99 anos de Lucio Fulci: o gênio do cinema italiano que criava pesadelos, mas nunca acreditava neles.

Celebridades

Nascido no dia 17 de junho, no ano de nosso Senhor, de 1927. Lucio Fulci veio ao mundo para deixar a sua marca no cinema. 

O “talento” ou “genialidade” de um artista, muitas das vezes, é tratado como se fosse um “dom divino” que é dado a alguém sortudo. Isso ganha uma certa materialidade quando falamos em figuras como Mozart ou Michael Jackson, ambos crianças prodígios, que, desde cedo, conseguiram desenvolver a sua aptidão para a música. Isso é claro, às custas de muitos traumas. Outros dois exemplos que podemos mencionar são: Michelangelo e Leonardo da Vinci, ambos “compatriotas” da nossa personagem. Entre tantos outros que podemos mencionar tanto nas artes quanto nas ciências, que, embora sejam palpáveis, ignora-se quase por completo, que também há casos em que descobrimos uma nova vocação “por acaso”. 

Lucio Fulci foi um gênio da sua arte, o cinema. Depois de largar o curso de medicina, e, ao contrário do que se pensa, a sua genialidade e talento foram desenvolvidos ao longo dos anos. Embora o seu papel na direção seja mais lembrado, e o mais marcante, sem dúvidas, a sua carreira na sétima arte iniciou-se com a escrita. E, desde o começo dos seus estudos, o futuro cineasta já demonstrava que tinha uma personalidade forte e opiniões tão afiadas quanto as lâminas de seus assassinos “gialli”. Como mostra este trecho retirado da edição 48 da revista Starburst, volume 04, de 12 de agosto de 1982.

Eu faço cinema há trinta anos e o cinema é toda a minha vida. Dirigi trinta e três filmes, mas escrevi o roteiro de cento e trinta. Primeiro, estudei no Centro de Cinema Experimental de Roma, com professores como Antonioni e Visconti. Por acaso, quando fiz a prova oral para ser admitido no Centro, Visconti me perguntou o que eu achava de seu filme Ossessione (1943), que na época era considerado uma obra-prima, e, com a inconsciência da minha juventude, apontei que ele havia "plagiado" várias cenas dos filmes de Renoir! O resto da banca me olhou como se eu fosse um monstro, mas Visconti me disse: "Você é a primeira pessoa a me dizer a verdade; você entende de cinema e tem muita coragem – que é o que um diretor precisa ter!" E assim eles me aceitaram!

Imagino que a maioria, assim como eu, conhece ou conheceu a obra do Fulci através dos seus filmes de terror. Porém, o seu pontapé inicial foi no gênero da comédia. Outro gênero tão popular e difícil, como ele mesmo respondeu para uma entrevista ao jornalista Massimo Lavignini à revista Draculina n.º 24.

ML: Quão difícil é fazer as pessoas rirem?

LF: (muito sério) É mais difícil do que assustar.

Depois do tempo na comédia, o seu próximo passo não foi em direção ao terror diretamente, mas ao “western spaghetti”. A verdade é que o diretor não se restringiu a um único gênero. Diferente do que se imagina o senso comum, quem conhece a fundo ou trabalha na indústria cinematográfica sabe muito bem que são poucos os diretores que conseguem manter uma boa parte da sua obra coesa. A maioria, principalmente aqueles que trabalham em países onde a indústria cinematográfica não é muito forte. E o Fulci não fugia à regra nisso, indo do western para o “poliziotteschi” – subgênero de filmes policiais e de ação que surgiu na Itália no final da década de 1960 e atingiu o auge de sua popularidade na década de 1970. Passando pela “dark fantasy”, com o filme “Conquest”, de 1983, surfando na onda de sucessos como “Conan, o bárbaro”.

