"Morro dos Ventos Uivantes": Fennell entre a liberdade poética e problemática

Críticas Gerais

Para iniciar esse texto, é preciso que se fale antes do elefante enorme no meio da sala: a adaptação de Fennell nasce com um problema precisamente difícil de lidar nos dias de hoje, o whitewashing do personagem de Heathcliff. Lembro de ler o livro na adolescência (não era dos mais simples, a complexidade me marcou) e é um fato inquestionável que a questão racial ao lado da classe são aspectos essenciais dessa história no livro. A intensa história de amor e desejo entre os personagens tem marcador de classe e raça em cada detalhe. É um romance gótico cujos aspectos sombrios estão profundamente ligados a uma sociedade classista e racista — sem questionamentos sobre isso.

Contudo, assim que a imprensa revelou que Fennell decidiu por escalar um ator branco, o mais padrão possível, para interpretar Heathcliff em sua adaptação, me parecia mais do que nítido que o aspecto racial do personagem tinha sido jogado de lado. Como tantas outras adaptações que vieram antes desta. Qualquer tipo de cobrança ou boicote sobre essa escolha é completamente legítimo, mas ainda cabe analisar o filme como é, apesar disso. Particularmente, eu também entendo desde aquele momento que assistir a essa obra esperando por uma reflexão racial e de classe muito aprofundada seria uma expectativa vã, sem razão de ser, especialmente quando Bela Vingança e Saltburn jamais indicaram qualquer profundidade na abordagem vinda de Fennell. Seu filme sobre o feminismo é pífio, enquanto Saltburn só me parece razoável por assumir uma faceta tão superficial quanto o universo que retrata.

Deste modo, o “Morro dos Ventos Uivantes” da diretora opta por ignorar quaisquer aspectos da história original que não sejam o romance trágico e obsessivo de Heathcliff e Catherine. Para sempre, até a morte. Como roteirista e diretora, não é um absurdo dizer que Fennell realiza um desejo que beira o juvenil com essa adaptação; desejo de que a relação entre os dois personagens gire em torno de uma intensa provocação sexual, quase animalesca, do sentimento tão carnal quanto transcendental que nutrem um pelo outro. Fennell é ciente da força dessa relação, movendo o longa inteiro em torno disso e adicionando na sua versão da história tamanho exagero, e às vezes tanta ironia também, que seria possível até chamar de camp (alguns por aí chamaram, mas talvez seja apenas uma tentativa…).

Crítica: "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) - Sophia Mendonça - O Mundo  Autista

Os figurinos tão exagerados e anacrônicos que parecem vir direto de um conto de fadas (o vestido de Catherine na cena em que ela revela saber o segredo que Nelly guardou por tanto tempo a faz parecer uma vilã da Disney), os espaços suntuosos, mas ao mesmo tempo iluminados com luzes e cores tão artificiais que você diria ser impossível não se tratar de uma peça de teatro (a cena do jardim em que Edgar conversa com Isabella sobre Romeu e Julieta, um prenúncio do fim dessa história), os planos abertos à beira das montanhas, extremamente dramáticos… Tão dramáticos quanto o véu preto que Heathcliff retira do rosto de Cath em uma de suas últimas escapadas, após o funeral do próprio pai.

Existem duas forças aqui que se complementam para mim. Enquanto a superficialidade e o anacronismo da abordagem de Fennell incomodam os mais ávidos leitores de Bronte — e a mim também em alguns momentos — penso que ela consegue, por debaixo dessa superfície toda, atribuir uma complexidade excitante aos personagens. Ninguém é preto no branco. As ações de bondade de Cath, por exemplo, são eclipsadas por um comportamento sombrio como o choro do luto pela perda do pai seguido de um chute cruel no seu corpo como um cachorro morto. É como se ela nos desse uma faceta de alguém e, prontamente, retirasse o véu sobre elas.

O Morro dos Ventos Uivantes 2? Emerald Fennell fala sobre sequência

O filme é pautado em uma mistura de tesão acumulado e coito interrompido (vai até certo ponto, provoca, mas não passa muito do “permitido”), mas essas qualidades me conquistaram. É divisivo, é algo que não parece pertencer ao ano de 2026, ao mesmo tempo em que a trilha sonora de Charli XCX não podia deixar seu contexto mais claro. Margot Robbie brilha nessa personagem que é a antítese da Barbie, mesmo tão impecavelmente vestida quanto. Elordi tem essa estatura e esse jeito meio sorrateiro e monstruoso, quando deseja, ele emula um Frankenstein em seu Heathcliff que combina com esse personagem mais animalesco que Fennell retrata, embora pene para estar a altura da colega de cena.

É muito difícil que uma adaptação de um livro, por mais simples que seja ou por mais complexo que seja (como é o caso deste), agrade quem é fã das páginas. Qual adaptação, por mais fiel que tente ser, não incomoda? Todas as adaptações, livres ou o mais fiéis possíveis, serão questionadas, pois em sua essência são obras diferentes. Ainda que haja uma inspiração na outra, é fato que a linguagem do cinema e da literatura se separam assim que se tornam livro e filme. Há três anos, escrevi um texto para o Cinem(ação) em que defendia a livre adaptação cinematográfica de qualquer obra literária. No texto, eu falava sobre a diferença entre o livro e o filme, sobre como uma arte não necessariamente se sobrepunha à outra, é tudo uma questão de escolha cuja diferenciação principal partia da linguagem escolhida para contar a história. E só.

Essa diferença muda tudo. Sempre foi e sempre será em vão buscar na obra adaptada uma fidelidade integral à original. Sabendo que perseguir isso é impossível, o diretor deve ser, acima de qualquer coisa, livre para criar por meio de imagens o que bem entender. Uma boa adaptação cinematográfica, para mim, é aquela em que a adaptação norteia o tom, o espírito da outra obra. Sabendo disso, deve ser sempre um exercício de liberdade poética que deixa o caminho livre para que nasça outra coisa. Outra obra de fato.

O Morro dos Ventos Uivantes” é a fantasia sadomasoquista de Emerald Fennell  — e sem amarras ao clássico literário

A abordagem de Fennell foi arriscada, polêmica, para muitos terrível, antiética, de mau gosto. O público se dividiu entre aqueles que detestaram cada segundo da experiência e aqueles que se emocionaram ou, se não, ao menos se divertiram, assistindo a uma visão (bem) diferente da história de amor entre Catherine e Heathcliff, que atravessa séculos. Encontro-me no segundo grupo, não chegando a ser alguém que amou o filme, mas que ficou intrigada o suficiente com o olhar da diretora para encontrar nessa adaptação algumas coisas que valem a pena sublinhar. 

Como disse na plataforma X, assim que saí da sessão, essa versão mega estilizada tem os ingredientes certos para se tornar algo além de um sucesso de público: um clássico cult (de culto mesmo, como o Crepúsculo ou como Maria Antonieta de Sofia Coppola?) entre garotas, principalmente, que irão enxergar nesse apurado senso estético de Fennell um filme cuja iconoclastia valeria a ideia de perdurá-lo por mais tempo na história. 

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