Marty Supreme & os sonhos suprimidos
Críticas GeraisDiz-se que supremo é algo ou aquele que está acima de qualquer coisa, podendo ter uma importância maior em relação aos outros, ou uma postura de protagonista mesmo, de destaque perante o resto. Ou, apenas, quando se está no limite, extremamente no limite. Prestes a explodir… ou implodir. Até porque na explosão tudo à sua volta é afetado, já na implosão apenas o agente. Ou, metaforicamente, quando você explode no mundo dos esportes, as pessoas se importam com você, ficam interessadas nos seus próximos passado.

Agora, quando você implode, você fracassou, ninguém se importa, ninguém pode ter presenciado na verdade. Só você sabe. E precisa conviver com isto. E, dependendo, apenas isso pode bastar. Principalmente se você trabalhar seu psicológico com humildade e pé no chão. No entanto, se você for extremamente sonhador beirando a prepotência e, consequentemente, a arrogância, isto pode acabar sendo análogo à morte. E para cada morte, um recomeço, uma vida, uma segunda vida, seja ela literal ou não. Seja ela justa ou não. Há de se recomeçar. E ninguém precisa saber, só você. Afinal, como é dito em “Everybody Wants To Rule The World”, do Tears For Fears, um dos temas que embalam “Marty Supreme”: “It’s my own design, it’s my own remorse”. Isto é, é a minha ambição, e é a minha queda. Apenas minha.
Dirigido por Josh Safdie, “Marty Supreme” já está nos cinemas em solos brasileiros, e conta a jornada de Marty (Timothée Chalamet), um jovem americano que sonha em ganhar o mundo com suas habilidades no tênis de mesa, até que sua vida começa a desmoronar em um efeito dominó caótico preenchido por uma série alucinante de desventuras e desilusões.
Aqui temos o sonho americano e sua farsa. Em todos os direcionamentos que permeiam a farsa. Seja no espectro macro, da qual podemos condenar o sistema elitista e capitalista como um todo que engole o indivíduo com a falsa promessa de ‘meritocracia’, utilizando-se da falácia clássica de que ‘todos temos as mesmas 24 horas’. Ou, ainda, seja no espectro micro cujo próprio indivíduo falha em seu ofício, ou em seu comportamento social, tornando-se cada vez mais distante de qualquer relação humana dada a frieza oriunda do meio, o ‘ninguém liga para meu sonho, portanto não ligo para o dos outros’. A individualidade gritando por atenção.

Definitivamente, o filme aposta em escancarar o sonho de ser grande, e falhar miseravelmente. Tentar, correr, e não alcançar, ser suprimido (com o perdão do trocadilho). Se o mundo ao redor falhou é porque você falhou também. Falhamos como sociedade individualista, perdidos dentro de ambições, arrogâncias e falsas virtudes. O contexto do longa é de uma Nova York dos anos 50, pós-guerra, comprometendo-se a situar o público na tensão que havia entre Estados Unidos e Japão. O Japão e sua reconstrução. Os Estados Unidos e sua síndrome imperialista de protagonista.
Marty é um jovem judeu que sonha em ser o maior campeão e nome de destaque de um esporte pouco badalado na época: o tênis de mesa. Hoje podemos encontrar um outro olhar para com o esporte. Trata-se de um esporte olímpico muito praticado, seja profissionalmente ou apenas por diversão. No entanto, durante o longa presenciamos que se algum cara qualquer falasse que queria ser grande sendo um atleta deste esporte, seu sonho seria diminuído e ridicularizado. O problema é quando este sonhador é temperamental e está totalmente disposto à virar o jogo, sem código de conduta.

Comentando sobre atuação, muito se fala sobre a entrega de Timothée Chalamet neste papel. Na realidade, é um fato de que em todos os seus papeis recentes, o ator consegue se destacar de uma maneira quase hipnotizante. Versátil, sensível, enérgico. Já vimos Chalamet de inúmeras formas, fazendo ser praticamente um consenso de que seu Oscar irá chegar a qualquer momento. E neste ano, especificamente, talvez esteja mais perto do que nunca. Pois aqui encontramos uma das atuações mais viscerais de sua carreira, acompanhando este rapaz em um espiral de desastres à beira do colapso. Transmitindo toda sua energia, Chalamet imprime em Marty toda a grandiosidade reprimida em seu coração. Aqui temos uma pessoa inquieta, inclusive no âmbito espacial. Marty não para, está correndo o tempo todo, em diferentes países, mirando nos poderosos para alcançar seu lugar ao sol. O ritmo frenético é o que conduz a trama, e é aqui que se entra o tal do ping-pong.

