Entre o transe cinemanovista e o deslumbramento hollywoodiano
Críticas GeraisToda vez que me perguntam sobre filmes que me marcaram ao longo dos anos, o primeiro que eu sempre falo é “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha. A trama política e caoticamente poética que se desenrola nas terras da nação latino-americana fictícia de Eldorado me impactou profundamente logo no primeiro contato, lá pelos meus 15 anos de idade, e desde então não só o considero meu filme preferido, como o cito em toda oportunidade que aparece – inclusive, já falei dele por aqui no Peliplat, no desafio de novembro. Foi a partir dessa obra que me interessei realmente por estudar cinema e, embora ache vários momentos de sua narrativa bastante emblemáticos, uma cena em especial me chamou muito a atenção naquela primeira vez que vi e continua me fascinando toda vez que a revejo: a sequência do comício de Vieira.

Introduzida pelas palavras “Encontro de um líder com o povo” destacadas em um letreiro em tela, a cena traz uma marcha do político populista Felipe Vieira (José Lewgoy) e de seus apoiadores pelas ruas de Eldorado, numa tentativa de angariar o apoio das classes baixas em meio à disputa de poder com o reacionário Porfírio Diaz (Paulo Autran). A câmera na mão, tão característica da estética do Cinema Novo, se embrenha na movimentação frenética das personagens em quadro, que parecem estar imersos em um estado de êxtase enquanto caminham, dançam e declamam palavras de ordem.
Em meio a isso, Paulo Martins (Jardel Filho), o poeta protagonista do longa, oscila entre o arrebatamento febril daqueles ao seu redor e as suas próprias dúvidas quanto a suas crenças ideológicas e a seu papel nas investidas de Vieira. A movimentação efervescente do grupo segue até ser interrompida pela manifestação de duas figuras até então à margem desse ato: a primeira delas é o líder sindical Jerônimo (José Marinho), que é alçado ao patamar de representante popular e incitado a falar, mas é rapidamente silenciado por Paulo ao tentar emitir sua opinião sobre o panorama político que os envolve; em seguida, quem toma a palavra é um homem pobre, interpretado por Flávio Migliaccio, que se reivindica como a real imagem do povo e, ao expor sua situação de miséria, é taxado de extremista e assassinado pelos homens de Vieira.

A brutalidade dessa ação parece despertar tanto os personagens quanto o espectador desse “transe dos místicos” – como define Paulo – antes instaurado na cena, puxando-os novamente para as incertezas que todo o cenário político de Eldorado carrega tão intrinsecamente. Essa sequência sempre me pareceu como que um resumo das ideias discursivas e formais que Glauber procurava trabalhar em todo o filme, e talvez tenha sido justamente isso que tanto me impactou na primeira vez que a vi. Ela era um exemplo desse cinema que se abria diante de mim naquele momento, um cinema que trazia uma infinidade de perguntas e não aparentava ter qualquer intenção de oferecer respostas simples, mas sim de colocar o dedo na ferida e convocar quem assiste a encarar de frente as contradições cruas e violentas do Terceiro Mundo. Fui capturada também por esse transe.
Alguns anos depois dessa primeira experiência, quando já estudava cinema, outra cena também me provocou um fascínio tão marcante quanto a do comício de “Terra em Transe”, mas de um jeito diametralmente oposto. A cena em questão foi o número musical “Broadway Melody”, do filme “Cantando na Chuva” (1952), que é basicamente um trecho do filme que o trio de personagens principais está filmando dentro da própria narrativa da obra. Nela, Don (Gene Kelly) interpreta um jovem ator que acaba de chegar a Hollywood e se maravilha com toda a suntuosidade e exuberância daquele universo, enquanto procura oportunidades para desenvolver sua carreira.

A sequência de cerca de 10 minutos conta ainda com um número de dança icônico protagonizado por Gene Kelly e Cyd Charisse, além de trazer figurinos e cenários luxuosos e cheios de cor e uma coreografia ágil, impressionante e repleta de sensualidade.

Assisti a ela pela primeira vez em uma aula da faculdade sobre musicais, na qual víamos as obras e debatíamos sobre elas em seguida. Embora eu já estivesse gostando bastante do longa antes dessa cena, foi ela que me capturou por completo – fiquei hipnotizada, maravilhada por ela e pelo filme. Não fazia qualquer diferença se o número não se conectava com a narrativa em si ou se era algo “artificial”, como chegaram a comentar posteriormente na aula. O ponto ali era precisamente a fuga da realidade que a cena proporcionava, como ela era capaz de fazer o espectador deixar de lado todas essas questões e se deslumbrar com a grandiosidade daquilo que se passava na tela. E foi essa exata proposta que me encantou e me fez não só gostar muito de “Cantando na Chuva”, como encarar esse cinema hollywoodiano com outros olhos, muito mais interessados e fascinados do que antes.

Dessa forma, mesmo sendo inteiramente diferentes, sinto que posso dizer que essas duas cenas me deixaram verdadeiramente apaixonada pelo cinema. Entre o comício de Vieira e o “Broadway Melody”, parecem residir possibilidades infinitas que, aos meus olhos, são igualmente magnéticas. Tanto no caos cinemanovista ou no deslumbramento de Hollywood, o cinema é capaz de nos atingir muito intimamente, seja nos mobilizando ou nos iludindo, nos desconcertando com a realidade ou nos transportando para lugares totalmente distintos dos que estamos. E depois de vivenciar isso nessas duas experiências tão marcantes, me pareceu simplesmente impossível não me encantar por essa arte.








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