Cenas excelentes em filmes nem tão bons assim

Críticas Gerais

Nunca pensei que o meu último texto de 2025 no Peliplat seria sobre cenas muito boas em filmes ruins. Sei que o mais apropriado, e até cerimonial, seria falar sobre, talvez, os melhores filmes de 2025? Mas não me senti inspirado o suficiente para abordar esse tema (ainda). O que realmente me deixou extremamente motivado foi falar desse conceito de cenas excelentes em filmes que nem são tão bons assim. De antemão, já adianto que não selecionei nenhum título horrendo, mas sim cenas que acabam “salvando”, bem entre aspas mesmo, o filme.

Wake Up Dead Man

O mais doido é pensar nesse filme que eu não colocava nenhuma expectativa ou que durante a primeira meia hora não esperaria a melhor cena da trilogia de Knives Out inteira. Durante o filme a gente acompanha a história do Padre Jud (Josh O’Connor) que acaba sendo transferido para uma Paróquia no interior, após um incidente de agressão contra outro padre. Porém o que parecia ser talvez uma Igreja pacata e de fácil gestão se tornou um pesadelo após Jud se deparar com um esquema de segredos, mentiras e conspiração que já são bem recorrentes na franquia.

Todo esse épico investigativo dirigido por Rian Johnson sempre acabou pegando muito no meu gosto. Gosto da forma como todo o mistério ia se desenvolvendo e a gente entendendo os pontos de vistas de todos os personagens que poderiam estar ligados de forma direta ou indireta ao recorrente “assassinato”. Mas nesse terceiro filme senti que esse conceito muito abordado na trilogia de Johnson não foi muito utilizado.

Esta necessidade de fazer o público sentir empatia por Grace ficou tão mal escrita, que quando em alguns momentos algum personagem tratava ela como uma vítima ou a coitada de toda situação, beirava o ridículo. E mesmo na cena que mostra o real diálogo de Martha com Grace, eu ainda me contorcia na cadeira por essa falta de sensibilidade e qualidade do texto em transmitir essa empatia. Além desse erro chato cometido no roteiro, o Benoit Blanc (Daniel Craig) soa muito estranho e artificial neste filme, parecendo um gênio sem explicação, com epifanias forçadas.

Mas justamente nessa “troca” de protagonismo que acontece a melhor cena da trilogia inteira. Em um momento que Padre Jud e Benoit Blanc estão tentando descobrir quem fez a reserva da empilhadeira que retirou um certo corpo de uma cripta, Jud está ao telefone e, frustrado por não conseguir a informação, é surpreendido por Louise, a atendente, que em um ato de vulnerabilidade pede uma oração. O motivo dessa cena ter funcionado tanto para mim foi o fato de, minutos antes, eu estar a questionar por que Jud não tinha postura de padre. A cena responde a esse questionamento de forma linda e humana.

Teaser 3: Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery

 

Homem-Aranha 3 (2007): O Nascimento do Homem-Areia

Se voltarmos um pouco no tempo, encontramos o polémico encerramento da trilogia de Sam Raimi. Homem-Aranha 3 é frequentemente citado como o "filme que estragou a franquia", com o seu excesso de vilões, a subtrama do Venom mal aproveitada e as dancinhas embaraçosas do Peter Parker "emo". É um filme que claramente sofreu com a interferência do estúdio e perdeu o coração que tornou os dois primeiros tão especiais.

Contudo, no meio desse caos narrativo, existe uma das cenas mais bonitas da história do cinema de super-heróis: o nascimento do Homem-Areia. Quando Flint Marko (Thomas Haden Church) cai no acelerador de partículas e a sua estrutura molecular se funde com a areia, Sam Raimi deixa de lado o filme de ação para criar um momento de pura poesia visual.

A cena é quase totalmente silenciosa, focada apenas na trilha sonora melancólica. Vemos a areia a tentar ganhar forma humana; cada grão parece lutar contra a gravidade para reconstruir a imagem de um homem que só quer voltar para a sua filha. O detalhe na animação e o peso emocional que a cena carrega são de outro nível. Por alguns minutos, não estamos a ver um "vilão" a nascer, mas sim a tragédia de um homem a desintegrar-se. É uma sequência que pertence a um filme muito melhor do que aquele em que está inserida, provando que Raimi, mesmo sob pressão, é um mestre.

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O Astronauta : O Diálogo com Hanus

Adam Sandler tem se provado um ator dramático excepcional quando quer, mas O Astronauta (2024) é um filme que sofre com um ritmo letárgico e uma metáfora central sobre o casamento que é tão sutil quanto uma bomba explodindo. O filme arrasta-se por vastos campos de solidão espacial que testam a paciência do espectador.

Contudo, a cena em que o astronauta Jakub finalmente confronta a criatura aracnídea, Hanus (dublada por Paul Dano), sobre o conceito de "o começo e o fim", é de uma beleza transcendental. No meio de um filme que falha em nos fazer importar com o relacionamento de Jakub na Terra, essa conversa filosófica sobre a solidão humana e a insignificância do tempo diante do cosmos é magnífica.

O design de som nesta cena, misturado com a trilha sonora minimalista, cria uma atmosfera de isolamento absoluto. Hanus questiona Jakub sobre por que os humanos buscam tanto o amor se ele é a fonte de toda a sua dor. É um momento de ficção científica introspectiva da melhor qualidade, lembrando clássicos como Solaris. É uma pena que, para chegar a essa conversa profunda, tenhamos de passar por oitenta minutos de um drama matrimonial nada inspirado. Mas essa cena isolada justifica a existência do filme. Ela toca na ferida da condição humana: o medo de morrer sozinho e a busca desesperada por alguém que nos valide.

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O que mais me encanta nesses filmes é essa imprevisibilidade gostosa, mesmo em filmes nada redondos, cheios de problemas e decisões questionáveis, ainda podem surgir cenas lindas, potentes, que parecem escapar de tudo o que está errado ao redor. São momentos que surgem do nada e lembram que o cinema nunca é totalmente controlável.  E, pensando bem, a vida funciona de um jeito muito parecido.

 Não importa o quão confuso, pesado ou difícil seja o momento em que você está, sempre existe a possibilidade de algo bom acontecer, de uma cena inesperada quebrar a negatividade do dia. Às vezes não resolve tudo, não muda o filme inteiro, mas muda o suficiente para seguir em frente. Talvez seja por isso que essas cenas ficam tanto com a gente: porque elas não falam só de cinema, falam dessa expectativa meio teimosa de que, mesmo no caos, ainda dá pra encontrar esperança.

Ao encerrar este texto, percebo que 2025 foi um ano verdadeiramente especial para mim, marcado fundamentalmente pela minha entrada no Peliplat. Quero aproveitar este espaço para agradecer imensamente a todo o time do Peliplat por esta oportunidade incrível de partilhar as minhas análises.

Nunca pensei que, antes mesmo de me formar em jornalismo, sendo apenas um "viciado" em cinema que devora filmes dia após dia, já estaria inserido neste cenário de forma tão séria e com uma plataforma tão relevante. Estar aqui no Peliplat tão cedo na minha trajetória é a prova de que a paixão genuína pelo cinema pode abrir portas inesperadas.

E como Quentin Tarantino ja disse: “ Se você ama cinema, faz isso com paixão. Uma hora ou outra ele vai te recompensar” 

 

 



 

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