A Ilha Esquecida (2026): uma amizade à altura do extraordinário
Críticas GeraisJoel Crawford e Januel Mercado articulam experimentação visual e intimidade em uma animação sobre preservar lembranças e continuar na vida de alguém.
É emocionante ver Jo e Raissa prometerem permanecer juntas para sempre antes de terem ideia do que isso significaria. Ao terminarem o ensino médio, a mudança de Raissa para os Estados Unidos coloca essa certeza em dúvida. A amizade continua, mas a rotina próxima e intensa que permitiu construí-la está prestes a acabar. “A Ilha Esquecida” se encontra nesse intervalo, representando bem esse medo de deixar de fazer parte do cotidiano de alguém e isso se tornar o começo do desaparecerimento da vida dessa pessoa.
Ambientado nas Filipinas dos anos 1990, o longa acompanha a última noite das amigas antes da mudança. A despedida toma outro rumo quando um portal transporta ambas para Nakali, uma ilha habitada pelas criaturas das histórias que ouviam durante a infância. Quando descobrem que voltar para casa pode custar a memória da própria amizade, a aventura reforça ainda mais a urgência que já estava estabelecida pela iminente separação da dupla.
Os diretores Joel Crawford e Januel Mercado, de “Gato de Botas 2: O Último Pedido”, desenvolvem a relação das protagonistas com bastante carinho e atenção aos detalhes — antes de colocá-la em perigo. A sequência que acompanha Jo e Raissa desde o primeiro encontro até o presente aproveita uma linguagem típica dos animes, e a formação da amizade se torna uma epopeia frenética. A montagem atravessa os anos com poucos diálogos, construindo a intimidade nas pequenas expressões e na maneira como as duas compartilham as situações. Quando a ilha começa a ameaçar essa história, já nos importamos o suficiente para temer o que está para ser perdido.

Esse compromisso de colocar a imagem a serviço da narrativa orienta a concepção visual de todo o filme. Ainda na cidade natal das protagonistas, proporções exageradas e cores vivas estabelecem um mundo que responde à energia das duas. A chegada a Nakali extrapola essa liberdade, com criaturas e paisagens que alteram constantemente a percepção de escala. Uma galinha pode ocupar o espaço com a imponência de um monstro, enquanto a aparição de um Cãobizomem parece perfeitamente aceitável. A opção da direção de arte é claramente recusar que o extraordinário possibilitado pelo gênero se comporte de maneira discreta.
Essa liberdade visual se aproxima daquela que “Aranhaverso”, “A Família Mitchell”, “As Tartarugas Ninja” e o próprio “Gato de Botas 2” ajudaram a consolidar na animação comercial. Crawford e Mercado exploram essa possibilidade para construir uma linguagem bastante adequada à história. O trabalho em 3D convive com passagens em 2D, sobretudo nos relatos sobre o passado, cujos estilos variam conforme o personagem da vez. Isso faz com que as lembranças também sejam novas formas de contar histórias, cada uma com uma aparência particular, em vez de receber um tratamento padrão apenas para indicar que se trata de um flashback. Em um filme sobre aquilo que as pessoas carregam consigo, essa escolha dá às memórias uma identidade que vai além de sua utilidade para explicar a trama.

A própria organização da aventura também se beneficia disso. Parte do percurso envolve reconstituir os acontecimentos que levaram as protagonistas àquela situação, no melhor estilo “Se Beber, Não Case!”. O recurso alimenta o humor e permite que novas revelações e informações incertas reorganizem o sentido de momentos anteriores, além de colocar o ato de lembrar no centro da ação. Jo e Raissa precisam recuperar o passado para decidir o próximo passo, enquanto tentam proteger uma história compartilhada que corre o risco de deixar de existir.
Nem sempre, porém, o filme administra bem a quantidade de coisas que coloca no caminho. O segundo ato acumula encontros com personagens cuja função inicial parece se limitar a apresentar uma nova excentricidade e render algumas piadas. Vários deles são divertidos, mas o tempo dedicado às apresentações enfraquece momentaneamente a urgência da fuga. É curioso que uma animação tão movimentada e frenética consiga parecer parada em certos momentos, enquanto o conflito das protagonistas espera sua vez de avançar.
A expressividade dos personagens e o contraste entre suas reações e o absurdo das situações produzem excelentes sequências, mas algumas gags insistem além do necessário, acrescentando exageros a cenas que já funcionavam. Ter um estilo com muitos estímulos não é, por si só, um problema. É que, por vezes, essa escolha acaba interrompendo uma aproximação emocional ou prolongando um encontro sem acrescentar muito ao que já havia sido estabelecido.

Essa distribuição desigual de atenção também prejudica a vilã. Sua presença salpicada pela história mantém a sensação de perigo, mas seu desenvolvimento não corresponde ao destaque que recebe na vida das protagonistas no primeiro ato, das referências em um trabalho escolar à fantasia usada pelas duas amigas. O filme não hesita em encontrar tempo para desvios cômicos e figuras passageiras, enquanto sua principal antagonista merecia um pouco mais de espaço para tornar seu conflito mais envolvente.
Quando os elementos apresentados ao longo da jornada finalmente se encontram, “A Ilha Esquecida” dá um peso emocional ainda maior à promessa que abre o filme. Perder as lembranças uma da outra significa também perder uma parte de si próprias. Apesar dos desvios, a aventura consegue transformar o medo da separação em algo igualmente íntimo e fantástico. Algumas amizades continuam fazendo parte de quem somos, mesmo quando já não fazem parte dos nossos dias.








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