Rocky e a maldição das franquias do cinema

Aspectos Socioculturais

Com a sedimentação da cultura blockbuster, uma consequência natural foi a lógica das franquias cinematográficas. Hollywood percebeu rápido que continuação era um bom negócio e essa ideia foi aos poucos tomando o lugar das produções originais, a ponto de, em pouco mais de uma década, mudar a percepção e expectativa do público. Afinal, nos anos 1980, finais abertos já eram vistos muito mais como a certeza de uma continuação do que uma camada a mais para discussão. A década anterior, antes de Star Wars mudar de vez o paradigma, nos deu continuações que realmente se destacam pela qualidade. Por exemplo, Operação França II, que não precisava existir, mas honra o original, e O Poderoso Chefão: Parte II, que se justifica como história e, na minha opinião, é melhor que o anterior.

Porém, uma vez que isso se mostrou lucrativo, não demoraria para alguém forçar a boa vontade do público. Em 1978, Tubarão 2 prenunciou que a indústria não veria problemas em fazer continuações que são meramente rip-offs oficiais dos filmes originais. Clássico caso de não entender o que fez um filme especial na percepção do público, repetindo e espremendo uma premissa. Duro de Matar 2, de 1990, é um caso bem semelhante, momento em que o procedimento já era parte do status quo. Já um exemplo de contradição pode ser encontrado em Matrix. Seu filme seguinte de 2003, Matrix Reloaded, ignora completamente o perigo que os Agentes representavam para o grupo de Morpheus, colocando todos que não tinham as habilidades especiais do Escolhido para trocar socos e chutes com esses vilões, acabando com a sensação de perigo em troca de mais cenas de luta.

Rocky (1976)

Situado entre os três citados no primeiro parágrafo, Rocky, Um Lutador estreou em 1976 e todo mundo sabe como isso foi importante para a carreira de Sylvester Stallone. Esse texto foi motivado por uma reflexão sobre o longa de estreia do Garanhão Italiano, em torno do que o faz especial e explica tanto sucesso. Me parece evidente que a lógica comercial de franquia, além da continuação que somente repete a premissa, acaba - quase sempre - levando a contradições da própria lógica interna e de propostas iniciais. Obviamente que o propósito disso é criar mais situações “interessantes” e dane-se se alguém se dá ao trabalho de pensar sobre isso.

A meu ver, a franquia que melhor representa essa perda da essência e suas eventuais contradições convenientes é Rocky, mas não me entenda mal. Não estou aqui para descer o malho em todas as suas continuações, já que também me rendo à memória afetiva vez por outra. Mas não deixa de ser incômodo - para mim, pelo menos - perceber como a profundidade dramática é descartada simplesmente em troca de mais um filme, que a cada continuação afastava mais o olhar do público do que realmente importa.

Meu argumento parte de uma cena que, caso retirada da montagem final, não traria prejuízo algum para o entendimento ou andamento da trama. Porém, sua inclusão é o que realmente faz a diferença no sentido dramático. Rocky Balboa é um boxeador grosseiro, já não tão jovem, que o mundo só nota pela sua oportunidade aleatória de enfrentar o campeão Apollo Creed. Sem conseguir dormir na noite anterior à luta, ele vai ao ginásio onde acontecerá a disputa e, de repente, se dá conta de algo incômodo. Quando volta para casa, ele relata a Adrian que não há como um lutador de seu tipo vencer alguém do nível de Creed, então, sua meta pessoal na disputa é manter-se de pé até o fim. Uma conquista importante para alguém considerado pelos outros, mas principalmente por si mesmo, como um perdedor.

 

Ele perde a luta por pontos, o que se justifica também pelo campeão tê-lo subestimado em sua preparação. O ponto é que o objetivo do protagonista foi atingido, elevando-o em sua própria auto imagem. Independente do esporte retratado na tela, a metáfora é clara e não falo de algo piegas e vazio como “não desista” ou “siga em frente mesmo apanhando”. Com o próprio personagem principal admitindo uma condição óbvia, a jornada de Rocky diz mais respeito a fazer o melhor dentro de um contexto onde se tem pouco ou nenhum controle, do que a glória máxima alcançada através de esforço e determinação.

