Adolescentes não são tão importantes assim: análise da 2ª temporada de Maxton Hall
Críticas GeraisEm 2024, as redes sociais foram tomadas por um clipe viral da 1ª temporada da série alemã Maxton Hall, no qual um único vídeo reuniu alguns dos mais populares clichês de romances adolescentes: enemies to lovers, a mocinha pobre e o bad boy rico, e a tal protagonista sendo salva por ele de uma grande humilhação. Foi assim que nasceu um dos maiores sucessos da história da Amazon Originals, por não ter medo de apostar nas fórmulas que todo mundo gosta, relembrando a era de ouro das fanfics na internet, o que ocasionou uma rápida renovação para o seu segundo ano.
Como sempre, tamanho sucesso equivale a altas expectativas do público e, em novembro de 2025, chegou o momento da verdade: a 2ª temporada estreou no streaming prometendo seis episódios fundamentados nos mesmos clichês para contar o momento mais turbulento do relacionamento dos protagonistas. Para quem não sabe, Maxton Hall: Die Welt Zwischen Uns ('Maxton Hall: O Mundo Entre Nós', no Brasil) é baseado na trilogia de livros de Mona Kasten, intitulada Save Me, e cada temporada equivale a um livro. O segundo ano foca nas consequências de Save You, após James Beaufort (Damian Hardung) trair a mocinha, Ruby Bell (Harriet Herbig-Matten), durante uma festa. E essa narrativa delicada poderia ser um grande acerto ou erro da produção. No artigo de hoje, exploro os acertos e erros dessa temporada que possui belos momentos, mas cai na mesma armadilha de outras produções teens: pesar a mão na relevância de seus personagens adolescentes.
Mas primeiro…
Para quem não conhece a produção alemã, recomendo parar por aqui e ler o meu artigo Para além das fanfics: o porquê de Maxton Hall ter feito tanto sucesso, disponível no Peliplat, que discute a 1ª temporada. Agora, para quem precisa apenas refrescar a memória, Maxton Hall é um homônimo colégio da elite britânica, onde são formados futuros líderes mundiais. Para a maioria dos seus estudantes, o sonho é conseguir uma vaga em Oxford, porém esse é um sonho que possui pesos diferentes dependendo da sua condição financeira. Para bolsistas, como a protagonista Ruby, isso significa se esforçar o dobro. Significa manejar seu tempo na escola e ainda trabalhar na cafeteria de sua família, e saber que apenas uma bolsa de estudos pode tornar esse sonho realidade.

Sendo assim, a personagem de Harriet Herbig-Matten não tem tempo para distrações ou se envolver em escândalos. A última coisa que ela precisa é entrar na sala de aula na hora errada e descobrir que Lydia Beaufort (Sonja Weißer) tem um caso com o professor Sutton (Eidin Jalali). Bom, é exatamente isso que acontece e ela se torna um problema, um problema que James, irmão gêmeo de Lydia, deve solucionar. Como um garoto rico e mimado resolve seus problemas? Claro, com dinheiro! Infelizmente, no caso dele, Ruby não pode ser comprada com alguns milhares de euros e isso é demais para seu cérebro em desenvolvimento: James fica intrigado por ela, como se nunca tivesse encontrado alguém com integridade. E, sinceramente, considerando o grupinho insuportável de adolescentes que rodeiam os Beaufort, talvez ele realmente tenha tido pouco contato com pessoas decentes.

Explorando o primeiro livro da trilogia, a temporada foca na colisão entre os dois protagonistas de mundos tão diferentes, principalmente no crescimento de Ruby enquanto seu mundo se expande, e nos dramas escolares do último ano do Ensino Médio, rodeados pelo misticismo de Oxford e pelo intoxicante efeito que poder e dinheiro têm sobre mentes em desenvolvimento — e nos adultos também. A temporada termina com a morte repentina de Cordelia (Clelia Sarto), mãe de James e Lydia, e dona de empresa consolidada no mundo da moda, que seus filhos estão destinados a herdar, quer eles queiram ou não.
Montanha Russa Emocional
Esse é o título do terceiro episódio da 2ª temporada e não deixa de ser a melhor maneira de definir essa nova leva de episódios. Se a 1ª temporada focou no crescimento de Ruby, os novos episódios chegam para destruir e reconstruir tanto James quanto o relacionamento dos dois. Não é à toa que Save You é o título do segundo livro que serve como material de base para o roteiro. Para quem está acostumado a conseguir tudo com dinheiro — exceto o amor — a morte de sua mãe, que não pode ser evitada nem com todo o dinheiro do mundo, é compreensivelmente devastadora para James. Logo no retorno da série, bebidas, drogas e festas o levam ao hospital, após um acidente de carro, onde ele descobre que enterrar os seus sentimentos só trará mais dor. Essa epifania não significa que ele simplesmente vira uma chave em sua cabeça e se torna alguém melhor, mas ele passa a primeira metade da nova temporada reconquistando Ruby, se esforçando para mudar com a ajuda de um psicólogo, enquanto ainda sofre com o luto, as últimas semanas de aula e a pressão de estar mais presente nos negócios da família.

