Ainda procurando nemos, nostalgias e aceitação nesse imenso mar aberto

Aspectos Socioculturais

Primeiramente, antes de qualquer menção ou preferência, foi muito intrigante essa premissa: ‘a animação que mais me marcou’, por vários motivos. Toda vez que me proponho a fazer uma lista de meus filmes favoritos, prontamente menciono “Shrek 2” em alguma posição de destaque, pois adoro animações - é OBRIGATÓRIO ter animações nessas listas, particularmente - e, realmente, acho que este filme é uma obra prima ao juntar vários mundos dentro da sátira maior que a franquia domina, além de ser muito divertido. Mas não foi a primeira animação que me veio à mente. 

 

Apenas como menções honrosas, vou deixar registrado aqui alguns filmes animados que aprecio muito. Eu poderia ser mais cool e citar alguma animação japonesa que, mesmo depois de assistir já mais velho, deixaram uma marca importantíssima para mim, por serem artisticamente lindas (no visual e na história a ser contada), como minha trinca favorita do Studio Ghibli: “Túmulo dos Vagalumes”, “Meu Amigo Totoro” e “O Serviço de Entregas da Kiki”, ou clássicos como “Akira” e “Ghost in the Shell”. Poderia querer ser meio pseudo-cult-underground e citar uma produção bem mainstream, vencedora do Oscar de Melhor Animação em 2012, mas com um quê de alternativo ao referenciar o psicodélico “Medo e Delírio”, do grande Terry Gilliam (vida longa ao Monty Python!), além de apresentar uma miragem de Clint Eastwood como ‘Espírito do Oeste’… estou falando de “Rango”, adoro esse filme. Poderia, até, ser o lobo solitário outsider e citar uma animação totalmente esquecida e avulsa, de baixo orçamento, como “O Pequeno Herói”, co-dirigida pelo eterno Super-Homem Christopher Reeve, que eu não dava nada, mas me emocionou verdadeiramente quando assisti há quase 20 anos, e sempre tento mencioná-la nessas listas pessoais. Ou, até mesmo, homenagear grandes representantes do artesanato trabalhoso e sofisticado dessas animações stop-motion, como “A Fuga das Galinhas” e “Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais”. Poderia citar tantas outras séries animadas que acompanharam minha infância diariamente. Mas não foram nenhuma dessas que me vieram à mente de primeira. Dessa vez, não consegui… não consegui manter a pose de cool, pseudo-cult-underground ou outsider, e esbarrei no básico clichê…. vou citar uma da Pixar. Pensei em “Procurando Nemo” de cara, confesso.

Dentre tantos estúdios e produtoras que se destacam nessas animações, a Pixar é a maior de todas em termos de popularidade. Isso é inegável! E, por mais que seja clichê, não consigo negar que todos aqueles clássicos do final dos anos 90 e começo dos anos 2000 marcaram muito a minha vida. Neste cenário, temos “Procurando Nemo” (2003), dirigido por Andrew Stanton, do qual conta a jornada do peixe palhaço Marlin na busca pelo seu filho perdido Nemo. A premissa é simples e fácil de se comover - daquele jeito bem descarado que a Pixar faz mesmo. Mas se é para entregar algo descaradamente feito para chorar, que seja feito de um jeito memorável. E a Pixar costuma acertar (quase) sempre nesse quesito. Os elementos estão todos ali: o drama do luto pela perda da mãe, o excesso de cuidado do pai, a rebeldia do filho, além de personagens carismáticos e excêntricos. Mas há um fator específico que dá uma sensação de desespero, ao mesmo tempo de um fascínio deslumbrante: o mar.

