"The People's Joker": Um Riso Trans que Desconstrói Gotham

Críticas Gerais

Vera Drew transforma “The People's Joker” numa odisseia íntima e revolucionária, canalizando sua experiência trans para narrar o despertar de uma jovem Coringa (Griffin Kramer). Em Smallville, sob o teto de uma mãe (Lynn Downey) que não a compreende e com um pai ausente que nunca deu as caras, ela cresce sentindo o corpo masculino como uma prisão. A infância é um campo minado de silêncios e desconfortos, onde a inocência tenta nomear o que a sociedade insiste em apagar. Drew pega essa dor crua e a molda em algo maior: uma fábula queer que ri da norma enquanto a despedaça.
 

Já adulta, interpretada pela própria Drew, Coringa migra para Gotham com o sonho de fazer comédia, mas logo esbarra num sistema que é puro deboche distópico. Um processo de audição automatizado avalia candidatos por critérios absurdos – maleabilidade cerebral, danos hepáticos e genitália masculina –, e ela passa, ironicamente, por ainda carregar os vestígios do que rejeita. Só que o humor engessado da velha guarda não a contém; suas tentativas de se encaixar colidem com a rigidez de uma instituição que fede a mofo. É o primeiro estalo: pra ser livre, ela precisa romper o roteiro.
 

E rompe. Coringa inventa a anti-comédia, aluga um armazém e se assume trans, batizando-se Coringa, A Arlequina – um nome que é ao mesmo tempo libertação e provocação. Junto ao Pinguim (Nathan Faustyn), um comediante gay enrustido e desempregado, ela reúne uma trupe de deslocados, transformando o caos em arte. O filme vira espelho da vida de Drew: a infância sufocada por uma mãe que a arrasta ao Dr. Crane (aqui, um psiquiatra de Arkham) e a droga Smylex, que força sorrisos falsos, ganha novo sentido. O que era trauma vira combustível pra uma revolução cômica e identitária.
 

O roteiro, coescrito com Bri LeRose, é uma colcha de retalhos genial: paródia afiada, sátira mordaz, camp escrachado, comédia sombria e um drama psicológico que corta fundo. Contado em flashbacks, ele costura a jornada trans de Coringa com uma emoção que não pede permissão pra te acertar. A direção de Drew é um delírio experimental – animação, marionetes, cenários digitais grotescos –, tudo orquestrado por mais de cem artistas que compraram sua visão. Gotham deixa de ser só um pano de fundo e vira um organismo vivo, pulsando com as contradições de quem ousa existir fora da curva.
 

Drew, ao encarnar Coringa, não apenas reimagina um ícone; ela o ressignifica com uma performance que é um malabarismo de humor e vulnerabilidade. Há um peso em cada risada, uma ferida em cada careta, e uma força que guia o público por sua perspectiva única. Ela sampleia Prince, recria “Batman Returns”, “Forever” e até o “Joker” de Todd Phillips, mas o que sobressai é sua voz – queer, trans, hilária e dolorosamente humana. É um coming-of-age que não se curva às expectativas, mas as explode com glitter e ousadia.
 

“The People's Joker” não é só um filme; é um manifesto vestido de piada, uma carta de amor àqueles que já se sentiram errados num mundo que não os enxerga. Drew nos lembra que rir é resistir, e que Gotham – com seus becos escuros e regras quebradas – é o palco perfeito pra quem transforma dor em poder. Da infância dopada de Smylex à anti-comédia que liberta, o filme grita: ser trans é reescrever a história, é pegar o caos e fazer dele um trono. E que trono lindo, bagunçado e único.

Comentários 2

B
brit17 de março de 2025
Me parece um bom texto pra traçar um paralelo com o Joker do Phoenix. Vou conferir!
C
Cinematografia Queer17 de março de 2025
Em resposta a brit: Esse Joker é completamente desconstruído, tanto que é uma mulher trans tentando fazer humor num clube de anti-comédia. Mas ainda assim, ela bebe um pouquinho de qse todos os Jokers.

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