A influência de Bullitt na nova Hollywood

Críticas Gerais

Eu comecei a me interessar por Bullitt depois de ler o livro Especulações Cinematográficas, do Tarantino. Ele fala bastante sobre Steve McQueen, e de como esse filme foi uma das grandes referências dele, especialmente na forma de construir personagens. Tarantino tem um olhar muito atento para o tipo de presença que não precisa de palavras, e é exatamente isso que existe em Bullitt. Quando li as páginas em que ele detalha o impacto do filme, percebi que eu mesmo nunca tinha dado a devida atenção a ele. Fui assistir por curiosidade, mas acabei entendendo porque esse longa se tornou uma espécie de divisor de águas entre a velha e a nova Hollywood.

O filme, de 1968, tem uma história simples. Frank Bullitt é um policial de San Francisco designado para proteger uma testemunha importante que vai depor contra a “organização”. Em poucas horas, tudo dá errado, e o caso se transforma em uma investigação pessoal. Bullitt não tem um grande plano, ele só tenta fazer o trabalho dele do jeito mais direto possível. A narrativa segue esse mesmo tom: seca, observadora, sem pressa. O final é realista, sem explosões nem discursos heroicos. É só um homem exausto depois de um dia que parece não ter fim. Esse tipo de desfecho, hoje comum, era algo quase impensável para os filmes de ação e suspense da época.

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O que me chama atenção é o quanto o filme é cru. Não no sentido de falta de técnica, mas de autenticidade. A fotografia é fria, o som é natural, as ruas são sujas. Há uma verdade ali que foge da idealização que Hollywood cultivava até então. Essa estética veio claramente das influências que já estavam mudando o cinema europeu. O neorrealismo italiano havia mostrado que a vida podia ser filmada sem retoques, enquanto a nouvelle vague francesa provava que o improviso e o olhar pessoal podiam ser mais potentes do que qualquer fórmula. Bullitt parece absorver um pouco dos dois movimentos, mas sem abandonar o gênero policial americano. Ele mistura o estilo de ação com uma observação mais realista do cotidiano.

Frank Bullitt é um policial diferente. Ele não tenta ser herói, não quer se destacar, não faz discursos sobre o bem e o mal. É um homem que trabalha, se irrita, se cala. A força dele está justamente nesse silêncio. McQueen passa mais com o olhar do que com as falas. Ele dirige o carro como se estivesse tentando fugir de algo interno, e não apenas dos vilões. E é aí que o personagem ganha profundidade. Essa forma de interpretar, contida e contemplativa, seria o ponto de partida para o tipo de protagonista que a Nova Hollywood abraçaria nos anos seguintes.

Quando penso nisso, lembro de Travis Bickle, em Taxi Driver, e de Popeye Doyle, em Operação França. São personagens movidos por impulsos contraditórios, nem bons nem maus, apenas humanos. Até Michael Corleone, em O Poderoso Chefão, segue essa linha de introspecção e ambiguidade. Todos eles carregam algo que começou com McQueen: a ideia de que um frame em silêncio pode dizer mais que um diálogo. Isso mudou a maneira como o público se relacionava com o cinema. A plateia já não esperava heróis perfeitos, mas pessoas que erravam, hesitavam e agiam por instinto.

Steve Mcqueen's Bullit Bullitt 1968 Steve McQueen MOVIE POSTERS A4

O que eu mais gosto em McQueen é o quanto ele representa esse tipo de figura. Ele tem uma calma que parece esconder muita coisa. Dá pra sentir um simbolismo nos gestos, uma melancolia contida que nunca se resolve. Não é o tipo de atuação feita pra conquistar o público, mas pra deixar ele curioso. Sempre me atraíram esses personagens que não se explicam, que parecem guardar algo que a gente nunca vai entender totalmente. Acho que é por isso que gosto tanto dele.

Quando o Tarantino fala de Bullitt no livro, dá pra sentir que ele enxerga o filme como um marco. Ele menciona o quanto McQueen influenciou toda uma geração de atores e diretores. E faz sentido. Tarantino sempre teve fascínio por esses personagens silenciosos, cheios de atitude sem precisar provar nada. Ele cita Bullitt como uma das bases para o modo como ele entende o realismo no cinema, essa mistura de observação e estilo. E vendo o filme hoje, é impossível não perceber isso.

