Ponto Sem Retorno (2026): quando o fim do mundo não passa de uma paisagem
Críticas GeraisRidley Scott encontra belas imagens entre as ruínas, mas não personagens ou ideias capazes de dar profundidade ao cenário pós-apocalíptico.
O mundo inteiro de “Ponto Sem Retorno” está destruído diante da câmera de Ridley Scott, mas pouco dele parece existir além do enquadramento do diretor. Jacob Elordi interpreta Hig, um sobrevivente que atravessa esse cenário acompanhado de seu cachorro. A possibilidade de encontrar outras pessoas o retira de uma espiral depressiva e dá início a uma jornada que reúne elementos típicos do gênero, como comunidades isoladas, recursos escassos, grupos violentos e alianças instáveis. Contudo, a obra não encontra qualquer perspectiva particular nessas convenções.
Scott inicia de forma bastante contemplativa com a intenção de dimensionar a solidão do protagonista e comunicar a extensão do colapso. Só que o filme demora a fazer com que todo esse espaço vire uma história de fato. Não existe qualquer curiosidade sobre como os sobreviventes reorganizaram suas vidas ou sobre as consequências práticas de anos vivendo depois da queda da sociedade. Todas as ruínas acabam compondo uma emulação limitada do imaginário pós-apocalíptico já visto em tantas outras produções do gênero.

Toda essa superficialidade é um limitador também para os personagens. Elordi funciona nos momentos de silêncio e estabelece uma relação afetiva com o cachorro, mas seu protagonista é definido unicamente pela melancolia, sem que isso seja utilizado para aprofundar qualquer outra característica ou sentimento. Até sua aparência excessivamente preservada enfraquece a sensação de desgaste que deveria acompanhar aquela existência. Josh Brolin tem presença como o sobrevivente experiente e protetor, embora o roteiro pouco faça para afastá-lo desse arquétipo. Margaret Qualley, Guy Pearce, Benedict Wong e Allison Janney são grandes nomes que se dedicam, mas recebem menos espaço do que suas presenças poderiam sugerir.
Apesar de ter menos de duas horas, “Ponto Sem Retorno” aparenta durar ainda mais. Muitas sequências, principalmente as tomadas aéreas, são bonitas de se ver, mas parecem existir apenas para reforçar o ofício de piloto de Hig. O longa mostra resquícios de energia quando Scott rompe a inércia inicial, organiza o espaço em torno das ameaças e finalmente se aproxima da ação. Acontece que o cineasta não consegue aproveitar nem mesmo uma ambientação interessante, encerrando o conflito sem riscos e antes de explorar plenamente suas possibilidades.
Também é problemática a maneira como os grupos hostis são representados pelo diretor. Não vemos diferentes formas de organização que poderiam surgir após o colapso, desperdiçando uma oportunidade de tornar o universo socialmente mais complexo. O filme os reduz a hordas agressivas, definidas por gritos e pinturas corporais — quase uma releitura de uma iconografia antiquada de “selvageria” comumente associada a nativos americanos. Enquanto os protagonistas mantêm comportamentos e roupas reconhecíveis, seus adversários são desumanizados para que a divisão moral permaneça imediata.

À medida que o longa se encaminha para o desfecho, uma desarmonia narrativa fica bastante exposta. Os personagens principais chegam a um aeroporto convertido em uma comunidade, em mais uma oportunidade de mostrar como a sociedade poderia estar tentando se reconstruir. Mas a sequência introduz um registro de tom tão satírico que parece pertencer a outro filme. Allison Janney abraça a excentricidade e parece se divertir com o papel, porém toda essa atuação expansiva, junto com a organização retrô do lugar e o humor repentino, entra em choque com a sobriedade anterior, apenas evidenciando a falta de unidade.
Essa distância entre dimensão e conteúdo define “Ponto Sem Retorno”. No trecho final, a jornada começa a perder propósito justamente quando deveria encontrar sua recompensa, prolongando uma história que já revelou praticamente tudo o que tinha a oferecer — e não era muito. Sobram imagens amplas e genéricas de um mundo devastado; faltam pessoas e ideias capazes de fazer esse mundo parecer perdido de verdade.













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