Finding Nemo — Pixar Animation Studios

A imensidão do mar é infinita. Marlin perdeu seu filho oceano afora, sem saber se continua vivo e se ainda está no mar ou na superfície. Esse pai só tinha Nemo em sua vida, e perdê-lo faz com que ele não tenha descanso até reencontrá-lo. Quando se é pequeno e assiste a esse filme, você pode entender sim, em um âmbito geral, sobre o que é aquela história, mas depois de mais velho é que você consegue sentir e refletir sobre nós mesmos, de um jeito mais profundo. Todos nós temos episódios rebeldes e de completa discordância com nossos pais, e isso não é exclusivo da infância/adolescência. Muitas vezes percebemos que, talvez, já somos bem diferentes dos nossos criadores… e tão iguais, ao mesmo tempo. Diferentes nos pensamentos críticos-sociais, ideais, políticos, gostos para filmes, música, e arte em geral, entre outros fatores. Mas muito iguais naquilo que mantém essas discordâncias em voga: a necessidade de aceitação. Desde sempre queremos que nossos pais nos aceitem como somos, e vice-versa. Nossos pais também sempre quiseram ser aceitos por nós, filhos. E isto é extremamente difícil. Somos moldados de uma forma por adultos que estão aprendendo a ser adultos, e queremos nos desconstruir sem antes ter a consciência de construir, sendo jovens sem se dar conta de que ainda temos tempo. E precisamos respeitar e aproveitar esse tempo, navegando nesse mar imenso que é a vida, com a soma de todos os aprendizados que acumulamos diariamente, continuando a nadar (a nadar, nadar…).

Finding Nemo — Pixar Animation Studios

Visualmente, “Procurando Nemo” é um deleite de 1 hora e 40 minutos, com toda a beleza do ecossistema marinho. [Abro espaço, inclusive, para citar uma espécie de descanso de tela que há disponível no Disney+, com a paisagem belíssima do recife de coral do filme, chamado “O Recife da Dory”] Definitivamente, o começo dos anos 2000 foi muito promissor para as animações de diversos estúdios. Àquela altura, a Pixar já havia lançado os dois “Toy Story”, “Vida de Inseto” e “Monstros S.A.” (só pedradas). A evolução na qualidade do 3D ao longo das produções é bastante notável, e “Procurando Nemo” acabou chegando no seu auge, na época, ao retratar o mar de uma maneira extremamente realista. Além dos detalhes gráficos, temos a composição inventiva de vários personagens secundários carismáticos. A começar pela maior de todas, a Dory (ganhou um filme próprio anos mais tarde, por conta da popularidade). Apenas com sua condição de perda de memória recente, já apresentaria muito material a ser desenvolvido em termos de roteiro. No entanto, ela vai além. É uma personagem que o espectador não sabe direito de onde veio ou para onde vai, mas a partir do momento que seu caminho cruza com o de Marlin, ela escolhe ajudá-lo, responsabilizando-se de forma direta na busca pelo filho perdido, destacando-se com seu bom humor e pureza - muitas vezes inocência - que contrasta com a impaciência e irritabilidade do peixe-palhaço, proporcionando momentos hilários como a tentativa de lembrar do famoso endereço P. Sherman, 42 Wallaby Way, Sidney. Ademais, temos o tubarão dócil (só não deixe ele sentir o cheiro de sangue no ar… ou na água) chamado Bruce, ao lado de seus amigos, participando de uma espécie de “alcoólicos anônimos”; todos os peixes do aquário do dentista, que ajudam na fuga do Nemo, liderados pelo experiente Gill; uma das vilãs mais temidas de todos os tempos chamada Darla; uma tartaruga hippie com extrema sabedoria de vida chamada Crush; até o pelicano Nigel que acaba sendo fundamental para saber das informações que estão cruzando os setes mares de um pai desesperado tentando encontrar seu filho.

