O lado cinéfilo de Hideo Kojima, lendário criador de jogos como Death Stranding e Metal Gear

Celebridades

Hideo Kojima é um nome consagrado e pra lá de influente no mundo dos videogames. Nascido em Tóquio no ano de 1963, o renomado designer de jogos japonês criou franquias como Metal Gear e Death Stranding, revolucionou a indústria com quase 30 anos trabalhando na Konami e posteriormente com seu estúdio próprio, a Kojima Productions, fundada em 2015. Sua marca registrada é criar narrativas originais e beeem diferentes das que estão sendo contadas, em qualquer mídia existente. Histórias que, às vezes, podem parecer sem pé-nem-cabeça, mas que trazem críticas sociais, ambientais e refletem a solidão de enfrentar o fim do mundo, como visto na jornada de Sam Bridges (Norman Reedus) e seu serviço de entregas para unificar a América em Death Stranding.

 

Outra assinatura do desenvolvedor é de usar e abusar das cutscenes, isto é, sequências cinematográficas com falas e desenvolvimento de personagens onde o jogador não interage, apenas assiste, como em um bom filme. A sequência final do primeiro Death Stranding, por exemplo, possui cerca de 30 minutos, a média de um episódio da sua sitcom favorita. Kojima é também o detentor do recorde do Guinness Book de sequência mais longa de cutscenes em um jogo, com quatro cenas que totalizam 71 minutos em Metal Gear Solid: Guns of the Patriots (2008).

 

Mas não, não estou aqui para falar de videogames ou cutscenes, como você bem deve ter lido no título deste texto. Quis aproveitar os dias felizes que Hideo viveu no Brasil para esta pauta. Ele veio em turnê de divulgação de Death Stranding 2, passou pela Brasil Game Show (BGS) em São Paulo, visitou o Beco do Batman, as praias do Rio de Janeiro, abriu os braços para o Cristo Redentor e tirou foto com seu sósia brasileiro, Akihito.

 

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Porque de todas as facetas de Kojima, a que mais me interessa (e me diverte) é o lado cinéfilo enraizado nele. Nem só de tramas aparentemente bizarras (mas que no fundo fazem sentido) no universo dos videogames, joinhas exagerados e poses de absolute cinema nas redes sociais vive Hideo Kojima. Como ele mesmo descreve em sua bio: “70% do meu corpo é feito de filmes”. Sei lá, sinto que Kojima e eu seríamos grandes amigos, e que poderíamos falar horas a fio sobre Joy Division, Duran Duran, música dos anos 80 como um todo e, claro, sobre nossos filmes favoritos.

 

 

Talvez pelo uso maior de cutscenes, por estar envolvido com atores de Hollywood ou por sempre comentar sobre cinema nas redes, muitos podem pensar (eu mesmo já pensei, inclusive), que Kojima pudesse ser um diretor de Hollywood frustrado que foi parar em outra indústria. "As pessoas me entendem errado, acham que quero ser cineasta", disse, durante coletiva de imprensa para jornalistas brasileiros, feita enquanto estava no Brasil, derrubando a falsa imagem criada.

 

Só que Kojima está longe de ser frustrado em qualquer coisa. Como poderia ser? Ele é um artista que porventura é apaixonado por outra mídia, e usa toda essa paixão como repertório para ser um dos maiores em sua própria área. Snake, o rosto da saga Metal Gear, tem esse nome em homenagem a Snake Plissken, protagonista de Fuga de Nova York (1981) interpretado por Kurt Russel. Até o tapa-olho se faz presente na referência. 

 

 

Em entrevista nos anos 1990, Kojima já demonstrava esse ávido interesse pela sétima arte:

 

“Minha geração realmente absorveu muito do cinema, e grande parte disso permanece como uma influência inconsciente no que criamos hoje. Eu gosto de chamar isso de nosso ‘DNA cinematográfico’. Tendo crescido com filmes e a sua influência, não importa o que eu tente criar, esse DNA sempre deixará sua marca e dará às minhas criações uma forma ‘cinematográfica’".

Ele é o Absolute Cinema dos jogos. Absolute Kojinema. 

 

Em maio deste ano, Kojima foi um dos convidados da programação oficial do festival de Cannes. Por lá, tietou Robert Pattinson, o que já foi suficiente para alimentar os fanfiqueiros que querem ver o ator no universo dos jogos, aventura essa que já foi vivida por Keanu Reeves em Cyberpunk 2077, Norman Reedus e Mads Mikkelsen em Death Stranding e Willem Dafoe e Elliot Page em Beyond: Two Souls. Em recente entrevista à GQ Brasil, elogiou o nosso Oscarizado Ainda Estou Aqui, dizendo que viu recentemente e que “achou muito interessante”. Mas ele é pra lá de eclético, e adora um bom e velho John Wick, se é que me entende.

 

Por favor, estejam aprontando algo.

