O cinema e nossos dilemas - ou o que Glauber Rocha, Jonas Mekas e as Esquiletes têm em comum

Críticas Gerais

Talvez esse texto aqui acabe sendo só um desabafo muito prolixo e pessoal sobre minha relação com cinema, motivado pelo Desafio de Escrita “A Primeira Vez que me Vi Representando em Tela” aqui do Peliplat. Mas vou correr esse risco e tentar mesmo assim.


“Cada um de nós há de morrer agarrado à sua angústia.”  Essa frase é de autoria de Nelson Rodrigues, e foi dita por ele em meio a um comentário sobre a obra e a personalidade do cineasta Glauber Rocha, em que o famoso escritor chamava Glauber de neurótico e ressaltava como sua filmografia era um reflexo direto de seu estado, o qual definia como o de alguém “a um passo da loucura”. Desde que li essa declaração pela primeira vez, há uns meses, não consigo tirar essa frase da cabeça. Mas você deve estar se perguntando, e com razão, o que isso tem a ver com se ver representado no cinema. Bem, para responder essa pergunta, vou precisar voltar um pouco no tempo.

O ano era 2010 e entrava em cartaz nos cinemas o filme “Alvin e os Esquilos 2”. Eu tinha 5 anos de idade, estava de férias da escola e fui com meu pai assistir. A sala de cinema estava lotada, cheia de famílias que haviam tido a mesma ideia que nós, e como não havíamos comprado o ingresso com antecedência, tivemos que sentar na primeira fileira, de cara para a tela. Mesmo tendo que ver o filme inteiro olhando para cima, minha experiência não foi nenhum pouco afetada negativamente, e saí do cinema empolgadíssima cantarolando “Single Ladies”, da Beyoncé. 

Quando as aulas voltaram, algumas semanas depois, o assunto entre as coleguinhas era um só: qual das esquiletes cada uma de nós éramos. E eu não tinha qualquer dúvida ao responder que era a Jeanette, a esquilete de roupinha roxa, porque, afinal de contas, eu era tímida, estudiosa e amava roxo, o que era mais que suficiente para me fazer ser igualzinha a ela. 

Os anos foram passando e fui construindo uma identificação semelhante a essa com muitos outros personagens de filmes e séries aos quais assistia. Seja por ver nessas figuras aspectos da minha personalidade, me identificar com seus gostos, com as decisões que tomavam e as situações que viviam ou mesmo me achar fisicamente parecida com elas, essas relações se faziam importantes na minha experiência com o audiovisual, mas acabavam sendo sempre momentâneas, sendo logo substituídas por outro personagem e outra história que pareciam me definir melhor que os anteriores. Até que, 10 anos depois de toda essa experiência com “Alvin e os Esquilos 2”, tive uma espécie de virada de chave da minha relação com o cinema ao assistir “Terra em Transe”, de Glauber Rocha.

Sempre conto essa história quando me perguntam o que me motivou a escolher estudar cinema, porque realmente foi um momento extremamente marcante para mim. Eu tinha 15 anos e, em meio a dúvidas sobre o que eu queria fazer no futuro e que caminho eu deveria seguir na vida, decidi explorar outros campos dentro das áreas que gostava. Como já tinha visto muita gente comentando sobre Glauber Rocha e o Cinema Novo, achei que valia a pena escolher um filme dele para ver. E como valeu: fui completamente arrebatada pelas intrigas políticas de Eldorado, e terminei “Terra em Transe” encantada. Minha relação com aquele filme era diferente de todas aquelas experiências com o audiovisual que eu havia tido até então. Não se tratava de uma identificação pessoal com aqueles personagens ou suas escolhas, mas sim com aquele jeito de fazer cinema. A maneira de contar uma história, as escolhas estéticas, a forma de transportar ideias para a tela… Todos esses elementos do filme de Glauber eram capazes de representar para mim um ideal de cinema com o qual eu me identificava e no qual eu acreditava tão profundamente que me fazia querer estudar sobre essa arte pelo resto da vida.

Mais alguns anos se passaram até que, movida por esse ímpeto apaixonado, entrei no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense – no qual estou ainda hoje – e comecei a ter contato com filmes e cineastas dos quais até então nunca havia ouvido falar. Numa dessas, descobri os filmes do Jonas Mekas e novamente me senti transformada. Obras como “As I was moving ahead occasionally I saw brief glimpses of beauty” e “Outtakes from the life of a happy man” pareciam materializar, a partir de uma manipulação relativamente simples de registros audiovisuais caseiros e de uma narração do próprio Mekas, muitos dos questionamentos e das reflexões acerca da vida, da memória, da morte e da busca por propósito que me atravessavam também naquele momento. 

Perceber como as dúvidas e os questionamentos daquele homem, décadas atrás, eram tão semelhantes aos que eu vivia no presente e, com certeza, aos que foram, são e serão vividos por muitas outras pessoas ao redor do mundo, trazia à tona a capacidade incrível que o cinema possui de criar conexões entre pessoas. Seja ao apresentar personagens que se parece  conosco, ao representar nossas ideias ou ao refletir as nossas divagações e sentimentos, esses filmes nos mobilizam muito intimamente. De diferentes maneiras e em níveis distintos, eles nos permitem visualizar em tela as nossas questões mais fundamentais, as angústias tão inerentes da nossa existência. 

Retomo então, finalmente, a frase de Nelson Rodrigues com a qual iniciei esse texto. Se, como afirma ele, temos que viver abraçados as essas angústias até o fim de nossos dias, talvez representá-las e vê-las representadas no cinema nos permita, ao menos, atenuá-las um pouco. Afinal de contas, ao compartilhamos essas experiências de identificação, nós percebemos que não estamos enfrentando os dilemas dessa vida sozinhos.

 

 

Comentários 2

E
Elenice Margalho30 de novembro de 2025
Texto lindo!
G
Glaucia sousa17 de novembro de 2025
Excelente texto!Muito competente !

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