A famosa perseguição de carro é um bom exemplo. Ela é longa, tensa, e o que mais me impressiona é a ausência de trilha sonora. Só se ouve o ronco dos motores, o barulho dos pneus, o som da cidade. É puro cinema físico. Nenhum corte é exagerado, e nada parece coreografado demais. É uma sequência que te coloca dentro da ação, mas de um jeito quase documental. E foi exatamente esse tipo de realismo que abriu caminho para o que viria depois.

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A Nova Hollywood nasceu dessa vontade de romper com o artificialismo dos grandes estúdios. Filmes como Sem Destino, Bonnie e Clyde, O Franco Atirador e Chinatown trouxeram personagens quebrados, situações imperfeitas e uma visão mais cínica do mundo. Mas antes de todos eles, Bullitt já estava apontando nessa direção. Ainda havia algo do cinema clássico ali, na forma como a história é contada, mas a essência já era outra. Era o começo de um cinema mais adulto, mais real, menos preocupado em agradar e mais interessado em observar.

Rever Bullitt hoje é quase como abrir uma janela para aquele momento em que Hollywood começou a mudar sem saber exatamente pra onde ir. O filme tem um pé em cada lado. De um lado, o controle e a narrativa linear dos velhos tempos. Do outro, o olhar cru, a violência seca e os silêncios incômodos que definiriam a década seguinte. É como se o filme acelerasse de uma era pra outra, cruzando essa fronteira com naturalidade.

Gosto também de como Bullitt entende o ritmo. Ele não tenta te segurar pela pressa, mas pela paciência. Cada cena parece respirar o suficiente pra que a gente sinta o peso do tempo. O silêncio entre os personagens, o som distante do trânsito, o modo como a câmera fica parada observando um rosto,  tudo isso dá uma sensação de que o filme existe em outro compasso. E é isso que o torna moderno. Ele não tenta ser nada além do que é.

O impacto disso ainda é perceptível hoje. Muitos filmes contemporâneos que buscam um realismo mais cru, especialmente no gênero policial, têm um pouco de Bullitt dentro deles. Essa ideia de que o real não precisa ser amplificado, basta ser visto. Quando a câmera olha de verdade, a gente sente.

Bullitt, drinque de assinatura do bartender Rodman Paixão

Pra mim, Bullitt é a síntese de uma transição. Ele nasceu dentro da lógica do cinema antigo, mas já falava a língua do novo. McQueen foi o rosto dessa mudança. Um ator que fazia muito sem dizer nada, e que representava um tipo de masculinidade diferente, mais introspectiva, mais cansada. Ele foi um dos pilares desse novo olhar, e talvez o primeiro a mostrar que o herói podia ser humano.

É por isso que o filme ainda me pega. Ele não tem uma grande revelação, não tenta ser profundo à força. É só um retrato honesto de um homem fazendo o que precisa ser feito. E às vezes é disso que o cinema mais precisa, de sinceridade, de silêncio e de um pouco de sujeira humana pra lembrar que o real também é arte.

Comentários 2

L
leandroafonso8627 de outubro de 2025
Ainda não tirei da prateleira o livro de Tarantino, mas, na minha memória, o que mais percebo de Bullitt em QT está não no personagem, mas nas cenas de carros.</br></br>O realismo das perseguições finais de 'À Prova de Morte' me remetem imediatamente ao racha, a imagens que percebemos ser Steve McQueen dirigindo, a impactos e riscos que realmente nos dizem: "rapaz, de fato, essa galera quase morreu".</br></br>Bacana que seu texto, mesmo analisando um clássico, parece trazer algum frescor ao filme.
M
Mari Stocco27 de outubro de 2025
“Um homem exausto depois de um dia que parece não ter fim.” Que frase linda. É bem isso que sinto quando revejo Bullitt. Ele não quer ser herói, ele só quer sobreviver. E essa honestidade, que você captou tão bem, é o que separa o filme dos thrillers artificiais da época.

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