F1 – O Filme tá destruindo as minhas amizades
Críticas GeraisQuarta-feira à noite, eu e minha roommate acabamos de sair do cinema. É hora do happy hour, estamos sentadas numa mesa no bar do lado do cinema, tomando vinho branco e jogando dardos, uma contra a outra. Free Bird do Lynyrd Skynyrd tá tocando alto e eu tô destruindo ela no jogo de 501. Era pra eu estar me divertindo, mas não tô, por isso acabei começando uma discussão.
E a culpa é do Brad Pit .
Supostamente, era pra eu estar adorando estar aqui no bar tanto quanto deveria ter gostado de F1 – O Filme. Afinal, o filme é a combinação das minhas duas coisas favoritas:
Cinema
Carros disparando até voar em círculos.
Mas já quando saiu o trailer, dava pra perceber que a abordagem do diretor Joseph Kosinski sobre a Fórmula 1 não seria necessariamente feita pros fãs do esporte em si. Por exemplo, considerando que o filme teria uma diretora técnica como interesse romântico e que o trailer já mostrava aquela fala infame sobre construir um carro feito pra combate, desde o início já tinha ficado claro que o filme não seria uma representação fiel do esporte que eu amo.

Eu tenho a noção de que uma produção que custou mais de US$ 300 milhões precisaria tomar algumas liberdades artísticas traduzindo o esporte pra tela. Mas, pelo menos, eu esperava que o filme seria divertido. Em vez disso, a história é cheia de clichês, conta aquela mesma história de sempre sobre um veterano e um novato, e é tão sem graça que não deu pra distrair dos absurdos na tela. Quando os créditos subiram, me senti que nem um torcedor da Ferrari: deprimido e decepcionado.
A parte do meu cérebro que ama automobilismo não parava de reclamar. Meu monólogo interno foi tão intenso, que chegou a abafar os diálogos ridículos e aquela trilha sonora irritante de tão exagerada.

– Ele acabou de flatspotar o pneu e agora a volta dele tá só 5 décimos mais lenta que a do companheiro de equipe? Nem ferrando!
– Ah, por favor, isso nunca passaria impune. Dariam pelo menos 10 segundos de punição e ele com certeza levaria bandeira preta depois de fazer isso DUAS VEZES.
– Tá brincando comigo? Esse pacote de atualização foi desenvolvido em uma semana e agora, do nada, eles estão brigando na dianteira? Ele nem poderia correr sem ter feito o treino classificatório.
Enfim, você já entendeu.
Minha roommate, por outro lado, adorou o filme. Ela não sabe nada sobre Fórmula 1, mas eu a arrastei pra ver o filme mesmo assim. E ela ficou vidrada do começo ao fim.

Eu precisava entender o motivo disso.
Pra mim, o fato do Brad Pitt, que ficou duas décadas fora do esporte, conseguir voltar tão rápido a ser um atleta capaz de ganhar é difícil de engolir. Comparar um carro de F1 dos anos 90 com um modelo atual é quase como comparar um Cessna com um foguete. Inclusive, daria pra focar em outras histórias muito mais interessantes, até mesmo dentre as tramas do próprio filme, que dariam um filme melhor. O novato Joshua Pearce lutando pra se destacar numa equipe que tá em decadência? Isso sim seria interessante! A história de Kate, a primeira mulher diretora técnica de Fórmula 1, tentando provar seu valor numa indústria dominada por homens? Eu assistiria esse filme fácil, fácil!
Ao invés disso, temos uma história que já foi repetida mais de mil vezes, com um Brad Pitt que mal tá interpretando um personagem que não é ele mesmo na tela. Metade do tempo que o Pitt atua no filme, ele tá fazendo esta cara aqui:

Na outra metade, ele tá com o rosto coberto pelo capacete. E eu fiquei lá, esperando a história engrenar, mas depois de uma hora inteira, aceitei que seria só aquilo mesmo.
Mas minha roommate não deu a mínima. Ela me disse que o filme a lembrou da animação Carros mais do que qualquer outra coisa, com o ex-piloto ensinando as manhas pro novato imprudente. Pra ela, até as corridas causaram a mesma impressão que ela teve vendo Carros.
– O acidente foi igual ao de Carros 3, quando Relâmpago McQueen capota e você fica sem saber se ele vai conseguir correr de novo. Eu tinha certeza que o Sonny ia perder o controle naquela última volta.