Paralelamente, pensando até no cerne dos esportes, podemos traçar semelhantes na montagem e na trilha entre “Marty Supreme” e “Challengers”, de Luca Guadagnino, da qual acompanhamos a dinâmica entre seus personagens principais, tão envolventes quanto as próprias partidas de tênis. A metáfora do tênis reside no vai-e-vem literal. Por conta disso, a escolha da edição ser quase como um quebra-cabeça vivo no longa de Guadagnino acaba deixando a experiência ainda mais imersiva, além da trilha sonora composta por Trent Reznor e Atticus Ross. Trilha esta que está muito pautada na estética techno, neste caso mais voltada à gêneros como EDM e house.
Já em “Marty Supreme”, temos uma montagem acelerada da mesma forma, porém não é movida à flashbacks e pontos de vista, mas sim à correria do dia-a-dia mesmo, com uma coisa X acontecendo e tendo suas consequências, e não acabando por aí. A coisa X acontece e leva para uma outra coisa Y, da qual é preciso resolver, pois a não resolução levará à outra coisa Z e, assim, sucessivamente. Já a trilha, composta por Daniel Lopatin, também bebe da fonte do techno, com destaque para sintetizadores, porém aqui temos referências mistas de new wave, synthpop, bedroom pop e dream pop, muito presente em um momento pós-punk nova-iorquino, com bandas como Joy Division, New Order, Depeche Mode e o próprio Tears For Fears. Estes elementos estéticos impulsionam nossa empolgação ao longo do filme, criando sensações ansiosas e eufóricas.
Pegando o gancho da ansiedade, é preciso deixar os méritos maiores para a direção elétrica de Josh Safdie. Há muito da temperatura de “Joias Brutas” aqui, seu grande projeto de destaque ao lado de seu irmão, Ben. Uma situação inusitada ocorre para que um acidente abrupto seja a curva necessária para a trama seguir para outro lado, completamente diferente.
Alerta de pequenos spoilers agora: há uma passagem no filme envolvendo um cachorro. A princípio, em uma história convencional, passaria batido a introdução de um senhor com seu cachorro. Até que o caos é instaurado após alguns incidentes, fazendo esse cachorro sumir. Porém não para por aí! O desenrolar da situação tem sua continuidade envolvendo outra personagem, a Rachel (interpretada por Odessa A´zion). Odessa, inclusive, divide ótimos momentos de pura entrega ao lado de Chalamet, ganhando grande destaque no longa de forma gradativa.

Sobre esse viés da ansiedade, podemos dizer que o ‘supremo’ está aqui, em seu âmago. Há muita inquietação, aflição e efervescência, além de haver muita diversão também. “Marty Supreme” é um filme extremamente divertido, progressivamente, à medida que acompanhamos todas as adversidades que estão acontecendo na vida de Marty. Seja traçando planos com seu amigo Wally (Tyler, the Creator) para ganhar dinheiro em partidas amadoras de tênis de mesa, ou seja em um momento onde o tesão falou mais alto e Marty e sua amante Kay (Gwyneth Paltrow), uma grande atriz em declínio, decidem se beijar calorosamente (e outras coisas mais) no meio de uma praça pública à noite. Todas essas situações se escalonam para caminhos completamente mais inquietantes. Lá e cá. Toda hora. Sem parar. Assim como no ping-pong.

Falando no suposto grande destaque, o tênis de mesa, chegamos ao pensamento de que “Marty Supreme” não é como aqueles filmes de esporte, onde o atleta tem sua jornada de provação até triunfar no final. Não é sobre o tênis de mesa em si. É muito mais sobre o que vem ao redor disso. É um esporte do qual poucas pessoas criam interesse, e por este motivo desdenham tanto de Marty e seu sonho. Ora com Kay questionando se Marty ganhava algum dinheiro com isso, ora com o Sr. Rockwell (Kevin O’Leary) surfando na onda do sucesso do esporte no Japão, na intenção de promover seus produtos. E mesmo em meio à tanto desdém, todas as partidas de tênis de mesa aqui são épicas. São elevadas à outro patamar pela trilha em conjunto com a direção primorosa de Safdie, alinhados à presença pungente de Timothée.

Por conclusão, certamente, “Marty Supreme” é um dos grandes destaques da temporada, sendo ovacionado pela crítica com ótimas recepções nas premiações, principalmente nas categorias individuais de atuação. Entretanto, mais que isso. Seu destaque está no conjunto da obra, na coletividade, em contrapartida com o individualismo do protagonista. “Marty Supreme” não é só Timothée, é o caos de todo o elenco, é a pulsação de Lopatin, é a cinematografia urbana e claustrofóbica de Darius Khondji, é a montagem e roteiro efervescentes de Ronald Bronstein e Josh Safdie, dentre tantos outros que realizaram um dos grandes filmes do ano. Este é o triunfo que todos verão, o verdadeiro sonho realizado.
O grande sonho de mostrar que um outro sonho extremamente nichado, específico e menosprezado pode ser vivenciado transcendentalmente pelo seu sonhador. Talvez não do jeito que ele pensava, mas do jeito que aconteceu. Da forma que aconteceu, pois a vida é isso. As coisas vão simplesmente acontecendo. Até que as epifanias e os insights acontecem, seja nas derrotas ou nos (re)nascimentos, nas ressignificações e renomeações. Marty não é supremo… foi suprimido. Pelo mundo, por ele mesmo. Não importa. Sua busca pela perfeição o deixou mais imperfeito ainda. Imperfeito até demais. No fim das contas, ele é literalmente só um cara falho que sonha grande. Assim como tantos outros inúmeros em meio à multidão. E cada um sendo especial, à sua maneira.








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