Maxton Hall aposta na exata mesma fórmula do ano de estreia para reaproximar o casal. Se na 1ª temporada Ruby e James se conheceram melhor durante os preparativos para um baile vitoriano no colégio, o segundo ano os coloca juntos para montar em poucos dias uma gala para a Fundação Alice Campbell, uma instituição de caridade que possui iniciativas de suporte emocional para jovens de baixa renda. Algo que toca James e se torna essencial para ele entender melhor a sua dor. O ex-casal está no comitê de eventos da escola e é a ideia de Ruby que é escolhida pela fundadora da instituição para ser o tema do ano: corações frágeis. Por que uma instituição milionária confiaria a um grupo de adolescentes todos os preparativos de um evento que reúne da realeza a CEOs bilionários? Ninguém sabe, mas faz parte do grande problema em volta de séries teens que desejo abordar neste texto.
Adolescentes
Sejam livros, séries ou filmes voltados ao público adolescente, a grande maioria das histórias que conquistaram o público jovem possui uma coisa em comum: o roteiro aposta em responsabilidades demais para aqueles que ainda estão crescendo. A adolescência é um período de descobertas, a transição entre a infância e a vida adulta — apesar de que, convenhamos, a maioria das pessoas não sabe o que está fazendo no mínimo até os 30 anos. Mesmo assim, protagonistas adolescentes acabam recebendo responsabilidades absurdas que normalmente envolvem salvar o mundo ou pelo menos a sua cidade. Seja um grupo de crianças que descobre o Mundo Invertido em Stranger Things, lobisomens adolescentes em Teen Wolf, ou uma jovem doppelgänger dividida entre dois vampiros centenários e tentando salvar sua cidade e sanguessugas mais antigos ainda, como Elena Gilbert em The Vampire Diaries, os adolescentes simplesmente passam por coisas demais!

Em Maxton Hall, o defeito da 2ª temporada é constantemente colocar seus protagonistas em situações que deveriam ser resolvidas por um adulto responsável, mas eles acabam sendo vítimas desses adultos. Para início de conversa, o roteiro continua romantizando o relacionamento de Lydia com seu professor: ela está grávida de gêmeos, sob a justificativa de que se formará logo e que eles haviam se conhecido fora do ambiente escolar. Por algum motivo, nem o irmão dela acha isso estranho. Parece uma tentativa de repetir o que foi observado e repudiado em Pretty Little Liars, quando Aria (Lucy Hale) se apaixonou pelo professor Ezra Fitz (Ian Harding). A diferença é que 15 anos separam essas duas séries e parece que nada foi aprendido.

Outro exemplo na família Beaufort é Mortimer (Fedja van Huêt), patriarca e grande vilão da trama. Desde o começo, ele se mostrou contra o relacionamento de Ruby com o seu filho, pois em sua cabeça o lugar de James é com Elaine Ellington (Eli Riccardi), filha de um dos investidores da marca Beaufort e a epítome de uma mean girl. Mortimer varia entre breves momentos de emoção, quando faz seu papel de pai que deve cuidar de seus filhos enlutados, e momentos de pura frieza, quando vilaniza Ruby pelo crime de ter se apaixonado pelo garoto rico.
Mortimer talvez seja um dos pais da televisão mais desprezíveis que assisti recentemente. Ele se casou com Cordélia, herdeira dos Beaufort, mas esqueceu suas próprias origens humildes. Dinheiro, poder e conexões o transformaram em um monstro que ignora a filha para favorecer a sua ideia de ter um herdeiro homem, ainda que James tenha pouco interesse na empresa. Todas as ideias novas são criadas por Lydia, que verdadeiramente quer estar envolvida nos negócios, porém a jovem nunca recebe nenhum crédito. Devido a erros do passado, ela é vista como emocionalmente instável — sendo que é a única em sua casa que parece manter a cabeça no lugar — e uma bomba prestes a explodir. A personagem de Sonja Weißer é condenada a uma posição nos bastidores, sugerindo ideias, coletando dados e preparando todas as apresentações da marca para o Conselho de Administração, enquanto secretamente lida com a sua gravidez.