Ela tinha lá um pouco de razão, mas eu não tava lá pra ver Carros 4, e sim F1! No mínimo, eu esperava que as cenas de corrida valessem o preço do ingresso. Mas assim,por mais visualmente impactantes que elas sejam , no fundo essas sequências são vazias.
Aos domingos, quando eu assisto a uma corrida de verdade, eu sempre me importo com o que tá acontecendo na pista. Fico de olho se o Verstappen tá diminuindo a diferença no Campeonato, comemoro quando os novatos pontuam, e por aí vai. Eu conheço a história de todos os 20 pilotos no grid, então quando um deles faz uma ultrapassagem incrível ou bate numa barreira, eu tô ali, torcendo. Com o filme da F1? Eu não tava nem aí se o Sonny venceria ou se o Josh ainda teria vaga na próxima temporada. Sério, me deu a impressão que o próprio Sonny não se importava muito com o que tava rolando no filme.
A real é que se eu não dou a mínima pro piloto, não tô nem aí pra corrida, também. E se eu não me importo nem mesmo com as corridas num filme sobre Fórmula 1, então esse filme tá quebrado e não tem conserto.

Minha colega de quarto, porém, ficou super emocionada e presa na cadeira, com os olhos grudados na tela.
– Ah, eu tava totalmente imersa na história. Parecia que eu mesma tava dentro do carro, indo tão rápido quanto eles. Passei a última corrida inteira sussurrando, não bate, não bate, não bate.
Ao ouvir isso, fiquei perplexa. Por duas horas e meia, F1 prendeu totalmente a atenção dela. Enquanto eu criticava as estratégias de corrida, ela tava fascinada com as disputas acirradas. Obviamente, o filme consegue traduzir pra quem não conhece o esporte a sensação de correr a 300 km/h.

Mas no fim, parece que as minhas suspeitas desde que vi o primeiro trailer tavam certas. F1 não é pra os fãs do esporte. É pra quem não sabe muito sobre Fórmula 1 e só quer se divertir no cinema. Conforme nossa disputa de dardos terminou, ela acabou me falando quais foram as suas cenas favoritas e sobre como ela adorou a dinâmica de companheiros de equipe competindo entre si.
No começo, era eu quem tava perguntando coisas pra ela, tentando entender por que ela gostou do filme, logo eu comecei a explicar o esporte na vida real. Contei pra ela como funciona a classificação e a diferença entre o Campeonato de Pilotos e o de Construtores, por exemplo. Até ela me falar algo que todo fã de F1 queria ouvir:

– Sabe que eu até podia ver uma corrida de verdade, um dia.
Meu coração deu um pulo.
– Tem uma neste fim de semana, quer assistir?
– Claro, por que não? Se a emoção for metade do que foi ver o filme, já vai ser divertido.
Não conseguia acreditar que tinha convencido ela a ver uma corrida.
– Ótimo! Começa às 7 da manhã. – Ah... então deixa eu pensar melhor, antes.
Eu sabia que era bom demais pra ser verdade.

F1 me deixou realmente frustrada, tanto no aspecto da representação do esporte quanto como um filme. Entre os momentos inverossímeis e irreais durante as corridas e os personagens mais vazios do que os pneus de Pitt depois de vários furos, simplesmente não deu pra ficar envolvida. E mesmo o balde de pipoca promocional que temos por aqui, que tem a forma de um capacete de corredor, eu também não consegui comprar porque já tava esgotado.
Mas, graças ao filme, passei a noite toda falando sobre corridas de Fórmula 1 com a minha amiga. E, pela primeira vez, ela tava interessada de verdade. Com certeza eu não vou rever F1 tão cedo, mas mesmo assim, fico feliz de ter visto. E mais feliz ainda porque minha roommate topou ir no cinema comigo pra conferir o filme.





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