Por que Hollywood quer tanto me incomodar?

Críticas Gerais

Quando comecei a escrever este artigo, tinha uma ideia completamente diferente em mente. Pensei em tecer elogios apaixonados ao último episódio de The Last of Us, ou comentar como Black Mirror — sim, ela mesma — vinha me surpreendendo positivamente em seus novos episódios. Mas, pela primeira vez em muito tempo, percebi que não consigo fazer isso. Me senti travada. Não só por falta de vontade, mas por um sentimento estranho que ando cultivando nos últimos tempos: um tipo de “writer’s block” - ou seria “viewer’s block”? - é querer consumir, mas não ter mais a leveza necessária para isso.
 

Não me entenda mal. Continuo acompanhando tudo. Leio as críticas, vejo os comentários e sinto a empolgação real das pessoas dizendo que estamos vivendo uma nova era de ouro da televisão — com episódios intensos, bem produzidos, envolventes, indo ao ar quase simultaneamente, como se estivéssemos presenciando, ao vivo, a história sendo feita. É realmente empolgante… na teoria.
 

Na prática, toda vez que me sento em frente à TV para assistir mais um episódio de Black Mirror, me pego fazendo uma das duas coisas: ou olhando quanto tempo falta para acabar ou tentando adivinhar em que momento exato o episódio vai me atingir emocionalmente com uma porrada existencial. Porque no fim, a verdade é que produções em 2025 parecem girar em torno disso: do incômodo.


 

Dizer que “isso é muito Black Mirror” virou uma gíria contemporânea. Está em todos os lugares — nas redes sociais, nas rodas de amigos, nas conversas de elevador. Tudo virou Black Mirror. E talvez seja exatamente esse o problema. Quando dou play na série, já sei que algum medo tecnológico (que não é nada distante da realidade) vai me consumir. E saber disso de antemão tem me causado uma ansiedade imensa. A antecipação do desconforto virou, ela própria, um desconforto.


 

Resultado? Estou presa no segundo episódio da sétima temporada há mais de três semanas. E o mais preocupante: esse sentimento começou a se espalhar para outros conteúdos. Veja The Last of Us, por exemplo (e aqui vai seu aviso de spoilers). Todos nós, fãs de longa data — seja da série, dos jogos ou de Pedro Pascal — sabíamos o destino trágico de Joel na segunda temporada. E mesmo assim, quando dei play no episódio, me peguei acelerando as cenas. Não para evitar o spoiler, mas para chegar logo àquela sequência de dor. Queria logo entender o nível de incômodo que eu teria que administrar. Me vi emocionalmente preparada… ou pelo menos foi o que pensei. Porque, sim, no momento mais impactante, eu chorei feito criança. Não vou nem mentir pra você. 
 

O que mais me inquieta nisso tudo é a sensação de que Hollywood quer me incomodar mais do que eu desejo ser incomodada. Parece que a indústria decidiu, nos últimos anos, que o sofrimento profundo e existencial é a nova fórmula de sucesso. Tudo precisa ser sombrio, tudo precisa ser sério, tudo precisa vir carregado de uma crítica social f*da (e geralmente é assim mesmo que ela é anunciada, com o palavrão incluso). E enquanto isso, minha TV só mostra cenas escuras, universos colapsados e protagonistas atormentados por suas memórias traumáticas - talvez eu precise comprar uma cortina blackout melhor.

 


 

E veja bem: eu entendo a importância dessas produções. De verdade. Elas têm um papel fundamental ao denunciar desigualdades, alertar sobre os perigos do futuro, discutir identidade, política, saúde mental, meio ambiente, tecnologia. Tudo isso é crucial. Mas o que me angustia é o desequilíbrio. Não tem mais espaço para o outro lado — o da leveza. O do respiro. O do entretenimento que também pode curar e não apenas cutucar feridas abertas.
 

Sou uma defensora ferrenha de narrativas que falam de assuntos difíceis de maneira leve (Já leu minha crítica de Morrendo por Sexo? Pois é) Eu acredito, com todas as forças, que podemos tratar temas sérios com humor, com afeto, com humanidade. Eu gosto de assistir algo apocalíptico, sim — mas desde que, logo depois, eu possa ver uma boa comédia para balancear a emoção. Só que esse equilíbrio, infelizmente, parece ter sido esquecido antes dos anos 2020. É como se a leveza tivesse perdido o valor artístico. Como se só fosse digno de premiação aquilo que dói.
 

