Made in Coreia: o fascínio por K-dramas e quais você precisa assistir
RecomendaçõesNão é segredo que a Coreia do Sul conquistou seu espaço na indústria do entretenimento mundial. As novas gerações de grupos K-pop dominaram os charts, o filme Parasita conquistou quatro estatuetas no Oscar de 2020 e os doramas invadiram os catálogos dos streamings. Essa febre atingiu, principalmente, o público feminino desde as adolescentes às mulheres mais maduras, mas há espaço para todo mundo na infinidade de temas explorados nessas produções.
O que você pensa quando a palavra “dorama” lhe vem à cabeça? Cenas de beijo em slow motion em três ângulos diferentes? Atores com pele de bebê? Casais que demoram a se desenvolver? Os doramas, ou séries dramáticas do Extremo Oriente, são popularmente associados à Coreia do Sul, mas existe uma nomenclatura específica para cada país. Além dos K-dramas produzidos na Coreia — que são o foco deste artigo —, há os C-dramas da China, os TW-dramas de Taiwan e as produções oriundas do Japão, Tailândia ou Filipinas. Cada um deles exibe particularidades da própria cultura e, também, é influenciado por elementos do Ocidente. O que torna essas produções tão especiais? Quais foram as pioneiras em furar a bolha ocidental? E se ainda não conhece K-dramas, por onde começar?
It Factor
Não são apenas seus rostinhos bonitos que conquistam os corações dos fãs. Nomes como Ji Chang-wook (Healer), Bae Suzy (Uncontrollably Fond) e IU (Hotel del Luna) arrastam multidões por serem talentosos e versáteis, e alguns deles conseguiram até participações em produções estrangeiras — como é o caso de Park Seo-joon, que conquistou uma legião de fãs em K-dramas como What’s Wrong With Secretary Kim? (2018) e Itaewon Class (2020) antes de estampar os pôsteres de As Marvels (2023), no qual interpretou o príncipe Yan — sendo o terceiro ator coreano a participar do Universo Cinematográfico da Marvel, um reflexo claro desta popularização a nível global.

Porém, o talento precisa estar alinhado aos roteiros bem produzidos com narrativas criativas para entregar produções de qualidade — criatividade é justamente o que não falta nas terras coreanas! Particularmente, lembro da sensação de estagnação da fórmula apresentada pelas produções americanas antes de me aventurar pela dramaland. De fato, as produções que chegam aos canais ou streamings brasileiros são, em maior parte, vindas de Hollywood e há um limite de vezes que alguém pode assistir a um grupo de adolescentes de uma cidade pequena americana enfrentar aventuras absurdas — ou ao super-heroi do momento viver uma vida dupla.
Ao explorar os K-dramas, a audiência encontra uma língua nova, cultura, estética e laços fortes com história e tradição, que se misturam para contar histórias com identidades singulares. Isso não é para dizer que essas séries não caem em seus próprios clichês, como o anual K-drama sobre um belo, rico e mal-humorado CEO que se apaixona pela mocinha — uma fórmula popularizada pela anteriormente citada What’s Wrong With Secretary Kim? e que rendeu outros frutos do subgênero, como Her Private Life (2019), Pretendente Surpresa (2022) e Sorriso Real (2023). Sendo uma romântica incurável, permaneço em busca de um CEO, tal como o protagonista Kang Tae-moo de Pretendente Surpresa, que dirá a mim a icônica frase: “sabe o que o meu amor por você e esse cartão de crédito têm em comum? Os dois não têm limites.”

Outro subgênero tão querido pelo público inclui as histórias de Ensino Médio entre a garota invisível e o garoto popular. Aqui, Boys Over Flowers (2009) e Heirs (2013) pavimentaram o caminho e, ironicamente, não poderiam mais ser produzidas nesta década, afinal os atores se tornaram grandes nomes na Coreia e os cachês seriam simplesmente inviáveis — quem viveu, viveu.
