Blade Runner e os cinco estágios do luto

Críticas Gerais

Era sábado e eu estava em frente a um letreiro que anunciava Blade Runner: O Corte do Diretor. A fila em frente ao cinema se alongava até a metade do quarteirão. Todos, inclusive eu, olhavam nervosamente para a bilheteria, ansiosos para ver se conseguiriam um lugar — claro que eu podia estar delirando, pois não havia comprado meu ingresso com antecedência, e claramente subestimei a população de cinéfilos da cidade.

Estava muito animada para finalmente ver Blade Runner: O Caçador de Androides. Apesar da minha reputação de hater oficial do Ridley Scott, queria lhe dar mais uma chance. Esperava que seu clássico de 1982 fosse uma exceção à minha "regra". Ao longo da vida, Blade Runner foi um daqueles filmes que evitei simplesmente porque muitas pessoas me disseram que eu… tinha que assistir. Que era incrível, e que mudaria minha vida.

 

Nunca gostei de receber ordens, mas não consegui evitar a influência do filme. Ele criou um mundo que definiu o gênero e remodelou para sempre o cenário da ficção científica. Os cinéfilos citam Roy Batty e discutem incansavelmente o significado do unicórnio de origami. Embora nunca tenha visto o filme, sua mitologia e sua posição lendária estavam bem estabelecidas em minha mente. Eu já tinha ouvido falar dos incríveis visuais cyberpunk neo-noir e da alucinante análise do que significa ser humano, então, quando vi que haveria uma exibição no cinema perto de casa, não pude deixar passar. Chegou a hora. Finalmente, eu… tinha que assistir ao filme.

Minha expectativa aumentava quanto mais chegava à frente da fila. Apesar de alguns fura-filas que xinguei mentalmente, finalmente consegui meu ingresso, peguei minha pipoca e me sentei. E foi na hora certa. Ao me sentar, um silêncio literalmente tomou conta da multidão. Eu estava sorrindo como uma criança. Finalmente iria experienciar Blade Runner do jeito certo: num cinema lotado, concentrando toda a minha atenção na história. As duas horas seguintes foram uma das montanhas-russas emocionais mais loucas que já vivi, mas não do tipo que o cineasta pretendia.

Negação

Começou muito bem. Visuais arrebatadores, a trilha maravilhosa de Vangelis, um mundo dilacerado pelo consumismo, a superpopulação e a destruição ecológica. Uma Los Angeles distópica e sombria, habitada pelos remanescentes da humanidade. Já me encostei no assento, pronta para ser levada pela correnteza emotiva da história. Mas, apenas um minuto depois, as rachaduras começaram a surgir.

 

A partir do momento em que Harrison Ford apareceu, algo parecia estranho, e não apenas com ele. Muito já foi escrito sobre Rick Deckard e como seu modo de falar seco e suas interações formais com os cidadãos de Los Angeles em 2019 são, na verdade, uma escolha calculada, projetada para borrar os limites entre humano e Replicante. Mas todos no filme se comportam da mesma maneira, Replicante ou não. Cada fala é monótona, cada olhar, indiferente. Há algo seco e há algo... Saariano. Neste mundo, é quase impossível diferenciar humanos de geneticamente modificados. Para mim, isso significa que as máquinas devem se comportar como humanos, e não o contrário.

Incapaz de me conectar com Deckard, ou com qualquer outro personagem, flutuei, sem rumo, pelo início do filme. No fundo da minha mente, insinuando-se como uma doença, estava o sentimento que é o pior pesadelo de todo cinéfilo: o tédio. À medida que as cenas de abertura passavam, fiquei esperando por um momento, apenas um momento, no qual eu me conectaria com Deckard. Ou com Leon. Até com Bryant. Qualquer personagem.

 

Tentei superar meu conflito. Eu estava vendo Blade Runner. Todos concordam que é uma obra-prima. Tinha que haver algum motivo para esse estranho distanciamento da minha parte. Deckard passa o filme inteiro ansiando por conexão, perdido no tédio infinito da existência. Eu precisava ser paciente. Tudo seria revelado com o tempo. Esperei pela reviravolta narrativa que revelaria o verdadeiro personagem que se escondia sob o exterior frio de Harrison Ford, mas isso nunca aconteceu.

Raiva

À medida que sua busca pelos quatro Replicantes fugitivos se intensificava, minha confusão também aumentava. A visita a Tyrell, ao proverbial Criador, tinha que fornecer algumas respostas. Só que essas respostas nunca foram dadas. Rachael, então, tinha que ser a chave de tudo. Uma Replicante que se considera humana, a mulher que força o público a perguntar: "Onde está a linha entre o objeto e o ser?". Mas, quando finalmente a conhecemos, pensei que devia ter entendido errado. Claro que ela é uma Replicante, por que mais falaria daquele jeito, reagiria daquele jeito, seria… tratada daquele jeito. Depois do teste de Voight-Kampff e da grande "revelação", fiquei tão frustrada que me esqueci de me deixar levar pelas questões da consciência, da memória e da autonomia. Como me lembraria? Parecia que estava assistindo a recortes de papelão representando a humanidade. Monólogos vazios e sem emoção obstruíam o tempo de execução, e revelações que mudavam o mundo eram recebidas com apenas um dar de ombros. Não precisava de muito drama, só ansiava por alguma indicação de que o que estava assistindo importava para os personagens. Em vez disso, as discussões sobre o significado da consciência eram conduzidas com uma indiferença implacável. Percebi que minha mente divagava, tentando me lembrar se havia deixado o fogão ligado.

