Homem-Aranha: Um Novo Dia, as velhas amarras do MCU

Críticas Gerais

 

                                               Contém spoilers. 🕷️🕸️

Um dos maiores defeitos da trilogia anterior do Homem-Aranha, e um dos acertos que Um Novo Dia já de cara promete corrigir, está na maneira como cada diretor compreende a relação entre personagem, espaço e linguagem cinematográfica. Jon Watts enquadrava seu Homem-Aranha dentro da lógica estética do MCU: uma direção funcional, baseada em decupagem de cobertura, planos médios, campo/contracampo e uma câmera transparente, cuja função era apenas conduzir a narrativa e nunca chamar atenção para si mesma. O resultado era uma estética excessivamente limpa e digital, quase asséptica, em que a câmera raramente traduzia o estado psicológico de Peter Parker ou explorava sua relação com o espaço, seja na ação ou em momentos mais íntimos. Havia um evidente desinteresse pela imagem como ferramenta expressiva; ela apenas servia para ilustrar o roteiro da vez.

Por isso, seus filmes dificilmente encontravam força na dramaticidade ou no espetáculo visual. A direção era eficiente quando precisava construir ritmo cômico, diálogos e gags, mas pouco interessada em criar imagens memoráveis ou cenas capazes de emocionar pela encenação. Não à toa, Sem Volta para Casa funciona melhor justamente nas interações cômicas entre as três gerações de Homens-Aranha do que em seus grandes momentos de ação. No fim, eram filmes que seguiam muito mais a fórmula do MCU do que uma visão cinematográfica própria, quase como se a imagem estivesse sempre a serviço do roteiro, nunca o contrário. O que criava uma discrepância enorme com o legado que o Sam Raimi deixou na franquia do Homem-Aranha. 

Já o cineasta da vez, Destin Daniel Cretton, parece interessado em devolver ao Homem-Aranha a uma identidade cinematográfica. Em vez de usar a imagem apenas para conduzir a narrativa, sua direção busca transformar enquadramentos, movimentos de câmera e a mise-en-scène em extensões do estado emocional de Peter Parker. As filmagens em locações reais devolvem textura à cidade, ao mesmo tempo, o contraste, a saturação e a paleta de cores fazem o filme recuperar profundidade visual e um senso de espaço que a trilogia anterior raramente possuía. Com isso, o resultado é um Homem-Aranha que volta a parecer inserido em um mundo físico e vivido. A ação volta a ser pensada através da câmera, da composição e do espaço, rendendo sequências que sempre se iniciam de maneira mais elaboradas,  provocando um espetáculo que nasce da encenação, e não apenas dos efeitos digitais.

Essa mudança na direção poderia sinalizar um verdadeiro recomeço para o personagem no cinema, mas, mais uma vez, o Cabeça de Teia se vê preso nas teias de um universo compartilhado e às limitações que ele impõe. Embora Cretton procure se distanciar da trilogia anterior pela imagem, a estrutura narrativa permanece praticamente a mesma: acompanhamos novamente um Peter Parker (Tom Holland) em busca de redenção após tomar uma decisão egoísta que coloca outras pessoas em risco, aproximar-se do grande vilão da trama, entregar a ele um elemento fundamental para seus planos e só descobrir tarde demais quem ele realmente é. Foi assim com Mysterio (Jake Gyllenhaal), foi assim com o Duende Verde (Willem Dafoe) e, agora, a fórmula retorna sob outra embalagem reservando os minutos finais do clímax para essa grande redenção do Aracnídeo. 

Essa sensação de engrenagem e fórmula se intensifica porque o filme continua mais preocupado em alimentar o universo compartilhado do que realmente em contar uma história do Homem-Aranha em seu íntimo. Jean Grey (Sadie Sink), embora compartilhe conflitos semelhantes aos de Peter, nunca parece realmente pertencer à sua jornada. Sua trajetória obedece a outra lógica dramática: preparar o futuro dos X-Men no MCU. Quando o clímax passa a girar em torno dela, o Homem-Aranha divide e, por momentos, perde o protagonismo dentro do próprio filme. Esses mesmos sinais de demandas claras de estúdio surgem com Bruce Banner (Mark Ruffalo), reduzido a um NPC que explica o funcionamento do macguffin da vez; como Hulk, mais tarde, ele surge apenas como um obstáculo para uma sequência de ação; a Viúva Negra (Florence Pugh), utilizada para comicidade e exposição; e os ninjas do Tentáculo, que aparecem e desaparecem aleatoriamente como meros capangas vazios da Controle de Danos. São participações que não sobrevivem a uma justificativa dramática além da expansão da franquia. Enquanto Cretton tenta devolver textura, identidade e humanidade ao Homem-Aranha através da imagem, o universo cinematográfico insiste em disputar sua atenção. Por isso, temos um filme dividido entre recuperar as raízes do personagem e servir às próximas fases do MCU  e, nesse conflito, quem acaba soando menor é o próprio Homem-Aranha.

