O natal que encontramos pelo caminho: volume 2
Críticas Geraisedição 2025
Será que meados da segunda quinzena de dezembro é muito tarde para mandar uma lista de filmes tristes (e bonitos) de natal? Espero que não. Sempre tem aquele filme que pode ser visto às vésperas, ou na noite do dia 25 quando estamos já com a barriga cheia e realizados com a troca de presentes e todo o clima que a data carrega. Tendo em vista que o volume 01 das indicações de natal postei justamente no dia 22 de dezembro, acho que vou manter a tradição.
Esse ano tenho pensado nas compras, e essa é mais ou menos a temática da minha lista.
Desde o salário de novembro, ou a primeira parcela do 13º (para os brasileiros CLTs) já estamos pensando em compras, seja para presentear nossos queridos e familiares; o que vamos comer na ceia; a roupa que vamos usar para festa ou até mesmo pra ficar bonito e arrumado na noite da véspera no sofá da sala jogando Uno com a família. Toda a correria começa antes, há muitas promoções aqui e ali, a Black Friday, novas coleções e tendências, roupas com cores do ano, e bom, até o ato de montar a decoração de natal envolve o ato de comprar.

É uma época muito gostosa para alguns, mas tensa para outros, principalmente aos que ficam na linha de frente de lojas e comércios no geral. Essas pessoas fazem hora extra, ficam sem folga ou descanso e se desdobram em mil para fazer com que uma exigência de cliente dê certo, para atender expectativas e fazer com que o clima de natal não seja estragado por nada. Precisa ser lucrativo para todos e sem perder a magia. Numa correria dessas, muita gente apenas fica do lado do sacrifício.
É claro que o cinema já se debruçou sobre o assunto também. E eu por uma quase sorte encontrei esse ano o filme que transmite o sentimento de quem está do outro lado do balcão. É com ele que começo meu top 03 “O natal que encontramos pelo caminho volume 2”
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"Christmas, again” (2014) - Charles Poekel

Noel (hm) é um cara que vive de pequenos bicos, final do ano vende árvores e decoração natalina, e para cumprir a função durante os dias que antecedem o natal é preciso que more em um trailer, não é algo muito fácil porque as condições são precárias e existe o fator neve, mas para além disso este ano em especial Noel está cabisbaixo, pois é recente o término do seu relacionamento, e até então sua companheira se juntava a ele nessas missões, logo o clima para ele diverge e muito do resto do ritmo da cidade, a maneira como pessoas reagem nesses dias, toda a agitação e expectativa que se espalha por toda a parte.
Somos testemunhas das mais diversas interações que ele vivencia, nem todas boas, clientes às vezes são grosseiros e apressados, seus colegas de trabalho não são empáticos, seu fornecedor é uma pessoa muito crua, todos que passam por Noel tem pelo menos algo a compartilhar a respeito da data festiva, e nem sempre é algo agradável. Nesse ínterim Noel tem contato com uma mulher que é bastante misteriosa e que vez ou outra surge em sua rotina.

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Christmas, again é um filme bastante realista, se há alguma magia nele é nessa vertente, mas chegue e fique até o final pra saber, pois vale a pena. A fotografia melancólica composta pelas luzes de natal ao fundo e fora de foco traz uma sensação de tristeza calma, tem um aspecto bem forte das obras de Edward Hopper, os diálogos são muito bons e os silêncios melhores ainda, a trilha sonora é majoritariamente música clássica e canções natalinas, todas bem nesse clima ameno, e bom, em um dos pontos altos da trama surpreende com uma belíssima canção da Marissa Nadler, quando a escutei não tive dúvidas, era ela.
Um filme para lembrar que nenhum natal é perfeito mas encontramos beleza nele ainda assim.

“Meu tio Antoine” (1971) - Claude Jutra

Em Meu tio Antoine presenciamos o clima e os preparativos para as festividades natalinas através do olhar maravilhado de um menino. Benoit é um órfão que trabalha meio expediente no armazém do tio Antoine, e de lá tudo acontece pois esse não é um armazém qualquer, todos da família tem mais funções além de cuidar do pequeno comércio, a esposa faz uns trabalhos de costureira e tio Antoine também é agente funerário que presta serviços aquela pequena comunidade, enquanto eles decoram toda a loja e montam a vitrine para exibi-la na véspera de natal, vamos conhecendo um pouco mais da rotina da vila. Benoit vai crescer um pouco mais nesse último natal, quando se oferece a ajudar o tio Antoine a conduzir um enterro de emergência.

Dirigido por Claude Jutra, Mon oncle Antoine é um filme canadense dos anos 70 com muita neve, um pouco de lama e algumas cenas chocantes aqui e ali, sem perder o espírito realista, e claro, também o espírito natalino.
Destaco a cena de estreia da vitrine decorada às vésperas do natal, no filme fica muito evidente a importância e expectativa daquela composição de vitrine para os vizinhos, o quanto o momento é especial para todos, adultos e crianças se amontoam diante da loja, procurando a melhor vista, a cena não deixa de ser um tanto cômica também e muito bonitinha. Durante a primeira metade do filme, quando estamos locados ali no armazém, é possível ver um enorme calendário ao lado do caixa marcando os dias 23 e 24 de dezembro, isso nos localiza muito bem em tempo real no decorrer da trama.

“Os padrinhos de Tóquio” (2003) - Satoshi Kon

Justamente na noite de véspera de natal três moradores de rua que juntos formam uma espécie de família desajustada encontram uma criança que foi abandonada no lixo. A princípio ficam na indecisão de integrar ou não esse bebê ao grupo, já que não possuem qualquer recurso para ajudar, mas tão pouco podem abandonar a criança à própria sorte, eles então decidem partir à procura dos pais desse bebê, mesmo tendo pouquíssima ou quase nenhuma ideia de por onde começar. Conforme se entregam a essa aventura noite a fora, nós, do lado de cá, aprendemos um pouco mais do passado de cada um dos três, um passado do qual eles tentaram fugir há tempos mas que agora serão obrigados a encarar.
Tendo como base a história bíblica conhecidíssima dos três reis magos junto aquela abordagem das obras de natal de Charles Dickens, Padrinhos de Tóquio pode parecer muito triste e pesado, mas aí que está, ele é belamente equilibrado com afeto, redenção e cenas hilárias de comédia. Satoshi Kon conhecido por obras já consagradas como Perfect Blue e Paprika, traz um trabalho muito especial aqui, é perfeito para ser visto anualmente.

Trago Padrinhos de Tóquio como uma espécie de encerramento de ouro pertencente a essa lista, a intenção é enfatizar que não se trata apenas de bens materiais e presentes o que compõe nossas comemorações, principalmente nessa época do ano, ser amado, compreendido e visto, existir, é o que temos de mais precioso.
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Aproveite seu natal feliz na companhia da sua reflexão de natal favorita, boas compras, com moderação e educação. Até 2026.










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