Tron: Ares | Nem tudo que reluz é ouro
Críticas GeraisDirigido por Joachim Rønning e estrelado por Jared Leto e Greta Lee, “Tron: Ares” revive (do nada) a franquia nos cinemas após 15 anos de hiato.
Há um certo consenso no que diz respeito à saga e seu potencial: a estética e sua premissa são muito mais interessantes do que, necessariamente, a substância por trás dos roteiros. Definitivamente, “Tron” é um daqueles exemplos perfeitos de algo todo vistoso e esteticamente deslumbrante, mas que por dentro é um poço de superficialidade e ausência. Isto encaixa perfeitamente nos três longas, sem exceção. Não à toa, seus lançamentos são espaçados e nunca alcançam o carinho perene do público (pelo menos, não de boa parte dele), o que, nas conversas de bar, ganha conclusões como “aquele até que era legal, mas não lembro nada mais”. Isto é, no bom português: esquecível. Então, vamos recapitular a franquia (com exceção da série animada “Tron: A Resistência”).
A ideia
Lançado em 1982, “Tron: Uma Odisseia Eletrônica” foi dirigido por Steven Lisberger, e contava com Jeff Bridges interpretando Kevin Flynn, um engenheiro de software que teve seus projetos roubados por um antigo colega e atual CEO da corporação Encom, e está tentando colecionar provas da fraude para recuperar seus trabalhos. E é no mundo desse servidor que acompanhamos boa parte da trama, com Flynn (usuário) entrando no sistema e dando continuidade na sua jornada ao lado de Tron (programa desenvolvido pelo seu amigo Alan Bradley, interpretado por Bruce Boxleitner). Em termos de premissa, “Tron” apresenta, de início, uma interessante história diferente ao abordar temas muito recentes e desconhecidos do grande público à época de seu lançamento.

De fato, foi um filme revolucionário e precursor nesse sentido. Porém, é justamente nessa inovação que não se encontra clareza em seu texto, encaminhando-se para um desinteressante desenrolar dos acontecimentos. Tudo simplesmente acontece, porque tem que acontecer. Entretanto, o grande diferencial aqui está na estética inovadora nos anos 80. Mesmo sendo considerada datada hoje em dia, há uma espécie de originalidade dentro de sua composição. A estética do “Tron” ficou muito reconhecida e serviu de inspiração para diversas obras cyberpunk, ao lado de outras produções contemporâneas como “Blade Runner”, por exemplo. Um adendo aqui para mencionar o maravilhoso clipe da música “12:51” dos The Strokes, com uma clara referência à ficção científica dos anos 80 (sim, eu gosto de Strokes, como percebeu?). Portanto, como narrativa “Tron” se perde na sua tentativa de soar complexo demais, e falha na simplicidade iminente de suas próprias armadilhas, tendo como grande destaque seus efeitos especiais e visual único, que dão um charme cult à obra, ainda atualmente.

O upgrade da ideia
Quase trinta anos depois, sua continuação “Tron: O Legado” é lançada, agora dirigida por Joseph Kosinski. Embalada pela envolvente trilha sonora do Daft Punk, “O Legado” surge como, basicamente, uma grande atualização de tudo que vimos no original. Pegando as artes conceituais do primeiro, desenvolvendo-as com mais esmero. Sem contar o fato de ser 2010, portanto o 3D estava bombando e as inovações tecnológicas no Cinema eram o grande assunto do momento. Contudo, assim como o anterior, acaba por aí somente. Mesmo tentando emular conversas mais profundas e traçar paralelos com filosofia e religião, o grande problema é justamente seu roteiro.

Há aqui uma premissa interessante com seu protagonista Sam Flynn (Garrett Hedlund), filho de Kevin Flynn, em busca de seu pai que desapareceu quando era uma criança. Sam acaba entrando na Grade, e acompanhamos sua fuga, ao lado de seu pai e uma nova aliada Quorra (Olivia Wilde). No entanto, no decorrer de sua trama, a história se perde com personagens secundários genéricos e estereotipados, fazendo com que no fim do dia, seja mais um filme de muita qualidade visual, porém sem empolgar o público de vez. Muito embora, não há como negar que o longa cumpre o que promete no título, carregando o legado do original, aprimorando tudo que havia antes. Seu destaque na estética permanece e se eleva com uma trilha marcante e que casa perfeitamente com a proposta, mas em termos de roteiro continua insosso.