Finding Nemo HD Wallpaper: Mr. Ray, Nigel & Crush Explore Sydney Waters

Dentre outras premiações, “Procurando Nemo” conquistou o Oscar de Melhor Animação em 2004, compondo a estante das animações mais emblemáticas dessa “época de ouro” da Pixar. De fato, marcou uma geração em múltiplos sentidos, aguçando, inclusive, a curiosidade em muitas crianças pela biologia marinha. O mar é muito intrigante. A vastidão que o permeia faz levantar questões semelhantes ao apreciar o céu e a imensidão do Universo. Somos muito pequenos e, dentro de nosso próprio planeta, existem tantos ecossistemas diferentes… E, mesmo sendo inúmeras vidas e criaturas divergentes de nós, acabamos nos identificando pela sensível humanização de cada personagem. Nada mais é que uma história de um pai procurando seu filho perdido, e é por isso que cativa a todos, de alguma forma. No nosso mundo, da superfície, isso já traz uma carga dramática absoluta por sabermos dos riscos que o mundo oferece, o que um ser humano maldoso é capaz de fazer, a possibilidade infinita de lugares que um filho pode se perder. Há tudo isso neste filme, porém se passa no mar, um lugar totalmente desconhecido por grande parte das pessoas. Lugar que para muitos pode até conter gatilhos de traumas por medo de nadar ou, até mesmo, tragédias de afogamento. Para outras pessoas, o mar é sinônimo de diversão e nostalgia, remetendo à memórias de quando iam às praias e passavam horas brincando dentro da água. No entanto, para muitos - inclusive para mim - significa reflexão. 

Download Underwater Adventure with Nemo and Friends | Wallpapers.com

Quando estou à beira-mar, prefiro ficar sentado, debaixo do guarda-sol, na areia, olhando as ondas baterem, do que necessariamente entrar na água. Por conta de toda essa carga misteriosa do ‘desconhecido’ que o mar traz. Toda a fluidez, o vai e vem, a maré, o que trouxe, o que levou. A busca pelo desconhecido, pela aceitação, pelo seu lugar no mundo. Tenho a impressão de que esse sentimento de pertencimento nunca será completo em sua totalidade, durante todo nosso tempo aqui. Sempre terá algo faltando, e a vida é uma eterna procura à isto. E, mesmo continuando a nadar, podemos acabar não encontrando nada. Mas nada já é muito, quando tudo em volta é mar aberto. E a vida é um mar aberto. Às vezes, estamos desesperados procurando pela Corrente Leste Australiana, mas quando nos damos conta já estamos nela, e é só seguir a correnteza. Às vezes, quando temos dúvida se já estamos prontos para achar o caminho de volta à imensidão azul, devemos lembrar das sábias palavras do nosso velho Crush, de 150 anos, ao responder o questionamento de Marlin sobre quando temos a noção de que os filhos estão prontos: “a gente nunca saca, irmão, mas quando eles sacam aí tu saca, sacou?”. Concluo, então, que a animação que mais me marcou foi, de fato, “Procurando Nemo”. Sempre vou lembrar das inúmeras vezes que assisti com meus pais àquele que foi um dos meus primeiros DVDs. Sempre vou lembrar de quando percebi que as animações não são apenas para crianças, pois esse em específico tinha emocionado profundamente meus pais, até mais do que eu… naquele momento. Sempre vou lembrar do Nemo, do Marlin, da Dory, do Gill, daquele peixe roxinho que odeia a Aqcua Scan, da minhoca uh-ah-ah, do Bruce, e do melhor de todos, o Crush. Siga tua correnteza e vai na paz, irmão!

Finding Nemo HD Wallpaper: Crush, Marlin & Dory's Underwater Adventure

Comentários 3

H
Heitor Leal Machado21 de agosto de 2025
Eu amo Nemo também! Quando saiu o blu ray, fiz questão de comprar porque o DVD esgotou e eu não consegui. Eu acho até hoje um deleite visual, sem falar na narrativa.
G
Gabriella Moreno16 de agosto de 2025
Deu vontade de reassistir
G
Gabriella Moreno16 de agosto de 2025
👏🏻👏🏻👏🏻🩵🩵

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