Claro que esses dois elementos são importantes, mas o apelo dessa história e o que nos aproxima tanto dela é a aparente consciência de que existem coisas que você não tem como realizar, ou sustentar, e está absolutamente tudo bem com isso. Que busquemos a excelência possível dentro daquilo que a vida ainda nos oferece, algo que tem tanto ou mais significado do que, como no caso aqui, a conquista de um título mundial esportivo. Fundamento essa afirmação usando justamente a inspiração para a criação de Rocky, a luta real entre Muhammad Ali e Chuck Wepner.

Contra todas as probabilidades, o azarão Wepner não apenas foi até o último round, como chegou a derrubar o campeão em certo momento. Para os fãs do esporte, um momento notável, protagonizado por alguém muito improvável. O evento se cristalizou na vida desse pugilista e ele já tinha algo para se orgulhar. Ele jamais seria um grande campeão, mas e daí? Seu feito é muito maior do que a enorme maioria das pessoas consegue em uma vida. Sendo assim, o primeiro Rocky já entregou uma jornada perfeita, celebrando uma vitória moral de uma pessoa comum, com a qual todos podemos nos identificar. Ele poderia voltar para sua vida com a auto estima transformada para melhor, mas Sylvester Stallone e Hollywood tinham outros planos para ele.

Rocky II 

Três anos depois, chega Rocky II - A Revanche para jogar no lixo a catarse sincera e naturalista do original. A essência foi sumariamente sacrificada para que Rocky pudesse tornar-se campeão no final, superando a classe de Apollo com habilidades limitadas turbinadas com determinação. O roteiro ainda tentou adicionar drama à história com o problema ocular do personagem, trazendo ainda mais desvantagem a ele, mas totalmente esquecido depois, de forma conveniente. Não convém aprofundar nas duas continuações seguintes, já que a descaracterização é tanta que vemos outro personagem, seguindo o mesmo fundo motivacional do segundo.

Vale citar o sexto filme, Rocky Balboa, que busca se reaproximar da essência original e tem algum sucesso nesta empreitada. Não deixa de ser uma repetição do primeiro com outra roupagem, mas me parece algo bem mais honesto que as continuações anteriores, talvez até pelo próprio momento profissional que Stallone enfrentava. Porém, um Rocky ex-campeão em crise, relembrando as glórias do esporte, também acaba sendo uma negação do que exaltei no longa de 1976. Passando por cima disso, é possível reconhecer suas verdadeiras qualidades.

Seguindo nos incômodos criados por franquias, o spin off Creed também merece alguns comentários. Não só pela repetição previsível de tropos apoiada pelas motivações frouxas de um personagem sem o mesmo carisma, mas pela forma como deixa de lado o que lhe convém dentro deste universo. Ignoremos as discrepâncias temporais, algo que leitores de HQs de super-heróis já estão acostumados. Trazendo Rocky para as telas novamente, agora como mentor do filho de Apollo, fica claro que não havia muita substância dramática para Stallone como coadjuvante ali. A solução? Além de uma doença, o conflito entre pai e filho visto em Rocky Balboa, que termina resolvido no próprio filme, tem sua resolução completamente desconsiderada depois, só para encaixar essa sub trama em mais filmes.

No fim, talvez Sylvester Stallone seja a figura que melhor personifica o que existe de errado nesse sistema de franquias. Afinal, também poderíamos falar bastante sobre um certo veterano do Vietnã, não é? E isso ainda deixando de lado as últimas tentativas de espremer esse bagaço com prequels…

Comentários 1

L
leandroafonso868 de novembro de 2025
Tive uma sessão muito especial de 'Rocky Balboa' no cinema e, após algumas revisões, o filme segue bacana pra mim. O diálogo com a inteligência artificial da época, a relação familiar e os principais arcos ali expostos, até a própria decupagem da luta final, me parecem bem construídos dentro da lógica melodramática que o filme abraça.</br></br>Ainda sobre Sly, gosto também de 'Os Mercenários', o primeiro, mas nunca revi. Quando lembro da crítica de Luiz Carlos Oliveira Jr sobre ele, sempre vem o desejo de revisitá-lo. Ali me parece que há um retorno - a partir de outro lugar e em outra época - desse equilíbrio difícil entre o filme honesto e jogo com a indústria, tão bem sucedido no primeiro 'Rocky', mas aí é assunto pra outro texto, né?</br></br>Valeu, Daniel.

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