"Dia D", de Spielberg, tem boas intenções, mas não tão boas revelações

Críticas Gerais

“Spielberg acabou com o cinema!” É o que se ouve falar desde o lançamento de Tubarão (1975), o filme que colocou o diretor no mapa e injetou na corrente sanguínea da cultura o conceito de filme blockbuster. Tudo mudou desde então. Se antes a distribuição simultânea e em massa de filmes era coisa só para os filmes ruins (os filmes “sérios” deveriam causar frisson aos poucos, indo dos grandes centros para o interior sem pressa), os executivos da Universal pensaram “e se o modelo for aplicado a um filme de excelência?”. Críticos, teóricos e outros cineastas alertaram que isso tiraria o espaço dos filmes menores. E, de fato, no pós-Tubarão, os estúdios passaram a preferir financiar uma grande aposta de lucros astronômicos do que cinco ou dez projetos menores e menos lucrativos. Estava instituído o filme-evento. Mas daí a dizer que essa herança amarga corporativa é culpa de Spielberg, é preciso muito contorcionismo. Afinal, o mercado iria seguir o caminho inevitável que seguiu com ele ou com qualquer outro diretor talentoso.

Essa introdução toda é para amenizar as ressalvas que tenho a Dia D (Disclosure Day, EUA, 2026), novo filme de Spielberg? Não, não é. Mas é 2026, e eu não aguento mais essa história de “acabou com o cinema”. Ou de que, pior ainda, Spielberg é um cineasta menor por seu sentimentalismo. Pelo menos em partes, Dia D ainda preserva suas melhores qualidades: o senso espacial e a fluência da ação. Sua câmera é como o ar arejando um cômodo. Ela vai, volta. Se aproxima, se distancia. Abre o plano, fecha o plano. Rodeia tudo. E o espectador mal percebe a composição da cena se alterar e se desdobrar, num único take, em compassos narrativos diversos. Aqui, o diretor está de volta à seus temas habituais de conspiração e aliens com a história de Daniel Kellner, um gênio da computação que rouba dados secretos de uma corporação para vazá-los ao público. E Josh O’Connor não faz uma cara, uma boca ou uma inflexão fora do lugar. É um ator discreto e que se comunica genuinamente sem vícios.

 

O mesmo não se pode dizer de Emily Blunt, que ora está bem, ora fica numa nota só como a jornalista Margaret Fairchild, moça do tempo numa estação de TV local que começa a manifestar sintomas estranhos ao vivo. Colman Domingo se sai bem como o sujeito misterioso que dispara instruções a Kellner. É sempre bom ver o Colin Firth, conhecido pelos personagens doces e melancólicos, como um vilão. E Eve Hewson não para de surpreender positivamente (desde Mal de Família, onde eu a conheci); uma atriz impressionante. Dia D tem soluções e conceitos interessantes. E também tem boas intenções para falar de um mundo tão tensionado e à beira da destruição como o nosso. Mas é tanta facilitação no roteiro do veterano David Koepp (que já trabalhou com Spielberg em Jurassic Park e Guerra dos Mundos), que apaga-se aos poucos o elemento primordial do filme de conspiração: a sensação da descoberta, do inesperado; de que a realidade está se esfacelando e você está vendo ela pelo avesso. É tudo tão seguro, conveniente e previsível que, infelizmente, assombro é o que esse dia vai ficar devendo no final.

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