DIA D e a resposta ao desencanto do mundo

Críticas Gerais

Em meio a instabilidade política e a um clima de conspiração, “Dia D” segue um fugitivo chamado Daniel (Josh O'Connor) que está de posse de arquivos confidenciais que provam a existência de vida alienígena. Ele cruza o caminho de Margaret (Emily Blunt), uma jornalista que começa a sofrer fenômenos inexplicáveis. Juntos, eles precisam escapar de uma poderosa corporação, liderada por figuras obstinadas como Noah (Colin Firth), que tenta encobrir a verdade.


“Dia D” é  um filme que reforça o quanto o diretor Steven Spielberg é um filho da ficção científica dos anos 1950 - dentro da tradição dos filmes B que formou inclusive John Carpenter - e dos pactos com a realidade que esse tipo de cinema fazia: abraçando mais o cultivo da curiosidade e o maravilhamento da descoberta do que a verosimilhança.
Isso pode ser visto na maneira como o diretor de fotografia Janusz Kamiński utiliza flares e fortes pontos de luz. Em algumas cenas, enquadra personagens contra fontes luminosas e em outras utiliza o escuro para contrastar com a luz, dificultando a visão completa da imagem, criando, consequentemente, a sensação de algo oculto prestes a revelar-se. Em vários momentos Kamiński parece apenas simular a luz natural - as fontes luminosas parecem incorporadas diretamente ao design do cenário, como se a luz emanasse de fontes do próprio ambiente (como lâmpadas e monitores). Consequentemente, a paleta de cores é distinta da que é comumente praticada em filmes modernos. É possível ver mais cores primárias e luzes coloridas, sem aquele desnaturado tom pastel que se convencionou chamar de “realista.”


Acessando o passado traumático através da teatralidade - uma casa que remete às memórias da infância e que permite lembrar de eventos angustiantes - a dupla de personagens centrais, Daniel e Margaret, encarnam a maneira como o diretor exorcizou, através dos filmes, o trauma da separação dos pais - um exemplo marcante é o drama de Elliot em “E.T. O Extraterrestre” - bem como encenam uma verdadeira homenagem às potencialidades do cinema.


Assim como “Superman”, de James Gunn, “Dia D” advoga pela importância do jornalismo, colocando-o no clímax do filme. Ademais, Spielberg acrescenta uma nova camada nesse ponto ao filmar uma âncora visivelmente afetada pela notícia que ela torna pública, quebrando a frieza institucional comum de se ver nesses profissionais dentro da mídia hegemônica e reforçando o envolvimento afetivo com o outro como uma temática forte de “Dia D”. 


O Spielberg maduro, que entrou neste novo século com diversos filmes marcantes, movimenta a câmera com constância e elegância. Em “Dia D”, essa movimentação é fluida, viva e controla o ritmo da história, que transita entre o filme de perseguição e o filme introspectivo, que tenta desvendar as emoções por trás dos closes em seus atores - e quando faz isso encontra atuações inspiradas que elevam o filme.


Uma cena em particular chama a atenção. Quando um personagem segura na mão um dispositivo que lhe permite localizar quem procura, a personagem, uma ex-noviça, segura uma cruz. Spielberg usa o plano para comparar os objetos: filma as mãos no mesmo ângulo fechadas e em paralelo - uma na sequência da outra, construindo um sentido, que trata o objeto extraterrestre de maneira familiar com a cruz. Como se ver através dos olhos do outro fosse sagrado, espiritual. De fato é, dada a importância que a empatia tem no longa. Nesta cena em particular, o uso que o personagem faz do dispositivo torna a cena semelhante a uma possessão, protegida pela cruz, reforçando a importância da espiritualidade em “Dia D.”


A espiritualidade e empatia, bem como a curiosidade e a descoberta - regidos por uma delicada trilha sonora do maestro John Williams - direcionam “Dia D” como um filme popular que não cai nas tendências cínicas e distópicas de um realismo pouco imaginativo. 


Outro aspecto que se sobressai em “Dia D” é a harmonia que a equipe de Spielberg apresenta. A trilha aparece, mas o filme tem importantes momentos de silêncio; a fotografia cria um balé de luzes, mas sabe utilizar também o escuro e a sobriedade; o diretor movimenta sua câmera, mas se detém em algumas cenas e o roteiro evoca ideias para uma ficção científica mais direcionada aos afetos que à razão. Como um todo, o filme sabe dosar as suas forças e criar uma unidade estilística forte. 


Diante de um mundo tomado por guerras e caos, e de um cinema nostálgico demais - tomado por continuações e com dificuldade de criar novas franquias - “Dia D” possui imaginação, magia e harmonia - além de tentar recuperar o senso de maravilhamento pela novidade e esperança, numa bela resposta ao desencanto da vida moderna.

Emily Blunt Josh O'Connor Colin Firth Eve Hewson 

 

 

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor