É possível comparar “The Paper” e “The Office”?

Críticas Gerais

Eu estava há meses esperando pela chegada da primeira temporada de “The Paper”, assim como, acredito, todos os fãs de “The Office”. Até cheguei a comentar sobre isso no artigo “Onde foram parar os filmes e séries de conforto?”, no qual levantei a discussão sobre estarmos carentes de sitcoms naturalmente engraçadas e seguras de seu potencial, como “The Office”, “Parks & Rec”, “Brooklyn Nine-Nine” e outras comédias que antecederam a era dos streamings — ou que, ao menos, começaram antes que a Netflix e outras plataformas passassem a redesenhar formatos e padrões de consumo no entretenimento.

Aliás, acho que há muito tempo não tínhamos um bom exemplar do que lá fora chamam de “workplace comedy” (comédia de ambiente de trabalho), uma subcategoria tão bem representada pelas séries já citadas. Soma-se a isso o fato de “The Office”, em especial, ter ganhado uma espécie de “segunda vida” durante a pandemia — o que contribuiu não apenas para que a série caísse no gosto de novas gerações, mas também para que fosse vista, por quem já a conhecia, como um dos pilares quintessenciais da comédia.



“The Paper” chegou, então, com uma grande responsabilidade nas costas. Lembro que o mero anúncio de uma série ambientada no mesmo universo de “The Office” fez muita gente torcer o nariz, dizer que nunca assistiria e que a nova produção jamais chegaria aos pés de sua antecessora. Esses dias, inclusive, ouvindo um episódio de “The Office Ladies”, o podcast de Jenna Fischer e Angela Kinsey, descobri que, durante as gravações da nova série, os atores precisaram fingir que estavam trabalhando em um projeto fictício, com outro nome, outro enredo e outros personagens — tudo para que o público soubesse o mínimo possível e não houvesse margem para especulações antes da estreia, tamanho era o burburinho entre os fãs.

Eu, desde o início, fui defensor da ideia. Como o projeto era encabeçado por Greg Daniels, showrunner de “The Office”, e produzido por Ricky Gervais e Stephen Merchant , criadores da versão britânica original, tive certeza de que não se tratava de algo vazio ou movido apenas pela nostalgia e pelo lucro. A isso se somava o fato de Michael Koman, cocriador e roteirista de “Nathan For You” — uma das séries mais absurdas e engraçadas do Comedy Central — comandar o projeto ao lado de Daniels. Ou seja: havia um prato cheio, reunindo alguns dos nomes mais importantes do universo das sitcoms, unidos em um projeto que, embora arriscado, partia de uma base já amada pelo público.

Pois bem: acabei demorando um pouco para terminar os 10 episódios, que aqui no Brasil saíram pela HBO Max. E, ainda que atrasado, achei justo vir aqui compartilhar minhas impressões.


Um punhado de personagens promissores


Assim como “The Office”, “The Paper” também tem muitos personagens. Alguns se destacam logo na linha de frente, com tramas e motivações mais bem desenvolvidas — como Ned Sampson (Domhnall Gleeson), Mare (Chelsea Frei) e Esmeralda (Sabrina Impacciatore). É interessante observar como, neste caso, os autores optaram por dar voz e espaço a quase todos desde o início, diferente de “The Office”, onde personagens como Creed, Darryl, Meredith e Kevin só ganharam mais presença a partir de meados da segunda temporada.

No entanto, essa escolha também levanta alguns problemas. O principal deles, a meu ver, é que não vivemos mais a era das sitcoms com 24 episódios por temporada. Isso faz com que, no modesto pacote de 10 episódios encomendados pela Peacock, haja pouquíssimo espaço para respirar. E, em uma série com tantos personagens, isso acaba resultando em um efeito um tanto caótico. O principal problema da primeira temporada, nesse sentido, está em não termos tempo suficiente para assimilar os personagens e, sobretudo, criar vínculos de identificação com eles.



O interesse romântico de Detrick por Nicole, por exemplo, soa como se os criadores estivessem apressados para formar pares românticos — algo que foi essencial para o sucesso de “The Office”, já que o casal Jim e Pam parecia ser, no início, o alicerce emocional da série e o ponto de equilíbrio ao qual nós, espectadores, sempre voltávamos quando as coisas com Michael se tornavam constrangedoras demais.

Eu sei: a ideia é que o casal central de “The Paper” seja, de fato, Ned e Mare. E, até o momento, acho que a tensão e a química entre os dois foram bem trabalhadas, considerando a limitação de episódios. Mas não dá pra ignorar como outras subtramas acabam parecendo cartas na manga, situações criadas simplesmente para manter o público engajado e “torcendo” por algo mais.
 

