O que aprendi com a série Chespirito: Da genialidade de Bolaños aos bastidores turbulentos de Chaves

Curiosidades

Se algum brasileiro me disser que não conhece Chaves e Chapolin Colorado, eu vou suspeitar na hora de que se trata de um ser de outro planeta. Ou um viajante do tempo, de uma época prévia aos anos 1970. Lembro de estar em uma viagem para a imprensa, já há alguns anos, com jornalistas de toda a América Latina, quando puxei o tema Chaves na roda. Um colega mexicano me disse: “Acho que isso e RBD são mais populares e queridos no Brasil do que no México”. É bizarra a devoção brasileira aos programas criados por Roberto Gómez Bolaños, ao mesmo tempo em que a popularidade faz total sentido. Trata-se da história de um menino humilde, órfão, inocente e de ótimo coração, rodeado por coadjuvantes tão cativantes que estão mais para protagonistas, com situações cotidianas e dilemas sociais. Vem cá: existe alguma obra televisiva mais latina do que Chaves?

 

Chespirito: Sem Querer Querendo foi lançado na Max (que voltará a ser HBO Max, risos) em 5 de junho e, desde então, tem sido a minha série favorita de acompanhar semanalmente às quintas-feiras. Serão oito episódios no total em uma produção da Warner Bros. Discovery em colaboração com a THR3 Media e a Perro Azul, que contarão a história do criador do amado universo desde a infância até a consolidação como ícone cultural. O que mais me chamou a atenção até aqui foi o excelente trabalho de reconstituição de época dos anos 50, 60 e 70 do México e a surpreendente semelhança entre alguns atores e a caracterização deles com os personagens retratados: chega a assustar a semelhança física e os trejeitos de Pablo Cruz como Bolaños. Na metade da série, já deu para ver e aprender coisas dos bastidores que eu não fazia ideia. Há também participação especial de rostos conhecidos, como Edgar Vivar (Senhor Barriga/Nhonho), Roberto Gómez Fernández (filho de Chespirito) e Esteban Valdés, filho de Ramón Valdés (o Seu Madruga). 

 

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Como bom fofoqueiro (digo, jornalista), que trabalha com apuração e adora saber bastidores de um fenômeno, decidi compartilhar com vocês alguns desses aprendizados com a série Chespirito e outras pesquisas que fiz em paralelo. Já peço desculpas se a notícia for velha e se alguém já suspeitava desde o princípio, mas… sigam-me os bons! 

 

A origem do nome Chespirito 

Roberto Gómez Bolaños adotou o nome artístico Chespirito. Disso, eu já sabia. E sempre achei curioso como tudo começa com “CH”: Chapolin. Chaves. Chapatin. Chespirito. Muito bom. Mas, a série mostrou a origem do nome, e essa eu aposto que muitos já sabiam, mas caso você não soubesse, como eu, aí vai: Um diretor que trabalhou com Roberto adorava a escrita dele, e decidiu compará-lo com William Shakespeare. Daí, começou a chamá-lo de "Shakespearito", no diminutivo em espanhol. Bem bolada, vai?

Fala a verdade: Pablo Cruz Guerrero tá IGUAL ao Chavinho! 

Chaves é muito velho. Mais do que eu pensava

Eu espero não estar sozinho nessa, mas eu demorei para perceber que os personagens de Chaves não eram crianças, e sim adultos interpretando crianças. Eu juro que eu era muito pequeno e que possivelmente tenha sentido algo de errado que não estivesse certo, mas como é que eu ia saber? Agora, estou vacinado dessa enganação: quando vi Euphoria pela primeira vez, eu sabia que não eram adolescentes de verdade e sim adultos no papel de adolescentes do colegial! (contém ironia).

 

Tá, mas o que realmente me chocou foi o quão velho é o produto Chaves. Sabia que a imagem era antiga, que aquelas risadas de fundo traziam ares passados, mas NUNCA que eu diria que Chaves havia estreado em 1973. Sei lá, estamos falando da década que teve Laranja Mecânica e O Poderoso Chefão no cinema, sabe? 

 

Chapolin Colorado veio antes de Chaves

Bom, em minha defesa, eu nunca tinha parado para pensar na questão “ovo x galinha”, só que com Chapolin e Chaves. Quem veio primeiro? O super-herói medroso das anteninhas e do martelo (eu tinha um desses de brinquedo quando criança e achava o máximo). Em Chespirito, a gente vê no terceiro episódio que o Chapolin (em espanhol, Chapulín Colorado) surgiu como o último recurso em meio à pressão do criador de ser demitido da emissora. Ou ele tirava uma ideia genial da cartola ou dançava. Em conversa com a então esposa Graciela e após horas na frente da máquina de escrever, ele teve a ideia de fazer um herói mais mundano. O nome seria Chapolin Justiceiro, e a cor seria verde e amarelo, bem Brasil. Mas, depois de problemas técnicos e de uma sugestão da filha, o “Colorado” veio para ficar. 

 

Ah, vale dizer que a recriação do primeiro episódio de Chapolin Colorado é impecável. Fiz questão de assistir o original lado a lado com a série da Max. Idêntico! 

