O saldo do 31º Critics Choice Awards (e o que precisa mudar)

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Aconteceu ontem, dia 4 de janeiro, o 31º Critics Choice Awards. A premiação da crítica norte-americana é uma das mais longas premiações televisionadas, com cerca de três horas de duração e prêmios distribuídos entre cinema e televisão. Como membro da Critics Choice Association desde 2023, votei em 2023 e 2024. Não pude participar da votação este ano devido ao baixo volume de filmes assistidos ao longo do ano de 2025, mas acompanhei de perto o processo de votação, que se iniciou dia 22 de outubro, com a submissão dos filmes a serem considerados, e se encerrou dia 22 de dezembro, com o envio dos votos finais.

Ao lado do Globo de Ouro e do próprio Oscar, o Critics Choice é uma das três premiações de cinema televisionadas na temporada. Embora não tenha o mesmo perfil de votantes que o Oscar (nem o Globo de Ouro também, diga-se de passagem), estamos falando de críticos de cinema, jornalistas e criadores de conteúdo; é incontestável que o CCA tem o condão de jogar luz em filmes que podem ganhar ou perder oxigênio ao longo dos próximos dois meses até o Oscar. É um termômetro interessante para perceber o nível de popularidade, de atenção, que cada filme tem recebido no país.

Na temporada de premiações, o que realmente importa é que o filme seja visto. Para que o filme seja visto, é preciso que ele seja comentado. Para que seja comentado, é necessário que esteja em evidência ao longo das premiações que antecedem o Oscar. E, para isso, é claro que o investimento também é fundamental. O valor a ser investido no filme é proporcional à quantidade de “hype” que irá agregar ao longo da temporada e isso, já entrando no assunto principal da noite para nós brasileiros, é relevante para O Agente Secreto.

Um dos prêmios mais surpreendentes de ontem foi o de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa para o filme de Kleber Mendonça Filho. O longa foi o primeiro brasileiro a receber o prêmio em 31 anos de premiação, mas, infelizmente, não teve a categoria anunciada durante a cerimônia. A entrega do prêmio aconteceu de maneira constrangedora no tapete vermelho, pegando Emilie e Kleber de surpresa, um momento que ainda está rendendo uma péssima repercussão nas redes sociais.

É claro que ao todo somam-se quase 50 categorias diferentes e é impraticável apresentá-las no espaço de três horas, mas me pergunto o que O Agente Secreto (ou a NEON) fez diferente de Emilia Perez (e da Netflix) para que o prêmio passasse de uma categoria importante, anunciada por Jackie Chan, para uma subcategoria que sequer merecia ser televisionada. Isso tudo no intervalo de menos de um ano.

Já Wagner Moura, que concorria a Melhor Ator Coadjuvante em Série Limitada ou Filme para Televisão por Dope Thief e Melhor Ator por O Agente Secreto, perdeu ambos os prêmios para Owen Cooper (Adolescência) e Timothee Chalamet (Marty Supreme), respectivamente. O ator, contudo, não foi para casa sem ter um momento viral. Quando subiu ao palco ao lado de Kleber Mendonça para anunciar a categoria principal da noite, Wagner complementou a fala de Kleber: “Vamos anunciar o Melhor Filme ou, como dizemos no Brasil, Melhor Filme Internacional”. Foi como lavar a alma depois da maneira como a categoria foi tratada.

Wagner Moura faz piada após vitória por filme no Critics Choice Awards 2026

Antes que eu me esqueça de mencionar, tivemos outro prêmio para o Brasil que não foi televisionado. O brasileiro Adolpho Veloso ganhou Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem, uma produção Netflix. Nas demais categorias técnicas da noite, que também não foram anunciadas ao longo da cerimônia, Frankenstein (Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Direção de Arte) foi o grande vencedor da noite.