Uma menção honrosa fica para as narrativas de época, especialmente àquelas que exploram vidas passadas e almas gêmeas, uma temática em alta há três anos. É provável que você tenha ouvido falar do fenômeno Alquimia das Almas (2022), que conta a história de uma feiticeira cuja alma fica presa no corpo de outra mulher, entrelaçando seu destino com o de um jovem herdeiro, e resultando numa paixão que atravessa o tempo e espaço. Coincidentemente, o ator Lee Jae-wook, protagonista desta produção, acaba de retornar às telas com outro K-drama do gênero, intitulado Querido Hongrang, uma produção da Netflix que tem chamado atenção pela similaridade entre os seus dois personagens — dessa polêmica não comentarei, por ainda não ter dado play na produção.
Por mais que apostem nesses clichês, essas séries ainda se mostram tão diferentes do convencional. Seja pela cultura de amor pela comida — já notou que a maior parte das cenas gira em torno de refeições deliciosas? — ou pela possibilidade de explorar paisagens de tirar o fôlego do outro lado do mundo, há algo simplesmente encantador sobre os K-dramas. Talvez, a magia esteja em seus grandes vilões, tal como a inesquecível Choi Yoo-jin do dorama The K2 (2016) ou, literalmente, esteja escondida no misticismo do leste asiático, explorado em histórias sobre as raposas de 9 caudas ou o xamanismo coreano — você encontra ambos em The Tale of the Nine Tailed (2020) e My Roommate is a Gumiho (2021), alguns dos meus favoritos.

Finalmente, pode até não ser um it factor, mas o formato tradicional de apenas uma temporada, variando entre 12 e 16 episódios, poucos chegando à casa dos 20, certamente não é ruim. Afinal, quem quer se apaixonar por uma história apenas para vê-la ser cancelada? Começo, meio e fim — as séries coreanas não costumam deixar pontas soltas.
Furando a bolha
Certamente, àqueles que não se aventuraram pela dramaland costumam ter como referência Round 6 (2021), o thriller que ocupa o lugar de produção original mais assistida da história da Netflix. A ideia de um jogo mortal com um prêmio milionário, explorando a vulnerabilidade e ganância humana, fez tanto sucesso que garantiu suas 2ª e 3ª temporadas, além de um reality que literalmente transformou a ficção em realidade.

Entretanto, a popularização das séries coreanas aconteceu em ondas, e há algumas produções notáveis que contribuíram para isso. Em 2016, um trio alcançou esse patamar: o romance Cinderella and Four Knights, o dramático Goblin — um dos maiores sucessos de audiência da história da TV a cabo coreana — e o romance militar Descendants of the Sun, associado ao aumento de turismo no país e que se tornou a maior audiência da TV aberta daquele ano, tendo um pico de 38,8%.
Outra onda surgiu com o inesquecível romance de Yoon Se-Ri e Ri Jeong-Hyeok, os protagonistas de Pousando no Amor (2019). A ideia de uma paixão proibida entre uma mulher de negócios da Coreia do Sul e um oficial do alto escalão da Coreia do Norte gerou polêmica e, também, motivo para acelerar muitos corações. A química inegável entre os atores por trás desses personagens tão queridos, Son Ye-jin e Hyun Bin, rendeu tanto que eles se casaram na vida real, em 2022, e são considerados um dos casais mais amados pelo público até hoje!
Pousando no Amor se popularizou por aqui graças à Netflix, que foi o primeiro streaming ocidental a apostar em peso nessas histórias. Desde a pandemia, o catálogo dela se expandiu e alguns outros notáveis títulos incluem: Vicenzo (2021), Happiness (2021), Uma Advogada Extraordinária (2022), A Lição (2022) e Meu Demônio Favorito (2023). Explorando temas como autismo, sobrenatural e bullying, cada um, de sua própria forma, conquistou o público além das fronteiras da Coreia.
Fiquei curioso. Por onde começo?
Se chegou aqui e está perdido em meio a tantos títulos, aqui vai uma lista com cinco produções que você precisa conhecer — desde séries populares a preciosidades escondidas nos catálogos — com seus títulos originais ou em português, de acordo com o mais comum na dramaland brasileira.
