O que um médico que já trabalhou em um Pronto-Socorro achou de The Pitt, a Melhor Série de 2025 no Emmy

Aspectos Socioculturais

Minha experiência com The Pitt começou em março deste ano e só terminou agora, nos 45 do segundo tempo de novembro. Eu sei, foram doses homeopáticas. E olha que eu já pirei logo de cara na premissa de mostrar um turno completo no hospital, sendo cada um dos 15 episódios da primeira temporada equivalente a uma hora de plantão. Mas eu assino em baixo com a decisão do Emmy 2025 de consagrá-la como a Melhor Série de Drama do ano. Ela chegou meio do nada, sem que ninguém previsse, e Dr. Robinavitch roubou a cena junto com os residentes do Hospital Médico de Trauma de Pittsburgh, com destaque para Melissa "Mel" King, interpretada por Taylor Cranston – caso o sobrenome soe familiar, eu só digo uma coisa: you're goddamn right.

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Na ocasião, um dos meus melhores amigos estava em casa e decidimos dar play na série médica da HBO Max. Achei que era uma boa ideia, afinal, o Nick é médico, e seria interessante ver em tempo real a reação dele sobre como sua profissão estava sendo retratada na ficção. Meses depois daquela primeira maratona, nós dois terminamos a série e decidi fazer umas perguntinhas sobre The Pitt para o Doutor Nicolas Fuenzalida, médico clínico geral e meu amigo desde que nós dois estávamos nas barrigas de nossas mães. Confira a entrevista abaixo:

Você já trabalhou em um PS (Pronto-Socorro), certo? Qual é a sua especialidade?

Já trabalhei em PS como clínico geral/porta e na emergência. Atualmente, eu atuo na especialidade de MFC, o que não deixa de ser caótico, às vezes pior do que alguns plantões, hahaha.

De um modo geral, o que achou da série The Pitt? O que mais te chamou a atenção?

Eu não sou muito fã de séries médicas, nenhuma tinha me chamado a atenção, seja pelo excesso de drama ou falta do fator medicina ou pelos casos serem muito absurdos, tanto o caso em si como as atitudes médicas. Porém, The Pitt me pareceu completo tanto na escrita dos personagens como na medicina em si que é aplicada. Gostei bastante.

Alguma cena ou episódio específico te marcou por parecer muito real - ou muito distante da realidade?

Quando fiquei sabendo das "horas extras" do plantão, imaginei que fosse devido a algo muito fora da realidade. Eu nunca estive em um caso de tiroteio ou acidente que gerasse tantas vítimas, mas consigo imaginar o caos que seria. Algo específico que gostei foi mostrarem que a Covid ainda influencia na vida dos profissionais de alguma forma: para muitos, a pandemia acabou e pronto, mas a realidade é que ela deixou sequelas profundas em muitas pessoas, sejam elas físicas ou não. E a cena dos antivax me causa um mal estar gigante.

O quão fiel você acha que The Pitt é ao dia a dia de quem trabalha em um pronto-socorro? E existe alguma grande diferença, por se tratar de uma série ambientada nos Estados Unidos?

Todo o "mediquês" da série é muito bem feito, assim como os protocolos e técnicas utilizadas. No Brasil, usamos a maioria dos protocolos americanos, então foi possível reconhecer boa parte daquilo, foram bem realistas e capazes de passar a sensação de estar em um dia caótico de plantão. Assim como a relação entre toda a equipe profissional, médicos, enfermeiros e alunos, foi bem realista também. Para quem quer saber como é trabalhar na área da saúde, The Pitt é uma ótima forma de aprender mais.

Há algo que a série captou bem? O caos, a exaustão, a pressão, as decisões rápidas?

Sim, tudo isso foi bem adaptado. Você mal acaba de realizar um procedimento ou está se preparando para tal e já chegam mais 10. A série captou bem também como a burocracia não ajuda, a todo momento a diretora do hospital aparece com algum pedido ou ordem que não ajuda em nada ou comentando como é importante metas do hospital e a boa aparência do mesmo.

E o contrário: o que mais te pareceu exagerado ou “glamourizado” no retrato da profissão?