O pouco que sobrou da ideia

Quinze anos se passaram e, quando ninguém esperava, a franquia renasceu das cinzas com “Tron: Ares”, agora sendo dirigido por Joachim Rønning. Na trama, acompanhamos Ares (Jared Leto), um programa de inteligência artificial ainda mais sofisticado, sendo transferido do mundo virtual para o real, desenvolvendo sua própria história e tentando entender seu verdadeiro propósito entre a humanidade. Já adianto que este aqui é o melhor da trilogia, na minha opinião. Principalmente, por retratar num filme bem “pipocão” um tema muito sério e pertinente que rodeia nossa rotina cada vez mais: o uso das IAs. Todas as cenas em que Julian (Evan Peters), o jovem bilionário inconsequente, está conversando e dando ordens para Ares é como se fosse a personificação (caricata, é claro) de nossas conversas com o ChatGPT, por exemplo (ou seria ChatGPTron?).

Diferente do impacto que o primeiro teve lá nos anos 80, aqui a situação se encontra mais próxima do nosso dia-a-dia, fazendo o público se envolver mais na história. É claro que tudo ainda permanece na superficialidade, mas a proposta aqui é claramente outra. O filme quer ser apenas um blockbuster interessante. E não há problema nisso. O único fator desfavorável é que, mais uma vez, não há aquele ‘algo a mais’ que faça as pessoas sentirem a necessidade de saber o que vai acontecer nesse universo, não sustentando a franquia como produto em si. Mesmo com essa falta de engajamento, temos aqui uma boa opção para se assistir no cinema e se impressionar com os maravilhosos efeitos especiais e sua competente trilha sonora, agora por Nine Inch Nails (que é basicamente uma extensão do que Daft Punk já havia feito, dando um toque um pouco mais híbrido nas faixas, o que se encaixa perfeitamente ao que o roteiro está propondo).

Definitivamente, há de se considerar que a personagem Eve, interpretada por Greta Lee, poderia ter sido melhor explorada, pois apresenta um potencial background interessante na trama, mas que se resume a apenas isto. Mesmo com todo talento e carisma de Lee, o próprio roteiro acaba sendo desonesto com sua personagem (e sua atriz). No entanto, há um humor - quase bobo, porém - eficaz entre Lee e Leto, o que acaba rendendo alguns bons momentos, como a preferência de Ares por Depeche Mode e a música dos anos 80. Outro destaque é a sequência em que Ares está dentro do servidor original de Flynn (aquele do primeiro filme), dando um charme elegante à obra. Certamente, foi muito prazeroso ter a oportunidade de ver aquela estética datada e única, do jeito que realmente é, na tela grande com o contexto de hoje.

Por fim, podemos concluir que (dado como a bilheteria está encaminhando) “Tron: Ares” não irá cair com veemência nas graças do grande público, mais uma vez. A produção continua o que a franquia sempre foi: um espetáculo visual e sonoro com pouca substância na sua profundidade. Mesmo sendo o melhor até agora da trilogia, não empolga ao ponto de pedirmos uma sequência, bastando apenas a experiência de passar o tempo assistindo a um bom filme de ação. Como diz o ditado “nem tudo que reluz é ouro”, em “Tron” nem todo bom programa tem um excelente usuário. Existem ideias e premissas muito interessantes na franquia, porém estes mesmos rascunhos já foram esboçados e desenhados em outras obras que as executaram melhor. “Tron: Ares” é um bom blockbuster para se assistir agora no cinema em algum final de semana, mas não passa disso. Não fica marcado. Reluz muito, é fato. Há muitas luzes, neon e vermelho em tela. Entretanto, não há ouro. No máximo, há uma bijuteria muito bonita que vai estragando com o tempo, até que quando menos esperar você a deixou guardada em uma gaveta e nem se lembra mais de como era. Esquecível conforme o tempo.













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