Recentemente, numa conversa com amigas durante o feriado, tentamos puxar da memória qual foi o último romance bem feito vindo de Hollywood. Aqueles romances com bom roteiro, química entre os atores e aquele calorzinho no coração. Chegamos a Todos Menos Você, do começo de 2024 (uma grata surpresa), e Palm Springs, de 2020. Isso mesmo. Estamos em 2025 e os dois últimos romances bem-feitos que lembramos datam de pelo menos um ano — ou mais — atrás. Enquanto isso, incontáveis produções que dilaceram o coração (e a mente) continuam a ganhar destaque, espaço, prêmios e atenção.
 

De novo: não sou contra essas obras. Elas são fundamentais para nos lembrar do caos do mundo. Mas é exatamente por viver neste mundo, por estar imersa nas notícias, nos problemas sociais, nas crises, que às vezes tudo o que eu queria era chegar em casa, deitar no sofá e assistir algo que não fosse mais um lembrete de que tudo está errado.
 

E é aí que vem a famosa crítica: “Nossa, Marcela, você reclama demais. Vai assistir Friends, então!”. Bom, querido leitor, esse é exatamente o ponto. Enquanto escrevo este texto, estou com a TV ligada em segundo plano, passando o mais novo podcast da Amy Poehler — sim, ela mesma, a gloriosa Leslie Knope de Parks and Recreation. Tento me agarrar a qualquer fiapo de comédia inteligente e bem escrita que ainda reste no entretenimento atual. Mas até ali, na voz confortável da Amy, a conversa é sobre experiências, vulnerabilidade, traumas. Parece que nem a comédia quer mais rir de verdade. Tudo virou jornada emocional, tudo precisa ter peso. E eu? Eu só queria rir de algo sem me sentir culpada depois.
 

Sinto falta das grandes comédias. De verdade. De quando era possível assistir a um episódio de 30 Rock, The Office ou a própria Parks and Rec e sair com o coração leve. Eram séries que, mesmo falando sobre crises, inseguranças, política ou relações de trabalho, sabiam fazer isso com humor, com carisma, com absurdos bem encaixados e roteiros que não se levavam tão a sério.
 

Hoje em dia, qualquer série de comédia que tenta o mesmo parece precisar justificar sua existência com uma camada dramática obrigatória (Estou falando com você, The Studio) Como se fazer rir, sozinho, já não fosse suficiente. Então sim, talvez eu esteja mesmo com um viewer’s block. Mas ele não é causado por preguiça, ou por falta de interesse. Ele vem da saturação. Da exaustão de uma indústria que insiste em me lembrar, o tempo todo, que a realidade é pesada — como se eu não soubesse disso muito bem. Só que eu também sei que o riso tem poder. Que a leveza é, muitas vezes, revolucionária. E que o entretenimento pode (e deve) ser plural: pode emocionar, incomodar, provocar, mas também pode confortar, acolher e até, veja só, divertir.
 

E tudo que eu peço é isso: equilíbrio. Uma produção que me faça rir com inteligência, que me ajude a suspirar entre um episódio angustiante e outro. Porque se continuar assim, vou acabar reassistindo Palm Springs pela terceira vez este mês. E talvez isso não seja um problema.
 

Comentários 5

M
Maratonando19 de maio de 2025
É curioso como a própria crítica ao “conteúdo leve” virou sinônimo de superficialidade. Como se rir fosse um pecado capital do bom gosto. Você disse tudo: o equilíbrio sumiu, e a gente precisa lutar por ele. Inclusive no que assiste.
G
Gustavo Girotto29 de abril de 2025
Nossa, me identifquei demais, Marcela. Eu sempre me pergunto porque continuo maratonando séries que já vi várias vezes (recomecei The Office em Fevereiro e já tô na sétima temporada) do que ver séries novas... mas realmente cansa quando todas elas são sobre traumas, medos e ansiedades. Saudades do reinado de sitcoms... haha
B
Bia Matera25 de abril de 2025
Pelo amor de Deus, eu não aguento mais série escura! Minha TV fica perto de uma janela, meu apartamento é alugado e eu me recuso a colocar uma cortina, sabe!!!!</br>Já falei e vou repetir várias vezes, enquanto as séries, os filmes e o entretenimento num geral continuarem servindo ao marketing e não à história, a gente não vai ter paz.
C
Carlos Norcia23 de abril de 2025
Pois é, tb acho que o equilíbrio entre séries dramáticas (e pesadas) e comédias tá estranho hoje em dia! Tô torcendo pra maré virar logo e começarem a sair mais comédias leves!
R
Rafael Sylos23 de abril de 2025
Concordo plenamente! Talvez esteja aí a explicação da gente reprisar The Office de novo, de novo e de novo. Não tem nada parecido, com aquela mesma leveza e atmosfera descompromissada. Inclusive estou aqui contando os dias pra chegada de The Paper! Sinto que o Greg Daniels tá vindo aí entregar mais uma série de conforto pra nós 🙏

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