Descendants of the Sun (2016)
Citado anteriormente como uma das produções que furaram a bolha, Descendants of the Sun não poderia faltar nessa lista, pois é o K-drama que me tornou dorameira. Apesar de um episódio piloto morno, a química entre os protagonistas, o capitão Yoo Si-jin e a cirurgiã Kang Mo-yeon, vale o esforço de passar pela primeira hora. Esses personagens foram interpretados por Song Joong-ki e Song Hye-kyo, que se tornaram alguns dos maiores atores do país e, também, ficaram conhecidos como "casal Song-Song", quando o romance se tornou real — infelizmente, eles passaram por um divórcio bem público, mas isso é uma outra história.
Voltando à ficção, este romance militar começa em Seul, onde os dois se conhecem e, é claro, se apaixonam, mas são separados por uma missão de paz em um país fictício do Oriente Médio, chamado Uruk, no qual Yoo é o líder da unidade de forças especiais — ironicamente, esse foi o primeiro trabalho do ator após ser dispensado do serviço militar. Graças ao destino [e aos roteiristas], oito meses depois, o reencontro acontece quando a cirurgiã é enviada para montar um hospital de campanha em Uruk. Entre um terremoto, o surto de uma doença altamente letal e conflitos armados, eles lutam para ficar juntos, descobrindo semelhanças apesar de suas naturezas tão opostas: ele mata para proteger, enquanto ela luta para salvar vidas, independente de quem seja. Entre várias lições de vida, a mensagem que fica é que o verdadeiro amor supera tudo, até as diferenças.
Flower of Evil (2020)
Este thriller psicológico é uma joia escondida no catálogo da Netflix, provando ser uma excelente pedida para os fãs de dramas policiais e romances sofridos. Consagrado como o meu K-drama favorito, essa obra possui uma característica singular: o protagonista imprevisível que ninguém sabe se é herói, vilão ou nenhum dos dois. A história acompanha Baek Hee-sung (Lee Joon-gi), um artesão de uma família rica que esconde seu passado sangrento. Casado com uma detetive (Moon Chae-won), ele é apresentado como um sociopata — incapaz de sentir ou decifrar emoções — que esconde sua natureza atrás de uma máscara de marido e pai perfeito. Quando uma série de assassinatos em Seul possuem o mesmo modus operandi de um velho conhecido, o passado literalmente bate à sua porta e ele precisa encontrar uma forma de proteger a ordem em sua família digna de comercial de margarina.
O que quer que essa breve descrição te faça imaginar sobre a trama, pode-se garantir que não é o desfecho real. A cada episódio, a audiência é confrontada com a dualidade de Baek Hee-sung, que varia entre uma pessoa fria e um homem amoroso. Ele possui diversas faces, versões de si que outros personagens conhecem e assumem como verdade absoluta. Porém, nada supera a percepção de sua esposa que, ao começar a investigar os casos, se recusa a enxergar as provas logo embaixo de seu nariz. Ela está dormindo com o inimigo? O marido é a vítima ou o monstro? Ao ser incapaz de ver sua verdadeira natureza por tantos anos, o que isso diz sobre ela como detetive e como pessoa? E se o pior cenário for verdade, até onde o protagonista é capaz de ir para se proteger?
Law School (2021)
A todo estilo de How to Get Away with Murder, esse K-drama jurídico original Netflix se passa na prestigiada Faculdade de Direito Hankuk. Após um assassinato dentro do campus, um professor e seu grupo de alunos buscam justiça enquanto enfrentam seus próprios dilemas pessoais. A produção é brilhantemente protagonizada pelo trio de atores Kim Bum, Ryu Hye-young e Kim Myung-min, mas o destaque fica para o último, intérprete do professor Yang — capaz de comandar uma cena como ninguém. Poucos atores possuem tamanha presença e, na cena final de cada episódio, é impossível não sentir anseio pela próxima revelação, que sempre tem um dedo do professor no meio.