LF : Veja bem, eu não repudio nenhum dos meus filmes, exceto ZOMBI 3. Mas esse filme não é meu. É a mais tola das minhas produções. Foi feito por um bando de idiotas, que são Claudio Fragasso – um cretino nato, Bruno Mattei – que antes de se tornar "diretor" era pintor de casas, e um cara chamado Mimmo Scavia – o diretor de produção, que chegou às Filipinas e a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi transar com umas garotas orientais. Eu me recusei a terminar ZOMBI 3. Peguei o avião e voltei para Roma. Na tela, você só vê cinquenta minutos dirigidos por mim, e isso porque Fragasso ficava mudando meu roteiro o tempo todo. "Não podemos fazer isso, não podemos fazer aquilo..." Só me orgulho da cena da mordida no crânio.

Você concebeu The Beyond como uma sequência de Cidade dos Mortos-Vivos ?
 

Não, minha ideia era fazer um filme absoluto , com todos os horrores do nosso mundo. É um filme sem enredo: uma casa, pessoas e mortos vindos do Além. Não há lógica, apenas uma sucessão de imagens. O Mar da Escuridão, por exemplo, é um mundo absoluto, um mundo imóvel onde todos os horizontes são semelhantes. Acho que cada homem escolhe seu próprio inferno interior, correspondente aos seus vícios ocultos. Portanto, não tenho medo do Inferno, já que o Inferno já está dentro de nós. Curiosamente, não consigo imaginar a existência de um Paraíso, embora eu seja católico – mas talvez Deus tenha me abandonado? – ainda assim, muitas vezes imaginei o Inferno, já que vivemos em uma sociedade onde só o Inferno pode ser percebido. Finalmente, percebo que o Paraíso é indescritível. A imaginação é muito mais forte quando pressionada pelos terrores do Inferno.

Foram feitas comparações entre A Casa Perto do Cemitério e Inferno , de Dario Argento.

 

Os temas são diferentes, mas não nego que existam algumas conexões entre Argento e eu. Ambos os filmes, intencionalmente, não têm estrutura. Na Itália, tentamos fazer filmes baseados em temas puros, sem um enredo, e The Beyond, assim como Inferno , rejeita convenções e estruturas tradicionais, enquanto há alguns elementos em meus outros filmes: A Casa é sobre um monstro, O Estripador é um thriller hitchcockiano, Cidade dos Mortos-Vivos trata do Mal, Zombi 2 da morte e do macabro. Gosto muito de The Beyond porque acho que foi uma tentativa interessante. Quem critica The Beyond pela falta de história não entendeu que se trata de um filme de imagens, que deve ser recebido sem qualquer reflexão. Dizem que é muito difícil interpretar um filme assim, mas é muito fácil interpretar um filme com fios condutores: qualquer idiota consegue entender La Cage aux Folles , de Molinaro, ou mesmo Escape from New York , de Carpenter, enquanto The Beyond ou Inferno , de Argento, são filmes absolutos.

Infelizmente, como acontece com várias outras figuras ao longo da história, muitas são esquecidas pelo caminho. Ficam renegados a rótulos, muitas das vezes pejorativos. Há quem tenha a sorte de ser redescoberto com o tempo, e a sua genialidade reconhecida com os anos. Aos poucos, a genialidade de Lucio Fulci vem sendo reconhecida. 

O cinema é o que mais importa para você?
 

Arruinei minha vida por isso. Não tenho família, nem esposa, só filhas. Todas as mulheres me deixaram porque nunca paro de pensar no meu trabalho. Meus únicos dois hobbies são meus cachorros e meu veleiro. O trabalho é muito importante para mim. John Ford disse uma vez: "Sei que nos bares estão falando mal de mim. Mas estou filmando nas montanhas com índios enquanto eles conversam..."

Links para as entrevistas:

- Revista Draculina: www.cultcollectibles.com/fulci/interview.html

- Revista Starburst: https://www.cultcollectibles.com/fulci/interview2.html

 

 

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