ALMODÓVAR E A MODA: UMA HISTÓRIA DE AMOR EM VERMELHO E COUTURE

Conhecimento Cinematográfico

Quando a El Deseo liberou as primeiras imagens de Madres Paralelas (2021), lá estava Penélope Cruz, poderosa, com uma camiseta Dior estampando "We should all be feminists", de Chimamanda Ngozi Adichie. Não era só um statement da personagem ou do próprio Almodóvar — era um recado: a moda é parte essencial do universo do diretor manchego. Desde os tempos da Movida Madrileña, ele já costurava sua estética com fios de ousadia, e em 2025, olhando pra trás, dá pra ver como essa paixão só cresceu, entrelaçando-se com nomes lendários da haute couture.
 

Nos anos 80, José María de Cossío foi o primeiro cúmplice fashion de Almodóvarළ Em A Lei do Desejo (1987), Áta-me (1989), Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) e Matador (1986), os figurinos eram puro manifesto da efervescência cultural de Madri. Em Matador, aliás, Almodóvar faz um cameo como estilista, recriando o histórico desfile de Francis Montesinos na Plaza de las Ventas de 1985 — uma ode ao drama, à tauromaquia e à moda como arte. Foi o pontapé pra um caso de amor que só escalou.

 

Com o sucesso global de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, os grandes criadores bateram à porta. Jean Paul Gaultier entrou em cena nos anos 90, trazendo seu gênio subversivo pra Kika (1994), com os looks de Andrea Caracortada, e pra Má Educação (2004), vestindo Zahara com um ar de diva torturada. Em A Pele Que Habito (2011), os macacões de Vera — quase uma segunda pele — são Gaultier puro, entre o fetichismo e a alta costura. A colaboração com o estilista francês é um marco: Almodóvar encontrou em Gaultier um eco perfeito pra sua visão de gênero, desejo e identidade.

Mas o rol de parcerias não para aí. Dior brilhou em Julieta (2016), com ternos impecáveis e brincos que gritam sofisticação. Giorgio Armani deu o tom elegante em Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e De Salto Alto (1991), onde Chanel jogou glamour na icônica personagem de Victoria Abril. Em Abraços Partidos (2009), Penélope Cruz também ganhou um toque Chanel, enquanto o casaco xadrez de Raimunda em Volver (2006), assinado por Marc Jacobs, é tão inesquecível quanto a voz de Estrella Morente cantando a faixa-título — um símbolo de resistência e beleza.

 

O vermelho, claro, é a assinatura de Almodóvar, um fio condutor que costura suas telas e seus figurinos. Em The Human Voice (2020), Tilda Swinton surge num vestido Balenciaga vermelho-sangue, uma peça que é quase um personagem, dialogando com Paris, a meca da moda, e com a intensidade emocional do curta. Já em Strange Way of Life (2023), seu faroeste queer com Ethan Hawke e Pedro Pascal, a moda ganha um twist inesperado: Anthony Vaccarello, da Yves Saint Laurent, assina os figurinos e co-produz o filme via parceria com a El Deseo. Os looks — jaquetas de couro, camisas ajustadas e tons terrosos — misturam o rústico do Velho Oeste com a sofisticação moderna da YSL, reforçando a tensão entre passado e desejo que pulsa na trama.

 

E, pra fechar em 2025, The Room Next Door — lançado em 2024 e ainda fresco na memória — traz Almodóvar de volta ao inglês, mas num primeira longa, com Tilda Swinton e Julianne Moore sob o olhar genial da figurinista alemã Bina Daigeler. Nas prateleiras das personagens, um desfile de luxo: itens de Bottega Veneta, Celine vintage e peças de The Row constroem uma aura de elegância intelectual, enquanto um suéter JW Anderson, colorido e chunky, rouba a cena em um momento de pura emoção — uma escolha que reflete a vontade de Swinton de partir com leveza, sem roupas tristes. É Almodóvar em sua essência: a moda como espelho da alma, mesmo diante do fim.

 

Almodóvar não usa moda só como adorno — ela fala, provoca, revela. Seus personagens vestem suas almas, e os estilistas que ele escolhe são coautores dessas histórias. “Prada sempre me pareceu ideal para uma freira”, ele provoca em De Salto Alto. Entre o kitsch e o couture, o manchego prova que é um gênio da sétima arte e um maestro da passarela. A moda ama Almodóvar, e ele retribui com cada frame — um desfile eterno de paixão, vermelho e drama.

MUBI lançará "Strange Way of Life", curta gay de Almodóvar com Ethan Hawke  e Pedro Pascal

Comentários 5

U
User-136766074114 de abril de 2025
Oi
C
Cinematografia Queer14 de abril de 2025
Em resposta a User-1367660741: oi, tudo bem?
M
Mari Stocco12 de abril de 2025
Almodóvar transformou a Movida Madrileña numa Maison emocional. Do Gaultier fetichista aos suéteres chunky da Tilda, tudo tem intenção, tudo tem alma. E pensar que ele fez isso com Chanel, Dior e Marc Jacobs sem parecer propaganda… é coisa de maestro mesmo.
B
Bia Matera2 de abril de 2025
Traga mais análises assim, por favor!
C
Cinematografia Queer2 de abril de 2025
Em resposta a Bia Matera: desfilando looks com uma taça de gazpacho na mão!!!</br>Vou garimpar meu arquivo e dar uma repaginada como fiz aqui, o post original era de 2021, motivado pela camiseta da Penélope em Madres Paralelas.

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