Ao longo da temporada, a reconstrução do caso ocorre sob a perspectiva de diferentes personagens, revelando detalhes do quebra-cabeça que permanece como um grande desafio até a reta final. Por sinal, não é possível falar sobre Law School sem destacar a sua principal trama paralela: o relacionamento abusivo vivido pela personagem Jeon Ye-seul (Go Youn-jung) e sua luta contra o sistema para obter justiça. A narrativa explora camada por camada como a jovem estudante de Direito tinha sua vida controlada pelo namorado, filho de um famoso político que se considera intocável, até sua verdadeira natureza ser revelada.

Quando precisa provar na Justiça que ela é a vítima, acaba enfrentando o julgamento da sociedade, a manipulação por pessoas poderosas por trás das cenas e, também, as sequelas emocionais deixadas pelo seu agressor. Revelar qual é a conclusão dessa narrativa seria spoiler, mas o meio dessa história é, infelizmente, bem conhecido: muitos tentam transformá-la na culpada. Por mais que seja difícil de digerir, há um senso de irmandade que ressoa na audiência e a expectativa por justiça torna impossível desviar o olhar da tela.
Doom at Your Service (2021)
Consagrada em seu país de origem, essa série sobrenatural não fez muito barulho ao chegar no catálogo brasileiro da Netflix. Mostrando-se memorável até nas características técnicas, como efeitos visuais e trilha sonora, essa história emocionante introduz a personificação da Desgraça (Seo In-guk), capaz de realizar desejos de humanos em seu aniversário, a partir de uma chuva de estrelas cadentes — caso ache os desejos interessantes. Um dia, ouve o apelo desesperado de Do-Kyung (Park Bo-young), uma mulher que descobre que tem pouco tempo de vida devido ao diagnóstico de um tumor cerebral inoperável. Transtornada com a sua morte iminente, ela reavalia a própria vida e percebe que sempre viveu pelos outros. Então, deseja que a desgraça recaia sobre o mundo — só não esperava que alguém a ouvisse. Quando o protagonista bate em sua porta, propõe um trato: ela pode viver seus últimos 100 dias sem dor, desde que deseje o fim do mundo antes de morrer. Caso contrário, ela sobreviverá, mas a pessoa que mais ama será morta em seu lugar.
Se não é óbvio, Doom at Your Service merece um aviso de lágrimas e lencinhos por todos os motivos imagináveis. Do-young se dá conta do peso do seu trato com a Desgraça e não se vê capaz de cumprir o combinado. Para salvar seu irmão, ela cria um plano de se apaixonar pela Desgraça, para que morra no lugar dele. A entidade foi sempre desejada ou temida pelos mortais, então a ideia de amor não é somente absurda, mas um desafio intrigante. Talvez seja por isso que o personagem de Seo In-Guk não enxerga a própria armadilha: a possibilidade de se apaixonar pela humana. Ao longo da narrativa, os dois não somente enfrentam um contrato que não pode ser rompido, seus sentimentos e o sofrimento psicológico de Do-Kyung — escondendo seu diagnóstico de todos —, mas os literais planos de Deus (Jung Ji-so), que não está nada feliz com a rebeldia de suas criações. Essa história sobre humanidade, amor e solidão é do tipo que lhe faz pausar e reassistir a cada cena icônica, enquanto sofre com a trilha sonora que se encaixa perfeitamente com o tom melancólico da produção.
Menção honrosa: No Gain, No Love (2024)
Se as indicações acima parecerem muito dramáticas e quiser apenas dar uma boa risada, essa comédia romântica é certeira — literalmente lhe fará chorar de rir. A protagonista Son Hae-yeong (Shin Min-a) é a maior mão de vaca que já existiu. Ao perceber que perderá uma promoção muito vantajosa no trabalho, devido à política machista da empresa de não promover mulheres solteiras para trabalhar diretamente com o CEO, ela arranja um casamento falso com o caixa da sua loja de conveniência favorita (Kim Young-dae), mas não antecipa as dificuldades de manter tamanha mentira. Caos, puro caos!
_________
Se você chegou até aqui e for dorameiro, deixe uma recomendação de K-drama para quem está chegando agora. Já para os dorameiros em formação… Comente quais séries dessa lista você pretende conferir!





































Comentários 2