Cloud, Kurosawa e o horror gamificado do capitalismo moderno
Críticas GeraisCerta vez, Kiyoshi Kurosawa declarou que acreditava no cinema de horror como meio para expor os nossos fantasmas pessoais. Essa afirmação, além de revelar sua visão estética, permanece fiel quando observamos suas obras. No entanto, tenho sustentado a hipótese de que, talvez de forma menos intencional ou deliberada, seus filmes também acabam por atingir um espectro mais amplo e complexo de horror: o fantasma coletivo do capitalismo contemporâneo.
O melhor filme que vi em 2024, sem qualquer sombra de dúvida, foi Chime. Ao longo do último ano, assisti a aproximadamente 300 filmes, entre revisitas e lançamentos inéditos. Nenhum, porém, me provocou reações tão intensas de espanto, fascínio e inquietação quanto esse. A obra se destaca pela singularidade de sua fantasmagoria e, principalmente, pela genialidade estética na manipulação da imagem. Ainda que não seja um filme explicitamente político, Chime traduz com notável sensibilidade o horror cotidiano presente na rotina ordinária de um homem aparentemente inofensivo. É o retrato de uma mente que, aos poucos, entra em crise em razão da repetição, do tédio. Trata-se de um ótimo filme, em todos os sentidos.
Já em Cloud, também dirigido por Kurosawa e lançado neste mesmo ano, a crítica social se insinua de forma ainda mais direta. A figura do capitalismo assume aqui o papel de uma nuvem opressora, pairando sobre a vida do jovem Ryosuke Yoshii (interpretado por Masaki Suda). Cansado de seu trabalho monótono em uma fábrica, Ryosuke decide pedir demissão e passa a viver da renda obtida com a venda de produtos falsificados na internet. Mesmo com um chefe aberto à possibilidade de promovê-lo, Ryosuke acredita que conseguirá ter a vida que merece dessa maneira, digamos, alternativa (o que me lembrou um pouco da pesquisa recente que aponta que jovens no Brasil estão abandonando a faculdade para investir em apostas online, mas isso é uma discussão para outro momento).
Ele embarca nessa nova jornada ao lado da namorada e de um computador. Com exceção de sua nova ocupação ilícita, todos os demais aspectos de sua vida permanecem aparentemente normais. A namorada, que vivia com dificuldade para pagar o aluguel da casa, deposita fé na promessa de uma vida mais confortável, que se concretiza até, mesmo que por pouco tempo. Até certo ponto, o roteiro nos leva a crer que Ryosuke teria encontrado uma maneira de “hackear” o sistema político-econômico que o explorava, se aproveitando dele antes que fosse ele o aproveitado.
A felicidade com a mudança para uma casa maior e uma vida tranquila vivida em seus próprios termos, contudo, muda na rapidez do passar de uma nuvem cinzenta. O sobrenatural é inserido gradativamente, plano a plano e cena a cena. Primeiro um rato (ou seria um ratel?) morto no meio da escada, enrolado em um jornal. Depois, a estranha cena do ônibus cuja edição é baseada em jump cuts, seguida por uma presença no meio da noite, do lado de fora da casa, só observando. Exemplos da construção de atmosfera em que a única constante é a instabilidade.