Sendo justo, acho que o filme tem um início promissor ao estabelecer Peter Parker em sua nova realidade: um jovem que vive quase exclusivamente para sua persona heroica, enquanto sua vida civil parece reduzida ao mínimo. A ideia é interessante, mas o filme rapidamente abandona esse interesse pela dramaticidade. O maior problema é que, no fundo, quase não existe um Peter Parker. Ele mora sozinho em um apartamento modesto, cercado por computadores, uma IA própria, uma esteira e outras bugigangas, mas nunca sabemos como aquele espaço funciona, de onde vem o dinheiro ou como ele concilia a sobrevivência com a vida de Homem-Aranha. Pode parecer um detalhe banal, mas nunca foi. A precariedade sempre foi um dos pilares iniciais do personagem. O Homem-Aranha não é apenas o herói que salva Nova York; é o jovem que atrasa o aluguel, perde o emprego, chega atrasado aos compromissos e precisa escolher diariamente entre viver sua própria vida ou vestir uma máscara.

Não estou tentando dizer o que o filme deveria ser, estou apenas ilustrando o que ele escolhe ignorar. A trilogia de Sam Raimi entendia que Peter Parker existia antes do Homem-Aranha e que era justamente a colisão entre essas duas identidades que produzia o drama. Quando Peter vendia suas fotos para o clarim, perdia o emprego, brigava com o senhorio ou falhava com Mary Jane, cada balanço entre os prédios carregava um peso emocional diferente que transcendia o espetáculo. Em Um Novo Dia, Peter parece existir apenas quando a trama precisa que ele seja o Homem-Aranha. O cotidiano não é um conflito, vira apenas um vazio entre uma sequência de ação e outra.

O mesmo acontece com os momentos de maior carga dramática. A sequência em que MJ (Zendaya) lê a carta de Peter e diz que não o ama porque simplesmente não o conhece deveria representar o ápice emocional da história. É mais uma vez os resultados da consequência definitiva do sacrifício feito em Sem Volta Para Casa. No entanto, o filme quase imediatamente dilui esse impacto. Na cena seguinte, Peter, MJ e Ned já voltam a compartilhar o mesmo espaço, como se a narrativa tivesse pressa em reaproximá-los antes mesmo de explorar o vazio criado entre eles. O drama mal tem tempo de respirar e logo cede lugar ao clímax.

E o erro se repete em toda a subtrama sobre a mutação pela qual o Cabeça de Teia está passando. O que poderia sustentar um dilema ao longo do filme acaba resolvido em poucas cenas, basicamente, no diálogo onde Peter simplesmente compreende que pode ser Peter Parker e Homem-Aranha ao mesmo tempo e partir para descer o cacete nos ninjas. É uma resposta que contradiz diretamente o desfecho de Sem Volta Para Casa, onde o preço do heroísmo era abrir mão da própria felicidade. 

Mais uma vez, o filme parece apressado em aliviar o peso de suas próprias consequências. 

Essa parece ser uma limitação recorrente do MCU. Seus filmes dificilmente permitem que as consequências existam por muito tempo, porque o universo compartilhado exige que tudo continue em movimento para a próxima aventura. Até a cena final reforça essa lógica: Ned recupera as memórias de Peter por meio da "memória muscular" de seu cumprimento, anulando parte do peso da decisão que encerrou o filme anterior. Parece que o sacrifício não é uma ruptura, é apenas um obstáculo temporário antes do status quo ser recuperado. Sempre que o drama ameaça deixar marcas permanentes, a engrenagem da franquia trata de suavizá-las para que as peças voltem rapidamente ao lugar.

O resultado que esse Homem-Aranha: Um Novo Dia alcança, acaba soando melancólico. Pela primeira vez desde a trilogia de Sam Raimi, há um diretor interessado em devolver ao Homem-Aranha uma identidade cinematográfica, em fazer a imagem falar, em recuperar textura, espaço e emoção através da encenação. Mas toda vez que o filme parece disposto a seguir esse caminho, a lógica do universo compartilhado o puxa de volta. O drama precisa ser abreviado, as consequências precisam ser suavizadas, novos personagens precisam ser posicionados e a próxima fase da franquia precisa continuar em movimento. O resultado é um filme dividido entre duas vontades incompatíveis: a de ser uma obra sobre Peter Parker e a de funcionar como mais um capítulo de uma máquina industrial transmidiática que domina o cinema desde 2008.

É curioso lembrar que Homem-Aranha 3 também nasceu sufocado por demandas comerciais. Sam Raimi nunca escondeu que a inclusão de Venom não partiu de um desejo criativo seu. Ainda assim, mesmo trabalhando dentro desse sistema, conseguia contornar suas imposições e encontrar a humanidade e o peso emocional que sempre definiram aqueles personagens. Pense na linda cena final, por exemplo, onde Peter e Mary Jane não celebram uma reconquista. Eles apenas dançam. Feridos, silenciosos, conscientes de tudo o que perderam. A câmera contempla duas pessoas tentando seguir em frente. Aquela imagem carrega o peso de todas as escolhas, erros e cicatrizes acumuladas ao longo da narrativa e da trilogia como um todo. Não oferece uma solução definitiva, apenas humanidade imperfeita e crua, tudo isso no fechamento de um filme de super-herói. Talvez seja isso que mais falte a Um Novo Dia. Apesar de seus avanços formais, ele raramente encontra uma imagem capaz de sobreviver ao roteiro ou à engrenagem da franquia. No fim, o filme quer voltar a se parecer com cinema, mas continua preso a uma estrutura que teme deixar o cinema falar mais alto do que a marca.

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