À deriva, no limite da imagem e da vida

Críticas Gerais

O primeiro filme experimental da América Latina é, também, uma obra-prima do cinema brasileiro. Embora estivesse na minha lista desde que foi eleito o melhor nacional de todos os tempos pela Abraccine, posterguei alguns anos para assisti-lo, principalmente porque queria ter um conhecimento prévio, nem que mínimo, do cinema experimental, soviético e brasileiro. A mítica o precedia; assisti-lo nas condições mínimas ideais era algo que eu queria levar a sério.

Sou fascinada pelo cinema experimental há algum tempo. Não é algo que vem “de cara” com a cinefilia; acho que, para gostar mesmo, é necessário que se reconheça a linguagem cinematográfica como um espaço de eterna experimentação. É preciso se libertar das “amarras” das narrativas convencionais e, principalmente, da necessidade de eterna racionalização da experiência artística. Devemos conceder a esse experimento proposto uma chance de apresentar-nos outra forma de ver o mundo. Ou, às vezes, de ver a mesma coisa.

Limite

Em Limite, Mário Peixoto experimenta outra forma de contar uma tragédia — mais precisamente, um drama. O enredo é simples: duas mulheres e um homem estão no seu limite, cercados pelo mar em um pequeno barco, sem água e sem comida. Aos poucos, por meio de uma narrativa não linear, a tragédia da vida pregressa de cada um dos personagens é narrada: uma mulher que fugiu da prisão, outra mulher que fugiu de um relacionamento fadado à falência com um marido alcoólatra e um homem que perdeu a amante. Para espectadores modernos como eu, que assistem a esse filme em pleno 2026, a escolha por uma narrativa que não segue a ordem cronológica dos acontecimentos não é nada inovadora, mas, no ano em que foi lançado, ainda na década de 30, é bem compreensível que o filme tenha sido amplamente incompreendido e novo.

Inspirado no cinema soviético (tem até uma lenda sobre uma suposta carta de Sergei Eisenstein sobre o filme que teria sido escrita por ninguém menos que o próprio Peixoto) e nas vanguardas europeias (pela sua estadia na França, cujo dinheiro descendia de uma família aristocrata), Limite não esconde de onde vem as principais inspirações para sua montagem, por exemplo, mas usa seus referenciais ao seu modo, para manter-se original e não uma mera cópia made in Mangaratiba.

Enquanto uns acham o longa um porre de chato e outros questionam a suposta genialidade do “diretor de um filme só” (referencio o texto de Felipe Bragança para a Contracampo), o que para mim faz de Limite tão especial é a maneira como Peixoto converge a poética das suas imagens, especialmente quando filma a natureza, aos limites da forma. Com enquadramentos pouco convencionais e montagem de close-ups e fusões. É um filme ambicioso, com conhecimento da gramática do cinema e que usa o limite do quadro, também, como limite do próprio estado dos personagens.

Críticos elegem 'Limite', de Mário Peixoto, o melhor filme brasileiro -  Jornal O Globo

Existe algo transcendental na maneira como Peixoto filma a integração do homem com a natureza, sempre presente nas paisagens de Mangaratiba, como se fosse uma relação intrínseca que chega ao clímax quando a força do mar bate contra as pedras. Todas as escolhas que o filme faz, juntas, possuem o equilíbrio entre ousadia linguística e a poética necessárias para a história que se pretende narrar; uma tragédia compartilhada e vivida coletivamente por meio das memórias das quais todos os personagens desejam desesperadamente escapar, mas não conseguem.

Dito isso, o desfecho não poderia ser outra coisa que não melancólico. Os limites da vida e do espaço físico em que se encontram, no pequeno barco à deriva, convergem. O fim é o que acontece quando o sentido acaba e parece que, depois dos eventos que os mudaram para sempre, não existe outra coisa que não o fim. O barco é como a vida; tem algumas pessoas que seguem mesmo diante das turbulências e cuja energia não deixa de existir, na mesma intensidade, em águas mais calmas.

Quando não existe mais razão para remar, é quando se chega ao final. 

Seja lá qual final for.

Limite (1931) | MUBI

Disponível em cópia restaurada no Belas Artes à La Carte.

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