Onde foram parar os filmes e séries de conforto?
RecomendaçõesEsses dias eu estava aqui, lendo o artigo “Por que Hollywood quer tanto me incomodar?”, da minha amiga/colega de críticas/Peliplater profissional Marcela Zanetti, que fala sobre essa tendência crescente, de uns anos pra cá, da indústria cinematográfica espelhar o sentimento de ansiedade, tão característico do nosso tempo, à maioria das produções da atualidade.
E é verdade: está cada vez mais difícil escapar dessa energia meio “trevas”, mesmo quando tudo o que a gente quer é desligar do mundo e assistir a uma sitcom engraçadinha.
Eu entendo essa movimentação da indústria. Ela é, de certa forma, coerente com o estado atual das coisas — um mundo que parece nos empurrar para cada vez mais perto do abismo. E, se você der uma olhada nos textos que venho publicando até o momento, vai perceber que até gosto de obras que cutucam a ferida e têm uma pegada mais densa, filosófica. Mas… todo mundo precisa de um alívio cômico de vez em quando, não é?
Parece que estamos vivendo um 8 ou 80: de um lado, produções que parecem querer despertar nas pessoas uma BAITA crise de ansiedade. Do outro, séries e filmes tão esquecíveis que mal conseguimos passar dos cinco primeiros minutos.
E aí eu me pergunto: onde estão aquelas boas comédias que a gente encontrava nos anos 2000? — Sim, eram décadas com produções problemáticas, de humor duvidoso, limites mal desenhados. Mas também foram anos que nos deram séries como The Office (tanto a versão britânica quanto a americana): simples, geniais e absurdamente reconfortantes. Aquelas que não subestimavam a inteligência do espectador e entregavam vinte minutinhos de humor afiado e acolhedor.
Talvez hoje eu só tenha acordado mais nostálgico que o normal. Mas quem é millennial (levanta a mão e vem comigo!), vai lembrar: nos anos 2000, os torrents rolavam soltos no Limewire, Pirate Bay, Kazaa, eMule... Sites que, apesar de operar na ilegalidade, facilitavam a nossa busca por algo novo para assistir. Eu mesmo tinha o hábito quase religioso de entrar no finado IsLifeCorp todo fim de semana e escolher um filme ou uma série só pela capa, no melhor estilo roleta russa. E, surpreendentemente, eram poucas as vezes que eu me arrependia! É claro que os meus gostos mudaram desde lá e passei a ter um olhar mais crítico sobre o que assisto, mas, mesmo assim, isso acaba demonstrando como era mais fácil encontrar um entretenimento de fácil digestão antes da era dos streamings.
Mas, bom… tudo isso foi pra dizer que me inspirei na ótima provocação da Marcela e resolvi resgatar do meu baú algumas produções que mais me trouxeram conforto ao longo dos anos — e, de quebra, indicar algumas boas opções atuais também. Quem sabe a gente não joga uma energia mais “cozy” para Hollywood e torce por produções mais ensolaradas nas telas? Inclusive, estou na torcida para que The Paper, o novo spin-off de The Office, ajude a puxar esse bonde. Greg Daniels, eu acredito em você!
Então, vamos à lista:
Parks and Recreation
Se tem uma série capaz de aquecer o coração até nos dias mais cinzentos, é Parks and Recreation. Na série, acompanhamos Leslie Knope (Amy Poehler), uma funcionária pública incansável e otimista do Departamento de Parques da cidade fictícia de Pawnee, Indiana. Tudo começa quando Leslie promete à enfermeira Anne (Rashida Jones) que vai transformar um terreno abandonado ao lado da casa dela em um parque comunitário. Mas é claro que, no caminho, ela encontra de tudo: burocracia, vizinhos excêntricos e colegas de trabalho que vão do libertário anti-governo à estagiária blasé que parece não se importar com nada.
Aos poucos, as relações entre eles se fortalecem, os personagens se tornam cada vez mais humanos e, consequentemente, muito fáceis de se identificar.
O humor da série nasce do contraste entre o entusiasmo inabalável da Leslie e o cinismo do resto do mundo — e também da química incrível entre as pessoas que compõem o elenco. Parks and Recreation é aquele tipo de série que faz você acreditar que, mesmo no meio do caos, sempre tem espaço para gentileza, esperança e amizades sinceras.
Bored to Death
A série acompanha Jonathan Ames (Jason Schwartzman), um escritor frustrado que, depois de levar um fora, decide virar detetive particular (mesmo sem ter uma licença para isso) inspirado nos romances noir que admira, e acaba entrando, por livre e espontânea vontade, nas situações mais inusitadas que poderíamos imaginar.
O charme da série está no trio principal: além de Jonathan, temos Ray (Zach Galifianakis), um cartunista inseguro, e George (Ted Danson), editor de uma revista e “chefe” do Jonathan, que o considera uma espécie de mentor. Juntos, eles enfrentam dilemas criativos, crises pessoais e casos absolutamente absurdos — tudo isso com uma atmosfera parecida com a de filmes noir da velha Hollywood, o que deixa Bored to Death bem diferente das comédias convencionais.
