Pee-wee Herman: O que acontece quando o personagem fica maior do que o artista?
RecomendaçõesNão sei ao certo quando tive o primeiro contato com Pee-wee Herman, mas eu lembro da sensação de ver aquele personagem engomadinho de terno cinza e gravata borboleta vermelha pela primeira vez. Era uma voz engraçada, uma energia meio caótica e um visual que lembrava um ventríloquo. Convenhamos: era esquisito. Coincidentemente ou não, eu me considerava (e era considerado pelos outros) um esquisito.
Eu devia ter uns 10 anos quando vi As Grandes Aventuras de Pee-wee no que chuto dizer que foi na programação do Cartoon Network ou da Warner Channel. Na trama, uma criança no corpo de adulto tem a bicicleta roubada e faz de tudo para recuperá-la. Simples assim. Era hipnotizante e me remetia a algo antigo, de uma época que eu não sabia identificar bem naquela idade. Mesmo assim, era inexplicavelmente sedutor. Anos depois, descobri que o filme foi dirigido por um jovem e promissor Tim Burton. Claro que foi!
Outro dia, zapeando pela HBO Max, vi a cara de Pee-wee e aquilo imediatamente me trouxe aquele sentimento da infância. Queria reencontrar esse meu velho amigo, mas… ele só chegaria “em breve”. Por algum motivo, não pesquisei quando seria lançado ou fui atrás de um trailer e sinopse. Semanas se passaram e tive o ímpeto de pesquisar por “Pee-wee” na busca. Será que já teria sido lançado no streaming? Sim! Lá estava, “Pee-wee Herman: Por Trás do Personagem”, um documentário dividido em duas partes de 1h30 cada. Oba! Prato cheio. Não pensei duas vezes e dei play com a minha noiva. (Sei que foi na sexta-feira, 30 de maio, graças ao meu log no Letterboxd).
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“Olá, eu sou Paul Reubens”, diz o próprio, nos primeiros segundos. Logo de cara, foi um lembrete de quem é o homem por trás de Pee-wee. É interessante também que uma das primeiras falas de Paul no doc seja “não quero que seja um documentário de legado”, seguido de um lembrete de um detalhe bem importante que eu mesmo tinha esquecido: “Paul Reubens faleceu no dia 30 de julho de 2023. Ele lutava contra o câncer havia seis anos sem que os cineastas soubessem. Antes de sua morte, Paul foi entrevistado por 40 horas.” Essa informação logo de início foi um tapa mórbido na minha cara e deixou as três horas que se seguiriam ainda mais interessantes. Recordo de ter lido a notícia da morte de Paul quando aconteceu, mas sabe-se lá porque, deletei da mente. Ou seja, foi como saber da partida do ator pela primeira vez.
O documentário “Pee-wee Herman: Por Trás do Personagem” é dirigido por Matt Wolf, entrevistador que percorre toda a vida de Paul, da infância aos primeiros trabalhos no teatro e o surgimento e popularização de Pee-wee Herman. Eu não fazia ideia do tamanho de Pee Wee na cultura popular dos Estados Unidos nos anos 80, uma fama similar a dos Beatles, sem exageros. E nunca tinha parado para pensar no quanto dele havia no universo de Castelo Rá-Tim-Bum. Pesquisei para ver se havia algum relato da influência de Pee-wee na série brasileira, mas o único que achei é que Carlos Moreno de fato se inspirou no cinema mudo e na criação de Paul Reubens para interpretar Euclides, aquele que falava com a cobra Silvia.

Combinado à fala de Reubens, sempre olhando diretamente para a câmera e para o espectador, temos um impressionante acervo de material, uma mescla entre arquivos pessoais do personagem retratado e materiais audiovisuais da época. A primeira parte se propõe a explicar o nascimento de um ícone, o auge e a fama, enquanto a segunda traz uma espécie de queda junto às polêmicas que pairaram sobre o ator, preso em 1991 por conduta indecente em um cinema, e acusado de posse de material pornográfico infantil. Como é que um astro de um programa justamente infantil se recupera disso? Spoiler: não sei se é possível. É um trauma que deixa marcas, e uma reputação difícil de ser reconquistada.
O mais fascinante do documentário é o quão sincera é a narrativa contada por Reubens e o diretor Wolf. Paul, o homem por trás de Pee-wee, é controlador (ele discorda de tomadas de decisões criativas do diretor), gênio, extremamente inteligente e por vezes narcisista ou dono de um ego enorme, como ele próprio assume. Apesar dos rumores, Reubens nunca se preocupou muito em falar sobre a sua sexualidade para a imprensa. Esta docussérie é a primeira vez que ele fala abertamente sobre a sua homossexualidade e seus relacionamentos amorosos passados. Mas, esse não é exatamente o foco. O que mais chama a atenção é ele ter passado grande parte da carreira sendo Pee-wee, e não Paul Reubens, meio pelo qual optou para proteger a vida pessoal e se camuflar de uma sociedade preconceituosa.
Era Pee-wee quem ia aos programas de entrevista, os famosos talk shows, como o de David Letterman. Imagina só performar para além do set de filmagem ou dos palcos? Penso no quanto isso não afeta a cabeça de uma pessoa, não sair do personagem e não ser reconhecido por ser o criador, mas por ser a criatura – que, aliás, foi criada por você mesmo! É um jogo muito perigoso projetar uma imagem fictícia, pois quando acontece um incidente como a prisão, as coisas podem ficar muito confusas para o público, que adora julgar e apontar dedos. Se os tablóides não forçaram que Paul assumisse ser gay, certamente foram o empurrão para que ele assumisse ser Paul Reubens, e não meramente Pee-wee Herman. O ator passou a dar entrevistas como ele mesmo, sem voz, sem figurino, sem a máscara criada e perpetuada por ele que o escondia do seu lado humano, passível de erros.
“É idiota dizer isto, mas a morte é tão definitiva, que conseguir passar a sua mensagem no último minuto ou em algum momento… é incrível”, reflete Reubens, no começo do documentário. Parecia premonitório, porque estas acabaram por ser suas últimas palavras que, porventura, foram documentadas.
No fim das contas, assistir a esse documentário foi como abrir uma cápsula do tempo emocional. Reencontrei não só um personagem que preencheu a infância de muitos (e que só deu um singelo oi para a minha), mas também revisitei um pedaço meu que eu não sabia que estava guardado.

Pee-wee era estranho, barulhento, exageradamente performático; Paul Reubens carregava uma sensibilidade enorme, uma mente afiada e uma necessidade de ser amado (ou aceito). Todo esse combo fez dele um rosto inesquecível. Reubens criou algo que ficou maior do que ele, e talvez aí esteja a maior beleza e também a maior tragédia da sua carreira. Ele foi Pee-wee dentro e fora da tela. Foi amado, ridicularizado, cancelado e redescoberto. Foi um “homem por trás da máscara” que passou a vida se escondendo e, aos poucos, se revelando. O triste é ter saído do controle dele, sendo forçado a se mostrar.
Por outro lado, o bonito desse documentário é mostrar que Pee-wee sobreviveu ao teste do tempo e às polêmicas. Toda uma geração de esquisitos se sentiu representada pelo excêntrico. Pee-wee é o tipo de personagem que parece saído de um sonho desconexo, mas que, ainda assim, quando a gente o reencontra, tudo se encaixa. É como se ele dissesse que está tudo bem em ser diferente, em não caber. Ou em ser muito. Se Paul Reubens não queria um documentário de legado, azar o dele. Porque ele deixou um, e ele é colorido, complexo, belo, estranho e sincero. Como ele. Digo, como eles.






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