 

As excentricidades que tanto amamos estão ali (mas ainda precisam ser lapidadas)


 

Um dos aspectos que mais valorizo em “The Office”, e também em sua irmã de sangue, “Parks & Rec”, é o fato de ambas serem povoadas por personagens completamente desconectados da realidade e, ainda assim, perfeitamente humanos e críveis. Isso tornava natural a presença de uma equipe de documentário fictícia interessada em registrar o dia a dia aparentemente banal daquelas pessoas. Em “The Paper”, não é diferente. Há uma boa safra de personagens excêntricos com potencial para nos conquistar — mas, pra mim, esse momento ainda não chegou.

Sim, eu adoro a Esmeralda. Principalmente nos três primeiros episódios, em que ela se veste como uma antagonista perspicaz e usa o fato de ser estrangeira — e não ter o inglês como língua materna — para causar desconfortos propositais, lançar insultos e sair impune com a justificativa de que seu inglês “não é tão bom assim”.



O que mais gosto nela nos episódios iniciais é o instinto de sobrevivência com que se volta contra Ned, travando uma disputa cínica e engenhosa para sabotar as mudanças que ele tenta implementar no jornal. É uma pena que, nos episódios seguintes, ela acabe virando uma caricatura de si mesma, apoiando-se mais em excessos comportamentais e na persona “apaixonada/dramática” do que em suas múltiplas potências e complexidades. O resultado desse desvio é aquele enredo desconexo do penúltimo episódio, em que o maior conflito da personagem é sentir que está sendo telepaticamente manipulada pelo pensonagem Barry, só porque tem sonhos eróticos com ele. O que poderia ser uma breve esquete de abertura — como as “cold opens” de “The Office” — acaba se estendendo por todo o episódio.

Ned Sampson, por outro lado, apesar de carregar o arquétipo do sonhador e ser um homem sem grandes desvios de personalidade, também sofre com o esforço dos criadores em torná-lo excêntrico. Isso culmina em momentos desconexos, como o episódio em que Ned projeta em seu chefe, Marv, uma figura paterna e passa o capítulo inteiro agindo como um adolescente. Antes mesmo de entendermos que o personagem tem daddy issues, isso já se torna uma marca determinante de sua personalidade.



Por outro lado, há personagens como Ken (Tim Key) e Travis (Eric Rahill) que, mesmo secundários, encapsulam perfeitamente o humor que nos fez amar “The Office”. Ambos parecem confiantes e confortáveis em sua própria estranheza, gerando momentos genuinamente cômicos sem grande esforço.


Foi um início meio bagunçadinho, mas o coração da série está no lugar certo


Meu ponto é: as boas intenções são nitidamente visíveis em todas as tramas e subtramas de “The Paper”, mas a série precisa, sim, de uma recalibrada antes da segunda temporada. É impossível não traçar paralelos com “The Office” — afinal, o universo é o mesmo, um dos personagens é o mesmo (alô, Oscar), e até a equipe do documentário é a mesma. Ainda assim, “The Office” deve ser usado não como comparativo direto de tom ou ritmo, mas como parâmetro de boas práticas.

Mesmo sem ser formulaica, “The Office” foi revolucionária por vários motivos: as movimentações sutis de câmera que revelavam intenções e emoções, a montagem precisa que organizava recortes de um mesmo dia de forma orgânica e progressiva, e a narrativa sutil que criava momentos memoráveis sem depender de acontecimentos grandiosos. Mas, acima de tudo, havia honestidade tanto com o público quanto com a índole dos personagens. Por mais fácil que fosse recorrer a artifícios cômicos, “The Office” fazia da própria realidade dos personagens sua principal fonte de humor. Nada ali parecia forçado. E nós sabíamos que podíamos confiar em quem estava conduzindo.

Não acho que “The Paper” e “The Office” devam ser comparadas em termos narrativos, e nem devemos assisti-las sob a mesma ótica. São tempos diferentes, com lógicas de produção e consumo completamente diversas. Além disso, o humor de hoje carrega novas responsabilidades. Talvez nem tudo o que amávamos em “The Office” funcionasse em “The Paper”. Mas espero, sinceramente, que Greg Daniels e Michael Koman nunca se esqueçam de que existe um espírito pairando sobre sua nova criação, e que o que deu certo antes pode, sim, guiá-los rumo a uma série de comédia original, autêntica e muito necessária nesse momento.

Mas, e você? O que achou desses episódios iniciais? Conte aqui nos comentários!

 

Comentários 1

B
Bia Matera14 de outubro de 2025
Ainda tô longe de terminar a temporada, mas acho que falta destacar outro ponto: não ter medo de readaptar, o que acho que esse time por trás é craque em fazer. Afinal, a primeira temporada de The Office também é bem controversa e o Michael Scott que amamos é bem diferente daquele que vimos nos primeiros seis episódios da série original. Como você muito bem colocou, o coração tá ali e acho que tem bastante potencial. The Office funciona muito pelo elenco também e acho que o segredo pra uma continuação é ir além de repetir uma fórmula, é não ter medo de reconhecer que algumas coisas não deram certo e se reinventar, vendo que encaixa melhor ali. Nisso concordo com você.

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