Para uma empresa tão grande e geracional como a Beaufort, é inacreditável que não exista um analista, um adulto sequer que possa preparar esse material ou pelo menos apoiar Lydia enquanto ela tenta sobreviver às últimas semanas de aula. O próprio pai parece incapaz de tomar uma decisão no Conselho sem arrastar James para o seu lado. E quando o filho não possui respostas ou não está presente? Mortimer não sabe o que fazer. É isso mesmo: milhões de euros, investimentos e uma mesa cheia de acionistas são confiados a um adolescente que não quer estar ali, mas recebe os créditos no lugar da irmã que está fazendo um trabalho que nem deveria ser seu, ainda que seja louvável ela querer se envolver nos negócios da família desde jovem. O fato é que esses irmãos não podem ser responsabilizados pelos erros que estão gerando uma crise na empresa.
O ápice do absurdo é quando Harold Ellington (Bernd Lambrecht), maior acionista da Beaufort, decide retirar seus investimentos por dois motivos: James ter faltado a uma reunião quando tinha um compromisso escolar, e porque ele não está mais namorando a filha de Ellington, Elaine. E como se não bastasse, o patriarca dos Beaufort, devido a uma necessidade do roteiro de atrapalhar ainda mais o casal de protagonistas, decide que Ruby é a maior culpada de tudo. Afinal, o relacionamento deles transformou James em uma pessoa melhor, que tenta descobrir quem é no mundo e não faz apenas o que o pai deseja.
Fim de temporada
Por mais que o roteiro tenha pesado a mão e transformado tudo em um grande circo, há belos momentos na 2ª temporada. É lindo assistir à reconstrução da confiança entre Ruby e James, ver quanta autoconfiança ela ganhou e o quanto ele parece mais centrado. Os momentos românticos são acompanhados de belas trilhas sonoras e uma direção de fotografia de dar inveja. A informação de quem foi responsável não está disponível, pelo menos não encontrei em minhas pesquisas, mas a produção alemã trabalha muito bem jogos de luz natural e sombra para apresentar Ruby como uma guia para James, e para destacar a escuridão na qual o protagonista está preso. Ainda, momentos de luz artificial, como nas festas, também compõem cenas belíssimas. O grande destaque fica para a cena do ensaio de fotografias para o álbum de formatura, inspirado em Midsommar, no episódio cinco. Esse cuidado técnico costuma ser deixado de lado em produções do gênero, principalmente voltadas ao público jovem, como se eles não soubessem reconhecer qualidade técnica. Porém, Maxton Hall não comete esse erro.

Por sinal, não é possível falar da nova temporada sem destacar o trabalho impecável de Harriet Herbig-Matten e Damian Hardung para contar os momentos difíceis desse relacionamento. Além da química, os atores realmente se entregaram à montanha russa emocional vivida nos arcos de seus personagens. As lágrimas estão constantemente presentes e não são parte de um melodrama desnecessário, mas são reflexo de um período conturbado durante uma fase tão decisiva e repleta de mudanças que é a adolescência. É uma pena que não se possa dizer que outros personagens, além do casal e de Lydia, tenham tido espaço no roteiro para desenvolvimento de seus arcos com maior profundidade. Subtramas de outros relacionamentos são descartadas na reta final da temporada, fazendo mal uso do elenco jovem.

O season finale, intitulado Alcançando as Estrelas, começa com uma sensação de que um passo para frente foi dado. Entretanto, qualquer seriador sabe que quando os protagonistas estão resolvidos e ainda faltam vinte minutos para o fim do episódio, o resultado só pode ser alguma desgraça. Após o pai de James, Mortimer, passar a temporada atormentando Ruby, em uma mistura de vilania e desequilíbrio mental, a cereja do bolo acontece nos minutos finais: ele cria uma situação para dar a entender que Ruby, ao invés de Lydia, é quem possui um relacionamento proibido com Sutton, a partir de uma foto antiga dos dois em um evento na escola, o que ocasiona a suspensão imediata da aluna e a prisão do professor.
Mortimer está mais do que ciente de que sua filha é quem estava envolvida com ele, mas essa é a última pá de terra para enterrar o futuro de Ruby. Como se não bastasse ele comprar a confeitaria onde a mãe dela trabalhava, levando à sua demissão, e ameaçar a Fundação Alice Campbell que havia prometido custear os estudos dela em Oxford, agora essa suspensão da faz com que a protagonista não possa se formar e nem concorrer a outras bolsas de estudos. É uma vingança muito elaborada contra uma simples adolescente e o que mais causa revolta é que tudo isso é recebido com apatia tanto pelos pais dela — que são figurantes na história — quanto pelo diretor do colégio, que sempre faz os caprichos do Sr. Beaufort.

No fim, a 2ª temporada de Maxton Hall é uma montanha russa não somente emocional, mas de escolhas no núcleo adulto que extrapolam os limites e deixam de ser algo crível. Afinal, de duas, uma: Ruby Bell é uma jovem manipuladora capaz de destruir a família Beaufort, ou Mortimer possui um comportamento que beira a psicopatia para justificar a vilania que o roteiro acredita que precisa. Por mais que esse seja o caminho natural da história para chegar ao último livro da trilogia, Save Us, no qual Ruby e James devem lutar para limpar o nome dela e libertar o jovem de sua família tóxica, o material original tinha colocado nas mãos de um adolescente a vingança com a foto que gera essa confusão, o que faria mais sentido, sendo uma decisão criativa da série colocar a participação do pai de James. Para a temporada final, espera-se que Maxton Hall entenda que, sinceramente, adolescentes não são tão importantes assim.
Você assistiu aos novos episódios do hit alemão? Não deixe de comentar a sua opinião sobre as escolhas [duvidosas] da nova temporada!
















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