Barganha

Eu tinha que estar deixando alguma coisa passar, Blade Runner não podia ser só isso. Introdução à filosofia com um casaco neon? Não. Roy Batty é, sim, ótimo; perturbador de verdade. Talvez a resposta fosse J.F. Sebastian, o engenheiro genético que se tornou mestre de todas as suas criações distorcidas. Mas toda vez que o filme me dava esperança, ele a roubava com a mesma rapidez. Voltando a Deckard e ao seu confronto estranhamente morno com Rachael, em que ele aparentemente destrói a realidade dela e começa a questionar sua própria — eu não comprei isso. Tudo estava errado. Não havia uma gota genuína de sentimento. A "história de amor" no centro de tudo não é apenas abusiva, é superficial. Deckard a trata com todo o carinho e cuidado de uma criança brincando com uma boneca de pano. Se era para eu torcer por esse romance, algo estava muito errado.

Deckard não enxerga a humanidade de Rachael, não enxerga os erros que ele comete. Ele vê um objeto que pode forçar a se tornar o receptáculo e a cura para tudo o que odeia em sua própria vida. Não me importa particularmente se ele é um Replicante, o núcleo emocional do filme é ruim, independente de ter capacidade de sentir empatia ou não. Mas quando nem mesmo o diretor e o ator conseguem concordar se o personagem é humano, literalmente décadas depois do lançamento, é surpreendente que as metáforas sejam confusas?

 

Depressão

Bom, agora tinha que ver até o fim, eu acho. Enquanto Deckard eliminava Leon e Zhora, o filme fazia de tudo para me dizer que ele estava começando a questionar a que havia dedicado sua vida. Tá bom. Tanto faz. Você pode me mostrar quantas cenas dele triste, se afogando em coquetéis, quiser, isso não significa que eu tenha que engolir. Mesmo quando Deckard ataca Rachael e força um "eu te amo" da boca dela, eu mal conseguia expressar desgosto. A essa altura, a moral questionável de Blade Runner estava tão suja que eu nem tinha certeza do que deveria torcer para que acontecesse.

Para mim, parece que Deckard não tem desenvolvimento nenhum. No começo, ele está aposentado, abatido, acabado, cínico. E continua desse mesmo jeito no final, só que com alguns dedos quebrados e uma garota que traumatizou tanto que ela sente que precisa ficar com ele. Honestamente, parece mais uma história de terror. Se toda a equipe criativa não tivesse se recusado a dar a Rachael um pingo de caracterização, eu diria que era inteligente. Mas não. Ela simplesmente tropeça de cena em cena, aparecendo quando é conveniente para a história e desaparecendo completamente quando não é.

 

Aceitação

No terceiro ato, estava completamente desiludida, resignada a esperar o filme terminar. O grande Blade Runner estava sendo exibido na minha frente e eu ficava olhando para o meu relógio. Não sabia dizer se estava mais decepcionada com o filme ou comigo mesma.

 

Devo dizer que, depois que parei de tentar gostar, gostei muito mais da experiência. A mudança no ato final para um filme de terror foi boa para o ritmo e apresentou o único personagem com o qual finalmente consegui me importar. Não eu vou dizer que Blade Runner não tem qualidades redentoras porque Rutger Hauer está no topo da lista.

 

Seus confrontos finais com Tyrell e Deckard são extremamente perturbadores, e ele é o único a apresentar uma atuação que não parece ter sido forçada sob a mira de uma arma. Seu monólogo no final é genuinamente icônico e consegue resumir tudo o que o filme tentou (e falhou) dizer na última hora e meia. E, então, ele morreu, levando consigo os últimos vestígios de esperança que eu tinha de realmente me divertir.

Deckard volta para casa e encontra Rachael esperando por ele. Eles fogem da cidade para um destino ainda desconhecido. Lá está o unicórnio de origami. Será que Gaff viu o sonho de Deckard? Ele é humano ou máquina? Eu realmente não me importo, porque nunca me importei com… ele. No final do filme, todos na sala começaram a aplaudir. Tudo o que eu conseguia fazer era revirar os olhos. Para um filme sobre o significado da humanidade, Blade Runner não tinha muito o que falar.

 

Esta foi uma das experiências cinematográficas mais decepcionantes que já tive. Eu queria amar este filme. Tanto que, na metade, ainda tentava me convencer de que havia algum detalhe genial escondido que eu simplesmente não conseguia ver. Mas ele é vítima de muitos dos mesmos problemas que atormentaram outros trabalhos de Scott. Estilo e escala superam os personagens em todos os momentos, e o filme está muito preso em seu próprio brilhantismo para fornecer um arco para o protagonista. Talvez eu tenha colocado muita pressão no filme. Eu esperava algo transformador e, em vez disso, recebi algo entorpecente. Quando um tópico é tão discutido no nível de Blade Runner, é difícil formar sua própria opinião. É inquestionavelmente influente, inspirou inúmeras histórias, obras de arte, livros e dissertações de mestrado. Não estou aqui para dizer que devemos excluir o filme da história. Mas, apesar de toda a aclamação, eu esperava mais.

Eu tentando me agarrar às minhas expectativas.

Quando me sento para assistir a um filme, quero que ele me transporte para uma realidade diferente. Quero que me faça pensar. Mas, acima de tudo, quero que me faça sentir. E, com Blade Runner, não consegui nada disso. Sinceramente, assistir ao filme parecia mais fazer um exercício acadêmico do que admirar uma obra de arte. Posso ler sobre o significado por trás de Blade Runner a qualquer momento, mas escolhi assistir porque pensei que me ofereceria uma maneira de me conectar com a questão central da história: "O que torna alguém humano?". Certamente, o filme dedicou tempo suficiente para me explicar. Só queria que tivesse, também, me mostrado.

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