Aqui não existem fantasmas, pelo menos não na maneira convencional, como conhecemos no cinema ocidental e nas nossas mitologias. O horror em Cloud é onipresente pelo estranhamento e se fortalece daquilo que se desconhece. Quando falamos sobre o extracampo no cinema e os poderes constituídos naquilo que deixamos de ver, sempre me recordo da maneira como o mestre do suspense, Alfred Hitchcock durante a célebre entrevista presente no livro Hitchcock/Truffaut, fala sobre suas inúmeras possibilidades. Sobre o invisível ser mais assustador que o visível.
Poucos cineastas compreendem que tão importante quanto escolher o que mostrar, é escolher o que não mostrar. Nesse sentido, Kurosawa entende e trabalha constantemente com as possibilidades da sugestão em seus filmes, seja para criar tensão, abrir espaço para dúvidas e questionamentos ou dar múltiplas interpretações a uma mesma ação. Os planos por si só são tão polissêmicos quanto a cena, e justo pelo que se encontra no oculto.
É interessante como o horror do diretor é um horror de outro mundo, mas nem sempre aquele pensado pelas religiões e crenças milenares. Em Cloud, me parece que o outro mundo o qual devemos temer é o digital e suas interseções com o próprio capital. Existem camadas de complexidade a serem adicionadas neste filme quando pensamos que as ameaças externas surgem através da tela de um computador, por meio de uma ação que existe em “nuvem”, mas tem efeitos reais dentro do universo palpável, cujo denominador comum é o dinheiro.

Penso comigo que talvez esse seja o caminho do horror verdadeiramente moderno (e não aquela baboseira lá de pós-terror que querem nos pôr goela abaixo); um horror intrínseco ao sistema de exploração brutal e ao papel das novas tecnologias nesse cenário. Um medo que surge como fruto tanto da exploração quanto da ganância, inconformismo e exaustão, — e que tem consequências inimagináveis, dentro e fora das telas. É também permeado pela imposição de um individualismo extremo, natural de um sistema construído para retirar, dia após dia, a humanidade que nos resta.
Penso aqui na definição de horror do Noel Carroll no sentido de que o horror pressupõe o sobrenatural, enquanto as obras de terror ou de terror psicológico vêm dele. No filme, quando os clientes se revoltam contra Ratel, o que era imaterial e desconhecido, manifestado por intermédio de uma tela acaba se tornando uma ameaça real e o filme se joga em mais um subgênero; tornando-se um filme de vingança. É quando aquela atividade, antes limitada ao mundo virtual, gera consequências mais do que decisivas na destruição do mundo “real” do protagonista — na maior parte do tempo um covarde, embora ambicioso.

A normalidade com tons de esperança que pareciam resistir em meio às instabilidades casuais, inclusive aquelas que transparecem sobre seu próprio julgamento, se desdobra em obstáculos a serem vencidos em busca do pote de ouro. Nesse sentido, quando a obra abraça o revenge film que existe nela, é que fica nítida a gamificação que permeia a história e justifica a banalização da violência desmedida: é tudo em nome da grande recompensa.
A última cena é a síntese, quando dois personagens aparecem dirigindo um carro entre as nuvens. Foi quando Cloud me remeteu imediatamente à espetacular e vanguardista obra de David Cronenberg, eXistenZ (1999) — particularmente um dos meus filmes favoritos da história — quanto à ideia central gamificar a realidade sobremaneira que beira o impossível distinguir o que existe e o que é apenas uma invenção (are we still in the game?).
Se é que a essa altura existe qualquer diferença entre um e outro, entre o virtual e o real. A julgar pelo que Kiyoshi Kurosawa retrata em Cloud, me parece que essa linha está cada dia mais tênue no sistema político-econômico em que vivemos. Kurosawa poderia encerrar Cloud de muitas maneiras, mas só essa cena e o ponto que existe nela possuem a força necessária para mudar por completo o sentido de do filme. A forma como o diretor retira o véu da normalidade (ou seria nós mesmos enxergando o óbvio, enfim?) e revela os personagens e suas ações como parte de um grande jogo, é mesmo O truque de mestre.
Por fim, o que se revela é algo urgente, mas o filme ultrapassa o próprio senso de urgência da temática e trabalha com a linguagem do cinema para sugerir camadas mais ricas de uma mesma discussão. Várias obras recentes que tiveram como objetivo criticar o capitalismo moderno se tornaram uma caricatura delas mesmas, como Não Olhe Para Cima!, Mountainhead e Mickey 17, todos ótimos exemplos do que não fazer. Fico feliz em ver que Cloud não cai na mesma armadilha. Parece que Kurosawa hackeou o sistema.












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