Diretor brasileiro ganha Critics Choice Award de Melhor Fotografia

Outros filmes como F1 e Avatar: Fogo e Cinzas também apareceram em categorias técnicas, mas foi o filme de Del Toro que saiu mais forte ontem, sem dúvidas. Ao contrário de Wicked: For Good, que foi um fracasso total. Se olharmos para o Critics do ano passado e para o desse ano, a (in)diferença para com o filme de Jon M. Chu é impressionante e acho que se dá não apenas pela falta de qualidade do longa, como pela concorrência de Frankenstein, que parece competir diretamente pela atenção dos votantes nas mesmas categorias.

Um ponto positivo para o Critics ontem, inclusive, vai por premiar dois filmes de terror, Frankenstein e A Hora do Mal, em categorias de coadjuvante. O monstro de Jacob Elordi não foi nem por um momento o maior cotado para vencer a categoria, que contava com nomes como Sean Penn, Benicio Del Toro e Stellan Skarsgård. Já Amy Madigan deve ser uma das primeiras, senão a primeira, a vencer a categoria com um filme de terror. Infelizmente não é nada comum que em premiações desse calibre as atuações em filmes de horror sejam consideradas, quiçá que vençam prêmios principais.

Por falar em filmes de horror com prestígio nas premiações, Pecadores é um enorme ponto fora da curva nessa temporada. Não apenas por ser um filme de terror de vampiros figurando entre os mais premiados, como pela sua forte carga política, cultural e racial ligada à ancestralidade e resistência do povo negro norte-americano. O longa levou para casa quatro prêmios: Melhor Roteiro Original, Melhor Ator/Atriz Jovem, Melhor Elenco e Melhor Trilha Sonora. Atualmente, seu maior concorrente é apenas o grande vencedor da noite: Uma Batalha Após a Outra, do diretor Paul Thomas Anderson.

Uma batalha após a outra' é o grande vencedor do Critics Choice Awards  2026; 'O agente secreto' é melhor filme internacional

Embora tenha ganhado menos prêmios que Pecadores e Frankenstein, Uma Batalha Após a Outra levou a categoria principal da noite, além de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção para PTA. O nome do diretor já tem certo prestígio em Hollywood há anos, então nada mais esperado que, assim como Christopher Nolan teve seu momento com Oppenheimer, o de Thomas Anderson finalmente chegasse. Ademais, a própria política interna dos Estados Unidos junto à conjuntura política mundial favorece um filme que aborda os dois lados do extremismo para falar sobre revolução. 

A essa altura do campeonato, para mim não há dúvidas de que a disputa que veremos daqui dois meses no Oscar irá se resumir ao filme de PTA e qualquer outro que ainda consiga ter oxigênio suficiente para chegar até lá como um concorrente à altura dele — que eu espero que seja o filme de Ryan Coogler ou, sendo ultraotimista, o de Kleber Mendonça Filho, por quê não?

Por fim, é impossível encerrar esse texto sem me referir à necessidade de uma mudança urgente na estrutura da premiação. O Critics Choice foi, durante anos, a minha premiação favorita da temporada e tem se tornado cada dia mais problemática, seja pela duração, que implica em uma cerimônia extremamente apressada, seja pelas escolhas, que se centram cada vez mais no que acontece nos Estados Unidos e vão na contramão da internacionalização do Globo de Ouro e do próprio Oscar. Talvez seja preciso retirar da organização a mentalidade autocentrada que impede de perceber virtudes em filmes que saiam muito da bolha do que é consumido em Los Angeles, nos EUA como um todo ou na Europa.

Possivelmente dividir em duas premiações, uma apenas para TV e outra para cinema, ou até mesmo enxugar categorias para as quais já não é dada a devida atenção. Considerar abrir para mais votantes internacionais, considerar manter um padrão mais bem estabelecido para as premiações, o que evitaria que gafes como a de O Agente Secreto no tapete vermelho voltem a acontecer. O umbigo de Hollywood já vem deixando de ser o centro absoluto do audiovisual do mundo há alguns anos, mas parece que ainda vai demorar para que mudanças estruturais significativas sejam feitas em uma das premiações mais importantes (e vistas) da temporada. É urgente acordar para uma nova realidade que contribui para a construção dos novos paradigmas do que se entende como qualidade. Quanto mais tempo esse processo demorar, mais a relevância que hoje ainda carrega se irá se dissipar.  

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