"Coyote Vs. Acme": Afinal, Quem é o Culpado?

Críticas Gerais

É um absurdo. Um absurdo o que fazem com os desenhos. O que fazem com os cartoons. O tanto que eles sofrem e o tanto que se machucam. Tom passou a vida sendo atormentado por Jerry. Dick Vigarista nunca teve um minuto de paz por causa da Penélope Charmosa. E o Coiote? Bom, o Coiote talvez seja o personagem que mais sofreu na história da animação. Foram bigornas, explosões, quedas, atropelamentos, esmagamentos, esbofeteamentos e todo tipo de acidente que faria qualquer ser humano passar dessa pra melhor. Mas aqui estamos falando das regras dos desenhos animados, onde tudo pode acontecer e, na próxima cena, aparecer ileso, sem nenhum arranhão.

Tudo é possível. A física não importa. A lógica não importa. A morte, aparentemente, também não. Nós rimos, seguimos em frente e aceitamos aquilo como parte da brincadeira. Mas e se, um dia, um desses personagens que tanto sofrem resolvesse questionar as inúmeras derrotas sofridas?

É desse questionamento que encontramos “Coyote vs. Acme”. O longa pega uma das maiores piadas recorrentes dos desenhos e transforma em um problema jurídico. Depois de uma vida inteira sendo vítima das próprias invenções, Wile E. Coiote decide processar a ACME, a empresa responsável por praticamente todas as geringonças que utilizou em suas fracassadas tentativas de capturar o Papa-Léguas.

Uma premissa única e genial, pois não tenta simplesmente explicar o universo do Coiote. Ele faz o mais interessante, que é questionar aquilo que nós, espectadores, sempre aceitamos. Por que achamos engraçado vê-lo sofrer? Por que ninguém nunca responsabilizou a ACME? Quantas vezes uma empresa pode vender um produto que explode na cara do consumidor antes de admitir que talvez exista algum problema? Olhando para trás e analisando todos os episódios de Looney Tunes que assisti, a premissa está escancarada, e chega a ser um tanto quanto óbvia. E justamente por isso funciona tão bem.

Há uma saudade particular nos filmes que entendem a magia de colocar personagens animados em um mundo real. Roger Rabbit fez isso muito bem. Assim como Space Jam. Até aquele filme esquisito do Brad Pitt conseguiu… De alguma maneira, exploraram essa fronteira entre a infância e o mundo adulto. Existe algo fascinante quando o desenho deixa de estar confinado à tela e passa a dividir espaço conosco. É como se a nossa imaginação de quando éramos menores, invadisse o mundo real e, nos obrigasse a aceitar suas próprias regras.

“Coyote vs. Acme” entende que não precisa ser aquele puro suco de nostalgia. O filme usa o mundo real justamente para colocar o absurdo dos desenhos em contraste com aquilo que conhecemos. A ACME deixa de ser apenas uma marca que fornece produtos mirabolantes e se transforma em uma corporação que só visa o capital – assim como a própria Warner Bros. O Coiote deixa de ser apenas o sujeito que cai de um penhasco e passa a ser alguém que precisa lidar com as consequências dessas quedas.

E o roteiro é inteligente justamente porque nunca esquece que, por trás de toda essa maluquice, existe um personagem que passou a vida inteira fracassando. O Coiote é engraçado porque nunca consegue aquilo que quer. Mas também existe uma melancolia escondida nessa perseguição interminável. Ele tenta, falha, se machuca e tenta novamente.

Os atores, humanos, Will Forte e John Cena conseguem sustentar essa mistura de absurdo com um pouco de humanidade. Eles não precisam disputar espaço com seus personagens animados. Pelo contrário, os atores entendem que precisam entrar naquele universo, aceitar suas regras e brincar com a falta de sentido delas.

Partindo para o extracampo, o filme ainda carrega um fator muito curioso, e um tanto quanto metalinguístico. Tendo sido produzido, gravado, finalizado e, ainda assim, condenado a não chegar ao público. Ter sido cancelado pela gestão Zaslav da “Warner Bros.”. Gerando alvoroço pela internet. E, por algum tempo, o longa passou a existir como uma espécie de lenda. Agora em cartaz, surge então a pergunta inevitável… Depois de tanta luta para ser lançado, será que valia mesmo a pena?

E sim! Valia. E muito.

Comentários 1

P
Pagd180616 de setembro de 2026
Ótimo texto! Eu curti demais a metalinguagem e a história, então acredito que valeu a pena também sair nos cinemas. Nossa não fazia ideia desse filme do Brad Pitt...

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