MANK: Uma relação complicada com o filme de David Fincher
Críticas GeraisAo longo dos anos 2010, David Fincher provavelmente foi meu diretor preferido. Em uma sequência primorosa de jovens clássicos, o cineasta americano foi do drama corporativo A Rede Social para sua própria versão superior do sombrio thriller Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres até a comédia romântica perturbada que é Garota Exemplar. Uma trinca de ases que oferece um verdadeiro “mic drop” cinéfilo, e que levaria Fincher para um grande hiato de produções cinematográficas: ele foi responsável por dar a forma estrutural para a Netflix, tendo dirigido episódios de House of Cards e a subestimada Mindhunter, além de ficar preso no desenvolvimento de projetos que nunca saíram do papel (como uma sequência de Guerra Mundial Z).
Fincher sempre teve um problema com executivos de Hollywood, algo que literalmente marcou seu primeiro trabalho no setor com o problemático Alien 3. A experiência é bem diferente na Netflix, notória por conceder controle criativo absoluto para seus criadores, e isso certamente atraiu Fincher para continuar essa colaboração. Após duas séries caríssimas, era hora do cineasta se aventurar em um filme original Netflix: Mank, que tiraria do papel não apenas um de seus sonhos, mas o sonho de seu pai, o falecido jornalista Jack Fincher, que há anos mantinha na gaveta um roteiro ambicioso sobre os bastidores do clássico Cidadão Kane. Mais especificamente, uma crônica sobre seu esquecido roteirista, o carismático Herman J. Mankiewicz, supostamente o grande idealizador do épico dirigido por Orson Welles em 1941. A ideia de David Fincher fazendo um filme sobre a Hollywood dos anos 40, com foco em Cidadão Kane? Não tem como dar errado.

Então, temos o filme. Ele sairia em 2020, no auge da pandemia da Covid-19, um período complicado e que provoca lembranças difíceis na maioria. Lembro-me de ter tido a sorte de assistir ao filme em uma sala de cinema vazia, como parte das exibições limitadas que a O2 Play anualmente oferece para alguns títulos da Netflix. Como qualquer filme de Fincher, Mank é uma obra que visa a perfeição estética, o que já bate de frente com a ideia ambiciosa de recriar a apresentação da década de 40, tanto na fotografia em preto e branco de Erik Messerschmidt quanto no inspirado trabalho de mixagem de som de Rei Klyce, que aposta na sonorização em mono.
Tecnicamente, me incomoda um pouco como Mank soa um tanto “fake”, apresentando uma tela widescreen (que não existiria em 1941) com as características de uma película recriada na pós-produção, visto que Fincher jamais abandona suas câmeras digitais. Por um lado, é uma falseada que não faz muito sentido e peca pelo anacronismo, mas por outro… É literalmente a visão de um autor do século XXI para eventos do século passado, então mesmo mantendo a aparência do passado, tem literalmente em sua tela o enquadramento do futuro.
Indo para a substância do texto em si, acho elegante como Mank toma emprestado diversos elementos estruturais de Cidadão Kane. Começamos com o protagonista vivido pelo explosivo Gary Oldman sendo levado para um rancho longínquo, onde ficará limitado a uma cama para escrever um roteiro de encomenda para Orson Welles (uma ótima imitação feita por Tom Burke), e uma série de flashbacks mostrará ao espectador aspectos de sua vida, e em especial, como as ideias do roteiro de Kane foram florescendo; em uma espécie de resposta e ataque ao magnata William Randolph Hearst, um titã da indústria jornalística vivido por Charles Dance. É uma grande história sobre sucesso, ambição e a apaixonada exploração pelos bastidores da Hollywood clássica, apresentando figuras como Louis B. Mayer, David O. Selznick e Irving Thalberg.

O texto de Jack Fincher foi escrito na década de 90, e passou por reescritas não creditadas por Eric Roth e o próprio David, então fica um tanto nebuloso saber quem escreveu o quê. O resultado, porém, é recheado de diálogos de alto nível, conflitos primorosos e uma figura simplesmente incendiária de Herman Mankiewicz, que rende uma das melhores performances da carreira de Gary Oldman. Tudo o que Mank tem a dizer sobre Hollywood e o comportamento explosivo de seus executivos (o Mayer de Arliss Howard é um show à parte) também é divertidíssimo para quem conhece das referências e as histórias cabeludas do passado, assim como a presença quase mitológica do Orson Welles de Burke, que é literalmente introduzido no filme como um grande vilão de capa.
O ponto de Mank que sempre incomodou, honestamente, era de como a narrativa perdia seu foco na produção de Kane e os dilemas de Hollywood ao emprestar uma considerável quantia de tempo às eleições para governador da Califórnia de 1934: o republicano Frank Merriam se reelegendo contra o socialista Upton Sinclair. Por que Mank dedicaria tanto tempo a um evento político? Faz parte da narrativa de como o protagonista se sente agredido pelas ações distantes de Hearst e sua influência em Hollywood, que secretamente passava a produzir filmes falsos para apoiar a causa de Merriam, usando de alguns amigos e colegas de Mank para dirigir e atuar em peças publicitárias que se passavam como documentários. Esse bloco de segundo ato sempre pareceu-me menos “divertido”, e quase oportunista pelo fato de Mank ter saído em um ano eleitoral nos EUA (Joe Biden x Donald Trump, em plena pandemia), mas com 5 anos de distância de seu lançamento… Começo a mudar de opinião.

Quando vi Mank pela primeira vez, era quase como se toda a missão de “vingança” de Herman em seu trabalho homérico de Cidadão Kane fosse para punir Hearst após uma pequena humilhação pública, que ocorre posteriormente a um monólogo bêbado de Mank em uma festa. Mas esse evento é apenas o “insulto final”, já que toda a história de Mank no geral é sobre a vingança de um homem que almeja responsabilizar as ações de homens poderosos. Ironicamente, o filme culmina em um conflito entre Mank e Hearst em paralelo com o de Mank e Orson Welles, na reviravolta onde Herman pede por crédito no roteiro, por julgar ser seu melhor trabalho. É um caso onde você como espectador entende as peças do quebra-cabeças, compreende o motivo de estarem lá, mas não aproveita por inteiro sua execução.
Hoje em dia, fiquei surpreso em ver como gosto mais de Mank do que em 2020. É uma história sofisticada e complexa, com uma execução maravilhosa e bem atuada, e que sempre me oferece um curioso “conforto" por seu trabalho sonoro completo, ainda bem pontuado por uma impecável trilha sonora “clássica" pela dupla Trent Reznor e Atticus Ross. Ainda não acho que seja digno da trinca de David Fincher que comentei no começo do texto, mas enquanto sigo aguardando pelo retorno de sua grandiosidade, é um bom exercício vasculhar por joias perdidas em seus projetos menos aclamados.











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