagrar. Nada disso faria sentido sem o ‘dia após o outro’.

Nossas vivências na infância nos marcaram e, ao fim de tudo, viraram apenas memórias. Assim como tudo na vida. Muitas vezes podemos dizer ‘nunca mais me senti tão feliz assim de novo’. Talvez Íris possa dizer isto, em algum momento de sua vida. Mas ela construiu memórias, fez novos amigos (aliás, que trio de irmãos sensacional esse do filme, o grande alívio cômico que, aos poucos, conquistou demais meu coração), teve mais tempo com seus pais, e sempre sentirá a presença de Arco. Por mais que não seja da forma que foi, por mais que ela não se sinta daquele jeito novamente, ele estará lá. De algum jeito, precisamos seguir em frente. Precisamos construir o nosso arco que, sem dúvidas, chegará ao fim. Porém, pouco importa de onde se iniciou e para onde terminou. A beleza do arco-íris sempre foi o meio, o espaço entre o início e o fim. A graça sempre esteve ali. O tesouro de verdade sempre esteve ali, na nossa cara.

Por fim, assumo que não quis ficar ressaltando partes técnicas neste texto. Nem ficar falando muito sobre a história e as narrativas em si. Esses filmes são para sentir. Para além de qualquer outra análise. Posso afirmar que são dois dos meus favoritos de toda essa temporada de prêmios, além de conquistarem cadeiras cativas daquelas listas de filmes da vida. É isso!
Fica o recado para você, pequeno Ander, eu te admiro e te invejo demais, cara. Pretendo não te decepcionar, apesar de tudo! https://youtu.be/G0xGCJurJ6o?si=vzToUeX7_3RabaAN








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