 

Também para a GQ, só que para a publicação norte-americana, Kojima revelou seus quatro filmes favoritos: 2001: Uma Odisseia no Espaço, Taxi Driver, Mad Max 2 e Céu e Inferno, de Akira Kurosawa. Inclusive, ele tem um método para classificar filmes, já que ainda não possui conta no Letterboxd: Um ou dois emojis de "curtida" significa que ele adorou; Um emoji de olho quer dizer que não há nada a declarar; já o emoji de coração simboliza um momento que foi compartilhado com os filhos.

 

Falando em Letterboxd, embora Kojima ainda não tenha um perfil oficial, achei esse aqui, que compila os tweets do desenvolvedor com as críticas dos filmes que assiste, mas que não é atualizado desde dezembro de 2024: https://letterboxd.com/hideo_kojima/. Mas, é bom ressaltar que está nos planos de Kojima-San criar um perfil, já que até Scorsese entrou na onda: "Se [Martin] Scorsese tem isso, não posso criticá-lo. Ele é o segundo deus. O primeiro é George Miller”, afirmou. 

 

Fato é que a opinião de Kojima sobre filmes importa. Cada post dele, no Twitter ou no Instagram, é quase como uma validação sobre determinada obra. Em 2019, ele publicou fotos com uma camiseta de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, dizendo que recomendava o longa. Neste ano, o cinéfilo Kojima chamou a série O Eternauta de “uma obra poderosa de ficção científica da Argentina”, e disse que era uma boa alternativa para quem gosta de tramas de apocalipse, mas que querem algo diferente do habitual com zumbis. 

Se tem o selo Hideo Kojima de aprovação, tem meu voto de confiança. Vejo as opiniões dele com a curiosidade e hábito de quem vê stories no feed diariamente. Mal posso esperar para saber o que ele vai achar de O Agente Secreto, nosso representante do Oscar 2026!

 

<blockquote class="twitter-tweet"><p lang="en" dir="ltr">Today&#39;s T-shirt is from the movie “Bacurau” (2019). I recommend it. It features Udo Kier. <a href="https://t.co/jrq4Eri7Ut">pic.twitter.com/jrq4Eri7Ut</a></p>&mdash; HIDEO_KOJIMA (@HIDEO_KOJIMA_EN) <a href="https://twitter.com/HIDEO_KOJIMA_EN/status/1826238564998484002?ref_src=twsrc%5Etfw">August 21, 2024</a></blockquote> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>

 

Em 2023, Kojima foi convidado para o quadro Closet Picks, da The Criterion Collection, e como bom cinéfilo, ficou encantado em meio a tantos DVDs e Blu-rays (te entendo completamente), como uma criança num parque de diversões pela primeira vez. "Na era dos serviços de streaming, não há muita coisa disponível dos anos 50 ou 60, então estou muito grato à Criterion pela coleção física deles", disse, encantado, logo no comecinho do vídeo, onde elegeu apenas clássicos do cinema japonês, como Céu e Inferno (1963), de Akira Kurosawa, e Late Spring (1949), de Yasujiro Ozu. 

 

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Por que isso é relevante? Bem, ele foi o primeiro designer de games a participar do programa, que normalmente convida atores e diretores – aguardando ansiosamente pelo episódio com nosso Wagner Moura!!!

 

Dos jogos para as telonas: o que sabemos sobre o filme de Death Stranding pela A24

 

Pois é. Death Stranding vai ganhar um filme live-action. E não, ele não será dirigido por Hideo Kojima, criador desse universo. Quem comandará a produção é o diretor Michael Sarnoski, que dirigiu Um Lugar Silencioso: Dia Um. O projeto foi anunciado em 2023 como uma colaboração entre a Kojima Productions e o estúdio A24 – fala a verdade, não poderia estar em melhores mãos.

 

Na ocasião, o comunicado oficial disse que o que estava sendo criado não era uma mera tradução direta do jogo, e que a intenção era atingir o público fã do jogo e qualquer um que ame cinema: “Estamos criando um universo de Death Stranding que nunca foi visto antes, alcançável apenas por meio de um filme". Ah, e Kojima avisou: o objetivo é criar um Death Stranding que possa ganhar prêmios em Cannes e Veneza. Ambicioso.

 

Nos jogos ou no cinema, lá estarei para prestigiar Kojima-san. Obrigado por me acompanhar por tantas horas em caminhadas solitárias baixo chuvas torrenciais na pele de Sam Bridges e, sobretudo, obrigado por ser o maior cinéfilo da cultura pop. Um grandíssimo e enorme JOINHA pra você! 

Nada. Apenas Hideo Kojima em uma sala de cinema para te desejar um ótimo e cinéfilo fim de semana.

Comentários 2

G
Guilherme Sommadossi22 de outubro de 2025
um dia vou ter o letterboxd igual o dele
J
Jessica Cristina Marques21 de outubro de 2025
eu amo muito o kojima cinefiloooo hahaha estava torcendo pra vinda dele pro brasil coincidir com a mostra internacional de sp e encontrar ele em alguma sessao por ai, mas nao deu ;(

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