"O Convite": Olivia Wilde serve torta de climão
Críticas GeraisNão fosse um filme tão espirituoso como Booksmart (2019) no currículo, eu não suspeitaria das habilidades de Olivia Wilde na direção. E toda má impressão deixada por Não Se Preocupe, Querida (2021) caiu por terra após esse O Convite (The Invite, EUA, 2026), que ela dirige e protagoniza. Olivia faz Angela, dona de casa que, ansiosíssima para sair do marasmo da vida, convida o casal de vizinhos para jantar a contragosto do marido, Joe (e essa é uma das boas oportunidades para ver Seth Rogen ir fundo na psicologia de um personagem dramático). Joe não vai muito com a cara de Hawke (Edward Norton) e da Piña (Penélope Cruz) — os convidados —, pois ambos são em tudo o oposto dele e de Angela. Embora este roteiro de Rashida Jones e Will McCormack seja uma adaptação de um filme espanhol de 2020, Sentimental (que, aliás, ganhou vários remakes ao redor do mundo), a direção de Wilde tem algo de muito pessoal para exorcizar. A experiência de um divórcio público e um tanto conturbado da diretora adiciona inúmeras camadas ao filme dentro e fora da tela: no trato dos atores, estimulados a improvisar no set e a criar traços de seus personagens não previstos no roteiro. As reações transbordantes do elenco ao monólogo de Edward Norton — que ele mesmo escreveu e manteve em segredo até a filmagem —, são genuínas. Os ensaios eram como sessões de terapia coletiva e foram acompanhados de perto pela psicoterapeuta belga Esther Perel.

O resultado é uma encenação orgânica e com diálogos que se desenrolam espontaneamente, ainda que em uma embalagem teatral. Os feras Anthony Boys e Yorgos Mavropsaridis (A Favorita) montam O Convite e não deixam um solavanco sequer entre as dezenas de mudanças de tons de comédia e drama conjugal pelos quais o filme transita. E o casamento entre direção de arte (Sandra Doyle Carmola) e fotografia (Adam Newport-Berra, que Rogen recrutou de O Ensaio) diz tudo sobre os personagens: na maneira como usam os objetos e em como são enquadrados dentro dos cômodos, que são em si a representação dos compassos emocionais da história. Compassos muito bem pontuados pela trilha (Devonté Hynes), que consegue ser um quinto personagem sem parecer intrusiva. E em cada cômodo desse apartamento pode-se encontrar o luto por um relacionamento, as imensas expectativas depositadas nos outros, os atritos entre pessoas que se amam ou a incomunicabilidade delas, uma gama imensa de tabus — e, talvez, a conclusão de que, na era moderna, nós nunca tenhamos nos sentido tão sós.





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