Não Deseje Boa Sorte: o que é crescer quando estamos diante de uma possível perda?
Críticas GeraisMuitos filmes sobre crescimento feminino abordam os relacionamentos com meninos e frustrações amorosas, as mudanças físicas e as inseguranças próprias da adolescência. Mas “Não Deseje Boa Sorte” traz algo diferente e pouco abordado: como enfrentar a tristeza de ver alguém que amamos lutar pela própria vida?
Sunny Sandler interpreta a adolescente Sophie, que tenta assimilar a volta do câncer de sua mãe, interpretada por Melanie Lynskey, enquanto vive seu primeiro protagonismo em uma peça musical na escola, que é muito importante para ela.

Diante de tantos acontecimentos e gatilhos capazes de provocar um turbilhão de emoções, o filme acerta ao trazer para o centro uma questão na qual poucos de nós pensamos no dia a dia: a possibilidade da morte. E quando essa realidade aparece tão cedo, em um momento em que escola, estudos e amigos talvez ainda sejam o centro do seu mundo adolescente, lidar com a doença de alguém que representa a base da família pode ser especialmente impactante.
A maneira como o filme aborda esse tema é extremamente delicada e preserva a intimidade da relação entre mãe e filha. Isso não acontece apenas nas cenas entre as duas e suas dinâmicas diárias, mas também por meio do musical “Waitress”, apresentado por Sophie na escola e protagonizado pela personagem Jenna, que na peça enfrenta temas pessoais enquanto está à espera de um bebê e se prepara para ser mãe, mas que ainda tem objetivos que quer realizar além disso.
Existe um interessante ponto de convergência entre o papel que Sophie interpreta e a maneira como ela passa a enxergar a própria mãe. Aos poucos, ela percebe que, antes de ser simplesmente “sua mãe”, aquela mulher também é uma pessoa com sonhos, medos, frustrações e desejos. A maternidade, então, deixa de ser vista apenas pela perspectiva idealizada de uma filha e passa a ser compreendida também a partir da realidade de uma mulher que precisou fazer escolhas e dar o seu melhor dentro das circunstâncias que tinha e que se apresentavam diariamente.
Em “Waitress”, Jenna questiona o próprio passado e se pergunta onde está aquela menina que um dia foi. No caso de Sophie, essa questão ganha outro significado: ela também está tentando descobrir quem é enquanto seus sonhos de adolescente se chocam com uma realidade que se aproxima — a possibilidade de não ter a mãe ao seu lado para acompanhar seu crescimento. Então enquanto ela fica e floresce, alguém importante que gostaria de ver esse crescimento talvez se vá.
A interpretação de Sunny Sandler é um dos pontos fortes do filme. Sophie consegue transmitir o conflito interno de uma adolescente que precisa lidar com sentimentos grandes demais para a sua idade, sem que a narrativa se torne excessivamente pesada, e a interpretação das músicas para a peça musical da escola, é muito forte, pois consegue transmitir a emoção que o momento exige. O filme também encontra espaço para momentos de leveza, seja nos ensaios da peça, na amizade com Carolyn ou na convivência com seus irmãos e seu pai. Esses momentos são importantes porque lembram que, mesmo diante da possibilidade da perda, a vida continua acontecendo.

“Não Deseje Boa Sorte” vai além do que normalmente esperamos de uma história sobre amadurecimento feminino. O filme mostra que crescer também pode significar perceber, talvez cedo demais, que quem está ali do nosso lado dia após dia - nossos pais, que por algum momento pensamos que são invencíveis, na verdade são tão frágeis quanto nós. E que amadurecer, nesse caso, não significa encontrar todas as respostas, mas aprender a conviver com o medo, com a incerteza e com a possibilidade de perder alguém enquanto ainda estamos descobrindo quem somos.







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