Não teve nenhuma cena que parecia muito romantizada, na verdade, pelo contrario: a série retira o romantismo da medicina e da desumanização dos médicos.

Você se viu em algum personagem ou situação da série?

Acredito que é possível se enxergar em vários, dependendo do momento, haha. Pelo foco, acredito que me enxergo bastante no Dr. Robby, ele é um pouco mais seco e seus métodos são um pouco mais agressivos dependendo do caso, e isso se faz necessário quando se está numa situação caótica.

Inclusive, no final da temporada a equipe comenta que "esse foi o primeiro dia desses alunos!", tendo sido um começo e tanto, e me lembrou meu primeiro dia na emergência, onde eu cheguei um pouco mais cedo para poder conhecer a equipe e o local, mas ao chegar já fui recebido com uma parada cardíaca, e antes de que eu pudesse me apresentar ou qualquer outra coisa, já estava na sala de emergência realizando um RCP.

Como The Pitt se diferencia de clássicos como ER (Plantão Médico) e Grey’s Anatomy?

ER não cheguei a assistir. Grey’s Anatomy, pelo pouco que consegui ver, era muito drama e muita novelização.

E falando de produções nacionais, o quanto Sob Pressão consegue chegar perto da realidade dos prontos-socorros brasileiros?

Eu preciso assistir essa até o final, só vi algumas partes, mas foi antes de me formar como médico. Seria melhor eu assistir a série agora, tendo o contato com esse ambiente diariamente.

Se fosse fazer um ranking de realismo com The Pitt, Sob Pressão, Grey’s Anatomy e ER, qual seria sua ordem?

Ainda não posso opinar ou rankear, mas, sinceramente, acho difícil alguma série superar o The Pitt.

Quais aspectos do trabalho em PS você acha que as séries ainda não conseguiram retratar bem?

Eu diria que seria boa parte da desumanização dos médicos, todo esse romantismo de "deixar seus problemas de lado e salvar vidas". Gosto que, em The Pitt, os médicos são humanos, eles "não desligam uma chavinha e viram médicos", eles continuam trabalhando, mas o corpo e mente pesam, cada caso mexe com eles de alguma forma. Problemas pessoais, traumas, problemas jurídicos, indecisões, o desejo de desistir tudo até se passa na cabeça de um médico durante um plantão. Certos casos são um "feijão com arroz" por mais complexos que sejam até chegar algo que afeta o interior da pessoa, que pega seu calcanhar de Aquiles e é o que faltava para tudo transbordar e aí temos cenas de quebra como a série apresenta.

Como profissional da área, é mais prazeroso ou angustiante assistir a esse tipo de série?

É uma mistura de prazer e angústia, hahaha. Saber a gravidade dos casos ou da situação só dela começar em tela, ver os personagens sob pressão sabendo que eles não estão nas melhores condições… Por outro lado, ver todo procedimento sendo realizado, as técnicas corretas, o tratamento com pacientes e como a equipe se apoia. Como eu disse antes, são muitas emoções durante um plantão.

Se você pudesse dar uma consultoria pros roteiristas de The Pitt, que conselho daria pra tornar a série ainda mais próxima da realidade?

Por ora, a série tem trabalhado bem e a atuação tem sido muito boa. Estão de parabéns! Acredito que estão seguindo um caminho ótimo no sentido de realismo.

E por fim: depois de ver a série, o que você gostaria que o público entendesse melhor sobre o trabalho em um pronto-socorro?

Acho que o lado humano. Ainda os profissionais de saúde ainda são enxergados como máquinas que não comem, não dormem, não precisam realizar pausas, mas a série deixa bem claro que não é bem assim: cada redução das necessidades básicas afeta o profissional e suas condutas. Também é importante lembrar de vacinar suas crianças, vocês viram o problema que deu com aquela família antivax, certo? Um caso de sarampo desses com certeza está entre meus piores pesadelos, hahaha.

A primeira temporada de The Pitt está disponível na HBO Max e conta com 15 episódios. A segunda temporada já está confirmada, com estreia prevista para janeiro de 2026.

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