O meme tem razão: Martin Scorsese é o cinema absoluto
Críticas GeraisDesde que me conheço por gente, eu sempre quis ver um documentário sobre Martin Scorsese.
Sei lá, achei apropriado começar este texto parafraseando a exata primeira fala de Os Bons Companheiros (1990). E falo sério. Me perguntava como diabos uma personalidade como o diretor de clássicos como Táxi Driver (1976) e Touro Indomável (1980) ainda não tinha sido personagem principal de um retrato sobre… ele mesmo! Simplesmente um dos maiores diretores da história de Hollywood. Bom, não tinha, no passado. E o melhor de tudo é que o documentário agora existe com ele ainda vivo e na ativa, no auge de seus 82 anos!
Pois era 1º de outubro de 2025 quando eu vi, no Instagram, um post da AppleTV+ anunciando “Mr. Scorsese” (ou, em português, “O Lendário Martin Scorsese”), com estreia marcada dali a pouco, no dia 17 do mesmo mês. Eu nunca tinha ouvido falar do projeto antes, mas meio que virou a única coisa que eu queria assistir. Aliás, eu precisava daquilo, e era uma necessidade de anos.
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A docussérie de cinco episódios, cada um com mais ou menos uma hora de duração, passa por toda a carreira e ainda pincela a vida pessoal única e muitas vezes conturbada de Scorsese. Do menino asmático filho de imigrantes italianos em Nova York às parcerias de ouro com Robert De Niro e Leonardo DiCaprio no cinema, aos abusos de drogas e casamentos mal-sucedidos, ouvir o bom e velho Marty falando de si, de sua obra e olhando para trás na sua vida com humildade, arrependimentos e assumindo erros, obsessões excessivas e aquele típico ego de geniozinho incompreendido… ah, meu amigo, isso é um deleite para quem ama os filmes de Scorsese, mas acima de tudo, para apaixonados por cinema e bastidores. Por exemplo, nunca tinha ouvido falar da fofoca de que Rocky 2 só existiu com a condição do estúdio lançar Touro Indomável, já que o produtor Irwin Winkler acreditou em Marty e na história que ele queria contar e insistiu no projeto.

Acho que foi nesse ano que vi um site de cultura popular no Twitter definir o diretor como “Martin Scorsese, diretor que tem o meme absolute cinema”. Eu ri, achei um absurdo, mas não crucifiquei o portal. Para quem trabalhou com jornalismo de entretenimento, sei como SEO fala mais alto do que gostaríamos e como é importante conhecer seu público. Mas foi só o tweet sair da bolha para gerar olhos revirados e tweets debochados. Entendo a indignação, mas uma resposta assim só me faz visualizar o pernalonga de batom estampado na testa desses cinéfilos. De toda forma, este documentário desmistifica Marty como “o diretor que tem o meme absolute cinema”.

O meme é ótimo. E às vezes, memes têm seu fundo de verdade. Martin Scorsese pode não ter inventado o cinema, mas ele meio que é sinônimo de cinema hoje em dia. O próprio Steven Spielberg, amigo próximo e o pai do cinema blockbuster, afirma, em uma passagem do doc: “Ele é a pedra angular de toda essa forma de arte. Nunca houve ninguém como ele. Nunca haverá ninguém como ele novamente”.
É justamente por isso que ter visto O Irlandês (2019) e Assassinos da Lua das Flores (2023) significou tanto para mim, nas respectivas épocas. Ok, eu vi A Invenção de Hugo Cabret (2011) e O Lobo de Wall Street (2013) no cinema também, e foram experiências ótimas. Mas eu não tinha uma formação de opinião ou entendimento para saber o peso daqueles momentos. Ver Scorsese no cinema é um evento, desses de anotar no calendário e esperar ansiosamente como o ponto alto da semana. É a garantia de contemplar uma ótima trama, com atores dando o seu máximo e uma filmagem que sempre vai te surpreender.
Falando em Spielberg, o documentário conta com ótimas participações, como De Niro e DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Jodie Foster, Brian de Palma, Spike Lee, filhos do diretor – sim, Francesca dos TikToks com Marty está lá! – e até amigos de infância de Marty. Clima de “tamo em casa somente com chegados”, e por isso o papo flui tão sincero, por mais que às vezes fale de temas densos, como abusos de substâncias e experiências de quase morte.
As conversas com Scorsese e Rebecca Miller aconteceram na varanda da casa da diretora, grande parte durante a pandemia. Foram 20 horas gravadas de entrevistas, sobre um personagem cuja filmografia possui 26 longa-metragens em 56 anos de carreira, fora os curtas e projetos na TV, os cinco casamentos e as três filhas. Cinco horas pareceram pouco, e eu veria tranquilamente o dobro ou o triplo de material. A companhia de Marty e seu sorrisão com as sobrancelhas grossas é a mais agradável possível.
O mais fascinante é como o documentário mostra que, mesmo depois de seis décadas de carreira, Scorsese ainda fala de cinema como quem acabou de descobrir uma nova paixão. Há algo de contagiante no modo como ele se anima ao lembrar de uma cena, de um improviso de ator ou de um erro que acabou virando acerto. É como se o menino asmático de Little Italy ainda morasse dentro dele, observando tudo com curiosidade e espanto.
Um dos momentos que mais me chamou a atenção foi quando Marty relembra que George Lucas o aconselhou, nos anos 1970, a mudar o final de New York, New York (1977). Lucas dizia que, se os protagonistas terminassem juntos, o filme renderia mais alguns milhões de dólares nas bilheterias. Scorsese, sorridente, admite que o amigo estava certo, mas ele queria mesmo era um final mais verdadeiro, quebrando completamente essa expectativa do público. É essa recusa em seguir o óbvio e preferir os Caminhos Perigosos (rsrs) que resume a coragem e a teimosia de Marty em acreditar nas próprias ideias, mesmo quando elas custam caro e críticas pesadas.

Os cinco episódios reforçam como Scorsese nunca foi um diretor preocupado em agradar. Ele sempre se propôs a questionar e compreender o homem, a fé, a culpa, o poder e, principalmente, a violência – algo que muitos sempre criticaram e julgaram ser gratuito nos seus filmes. Para isso, precisou mergulhar nas contradições humanas, inclusive as dele próprio. Quando fala sobre seus vícios, seus casamentos e sua relação complicada com Hollywood, há uma honestidade desarmante. Ele não tenta se justificar, apenas admite que foi duro, obsessivo e, às vezes, cruel. “A arte envolve crueldade”, diz ele mesmo, e é impossível não lembrar dos personagens que ele materializou em tela: Travis Bickle, Jake LaMotta, Rupert Pupkin. Todos eles quebrados, obcecados e deslocados na sociedade. Scorsese não julga, ele procura entender e compartilhar desse estudo de personagem.
Esses momentos de vulnerabilidade são o coração de Mr. Scorsese. Ele viu o sucesso profissional, o fracasso, o sucesso tardio de filmes como Touro Indomável, o fracasso novamente e… beijou a estatueta dourada no Oscar. Mas ele parece em paz com fracassar, e tem plena consciência de que o cinema foi tanto sua salvação quanto sua condenação.
Para Scorsese, o cinema não é sobre finais felizes e perfeitos, mas sim sobre entender a complexidade, as crenças e as derrocadas do ser mais falho e pecador que existe.
Mãos ao alto, cowboy, pois Martin Scorsese é o cinema absoluto.







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