Além da série ser uma espécie de carta de amor à procrastinação criativa e às amizades improváveis, ela tem aquele tom descompromissado, que não se leva tão a sério, e que, justamente por isso, a torna tão apropriada para uma lista como esta.
Mythic Quest
Já se perguntou como seria trabalhar em um estúdio de videogame? Mythic Quest responde essa pergunta com uma boa dose de sarcasmo.
A série mostra os bastidores do desenvolvimento de um jogo fictício (que dá nome à série) e acompanha figuras peculiares, como o diretor criativo narcisista Ian Grimm (Rob McElhenney) e a programadora Poppy Li (Charlotte Nicdao).
Com humor ácido e original, a série explora conflitos de ego, crises criativas e as tensões inevitáveis entre setores — do roteirista que vive das glórias do passado ao CFO sociopata obcecado por lucros.
Além de parodiar o universo gamer, a série fala de temas como machismo no ambiente de trabalho, burnout e cultura pop — tudo isso de forma leve e cheia de referências para quem gosta de diálogos rápidos, personagens esquisitos e easter eggs.

The Marvelous Mrs. Maisel
Ambientada na Nova York dos anos 1950, The Marvelous Mrs. Maisel acompanha Midge Maisel (Rachel Brosnahan), uma dona de casa que vê sua vida virar de cabeça para baixo depois de ser traída pelo marido.
Num momento de desabafo, ela sobe ao palco de um bar e descobre que tem um talento natural para o stand-up comedy — dando início a uma jornada na qual ela busca se estabelecer como comediante profissional em um universo dominado por homens.
Com a ajuda da agente Susie Myerson (Alex Borstein), Midge desafia convenções sociais, enfrenta preconceitos e se redescobre em uma nova e improvável carreira.
A série ficou conhecida por seus diálogos rápidos e afiados — marca registrada das produções do casal Amy Sherman-Palladino e Daniel Palladino, criadores da série Gilmore Girls — além de seus lindos figurinos e ambientação de época, que é cheia de cores vibrantes e elementos que nos transportam para um universo à parte, proporcionando ao espectador um sentimento de nostalgia por uma época que sequer vivemos. Essa é, com certeza, uma série que vale maratonar (muito embora seja tão preciosa que talvez você queira guardar uns episódios para depois).
Trilogia Cornetto (Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Heróis de Ressaca)
Dirigida por Edgar Wright e estrelada por Simon Pegg e Nick Frost, a Trilogia Cornetto — também conhecida como "Trilogia Sangue e Sorvete" — é um combo perfeito de humor britânico, “bromance” e situações absurdas.
Em Todo Mundo Quase Morto, Shaun (Simon Pegg) precisa enfrentar um apocalipse zumbi ao lado do melhor amigo Ed (Nick Frost). Em Chumbo Grosso, Pegg é Nicholas Angel, um policial tão eficiente que é “rebaixado” para uma cidadezinha aparentemente pacata, onde acontecem diversas mortes misteriosas. Já em Heróis de Ressaca, Pegg vive Gary King, um adulto imaturo que tenta reunir os amigos para um pub crawl — uma espécie de “maratona” na qual as pessoas se reúnem para conhecer diversos bares em uma mesma noite — e, no lugar mais improvável, descobre uma invasão alienígena que pode causar a extinção da raça humana.
Cada filme homenageia e parodia um gênero diferente, sempre com o sorvete Cornetto como elemento simbólico que aparece em todos os filmes em alguma situação aparentemente corriqueira, mas que acaba criando uma conexão entre cada um.
A trilogia é uma grande celebração da amizade, de gêneros como terror, ação e ficção científica, e do humor peculiar das produções britânicas. Sem dúvida, os filmes rendem uma deliciosa maratona em um fim de semana de chuva ou frio. Pode confiar!
Quiz Lady
Em Quiz Lady, conhecemos Anne (Awkwafina), uma mulher metódica e obcecada por programas de perguntas e respostas similares ao Show do Milhão. Quando a mãe acumula uma dívida gigantesca de jogo e o cachorro de Anne é sequestrado, ela se vê obrigada a juntar forças com a irmã Jenny (Sandra Oh) — que é o oposto dela em tudo, sobretudo na personalidade — para tentar salvar a família.
A grande graça do filme está na dinâmica das duas irmãs: uma relação cheia de choques, mas também de descobertas e reaproximações. Ao longo de uma jornada caótica, Anne tenta virar a campeã de game shows que sempre sonhou ser.
Quiz Lady é um filme leve, engraçado e sincero — perfeito para quem gosta de road movies, boas risadas e histórias sobre resgate de laços familiares/de amizade.
Bom, as opções estão aí! Agora é só escolher sua maratona, preparar o cobertor e deixar essas histórias trazerem um pouco de leveza (e risadas) para o seu outono.
Aproveite os dias de frio e chuva que convidam a ficar em casa. E, se alguma dessas indicações não estiver disponível nos streamings convencionais, vale dar uma olhada no Stremio. Vai que você encontra uma nova (ou antiga) fonte de aconchego por lá!



















Comentários 5