 

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O episódio de Acapulco era uma publi!

Toda a série Chespirito se alterna entre diferentes tempos: infância de Bolaños, primeiros anos na TV e as filmagens do cultuado episódio de Acapulco, que seria o tempo mais presente na linha cronológica. Originalmente exibido em 1978, a trilogia de capítulos tirou os personagens da vizinhança e os levou ao Guarujá (para quem quiser morrer acreditando na dublagem brasileira). 

 

Mas não contavam com a astúcia dos executivos da Televisa: o real objetivo das férias de verão da Turma do Chaves era promover um hotel que Emilio Azcárraga Milmo, proprietário do canal, tinha acabado de adquirir. Isso é mostrado logo no primeiro episódio de Chespirito. De repente, imaginei o Chavinho fazendo uma publi de hotel nos stories do Instagram…

Um primor de caracterização. 

Traições e inimizades

Dois dos principais personagens tiveram o nome alterado na série, porque os retratados, ainda vivos, não liberaram o uso de imagem. Estou falando de Carlos Villagrán (o Quico), que virou Marcos Barragán, e Florinda Meza, adaptada para Margarita Ruiz. Nas redes sociais, Florinda afirmou que a biografia da Max não respeitava nem ela nem a verdade: “Isso causaria grande dor ao Roberto”, disse. 

 

Já a treta entre Carlos e Bolaños é de longa data. Villagrán deixou a série Chaves em 1979 para seguir carreira solo, o que é mostrado na série da Max. Ele queria usar o Quico para uma nova série da Televisa, mas se recusou a incluir o nome de Bolaños como criador do personagem. Isso gerou processos e inimizades. Villagrán afirmou, em entrevistas, que ele não podia trabalhar em seu próprio país. 

 

No entanto, uma entrevista feita para um canal televisivo chileno em 1977 voltou à tona. Nele, Carlos é questionado se o Quico é dele, e diz: "Tudo graças ao Chespirito. Ele é o gênio. Ele escreve o programa, dirige e é dono de todos os personagens". Bolaños morreu em 2014. Villagrán e ele nunca fizeram as pazes. 

 

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Em entrevista recente, Villagrán desejou todo o sucesso aos envolvidos na série, mas fez questão de se mostrar contra o projeto: "Muitas mentiras serão contadas. Meu trabalho está aí, não me prejudica. Sei quem sou". Segundo ele, ninguém o chamou para fazer parte de Chespirito. Apesar da controvérsia, Villagrán, hoje com 81 anos, não pretende entrar na justiça, porque "prefere ser feliz".

 

Quem vê a Turma do Chaves pode supor que eram todos muito amigos, próximos, colaboradores, quase como uma família. A gente esquece que até as famílias brigam, se separam e voltam a se falar depois de anos. Bolaños e Florinda, por exemplo, começaram a se relacionar enquanto o pai do Chaves ainda era casado com a ex-esposa. Para quem gosta de bastidores, Chespirito é um prato cheio de sanduíche de presunto. 

 

Bônus: Quando Chaves estreou no Brasil?

Demorou mais de 10 anos para que Chaves chegasse ao Brasil. Era 24 de agosto de 1984 quando As Aventuras de Chaves foi exibido no game show TV Powww!, do SBT. O primeiro episódio foi O Matador de Lagartixas. Segundo o livro Diário do Chaves, publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim, a Chiquinha (em espanhol, Chilindrina) foi inicialmente adaptada para Francisquinha na primeira dublagem, enquanto o Don Ramón ficou como Seu Ramón. A ideia de nomeá-lo como “Seu Madruga” teria sido de Marcelo Gastaldi, voz do Chaves e diretor de dublagem. 

 

Nunca fui um fã fervoroso de Chaves, confesso. Achava bobo, não me fazia rir. Mas tinha algo de confortável em deixar o programa passando na TV. Era quase um atestado de ser brasileiro, e de chegar em casa após um dia cansativo no colégio. Chespirito: Sem Querer Querendo me fez olhar com outros olhos para uma criação tão amada por tantos, e para a genialidade de um homem que apostou no simples para chegar a mais pessoas do que qualquer outro. Tinha que ser o Chaves! 

Comentários 2

B
Bia Matera10 de dezembro de 2025
A chegada do seriado no Brasil tem uma história bem curiosa e conhecida: na época, o Silvio tinha comprado várias novela da Televisa e no meio vieram as fitas do Chaves e ele só mandou dublar (tem várias histórias assim ou parecidas que envolvem o canal do baú). Nessa, o estúdio de dublagem teve praticamente liberdade total para brincar com o que quisesse. O episódio de Acapulco, que chama de Guarujá, é em referência a uma praia que tem lá. Inclusive, na dublagem, eles chegam a falar Acapulco uma ou duas vezes.</br></br>Teve também uma treta de muitos anos com a Maria Antonieta da las Nieves. Lembro dela no programa da Sônia Abrão, na época no SBT, vestida como a Chiquinha e falando que a briga era entre a mãe dela e o pai do Chaves.
D
Denise Malcher30 de junho de 2025
Muito bom relembra a infância!</br>Amei!

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