A ótica queer na quadrilogia “The Matrix” e como reapropria-la para nós
Aspectos Socioculturais
Crescer como uma criança LGBTQ+ e que mais pra frente se entende enquanto um indivíduo queer, é martelar o autoconhecimento de pertencimento daquilo que faz parte da nossa realidade, neste caso faz sentido nos colocarmos em uma identidade em que a nossa existência já é uma forma de resistência ao sistema vigente. Podemos ser o Neo de Reeves, mas o Neo é essencialmente todos nós. Estamos acordando na frente da tela de um computador de tubo e descobrindo como estar-se no simulacro dessas interpretações é destrinchar o mundo artificial funcionando para quem está constantemente fora da Matrix.
A minha primeira experiência com esse filme foi assisti-lo na televisão durante a madrugada em algum canal conectado a rede cabo, era comecinho dos anos 2000 e eu já reconhecia a iconografia por parte de Matrix na cultura pop, e muito influenciado pelo meu primo mais velho que tocava bateria em uma banda de estética nu-metal com os amigos de faculdade dele, e que por assimilação idolatrava esse filme, eu encarei as duas horas de uma jornada de herói tipicamente codificada, cenas majestosas de bullet time, técnicas de câmera lenta e todo o restante que estabeleceu The Matrix na história subsequente da ficção científica. Devo dizer que saí dessa introdutória viagem pela pílula vermelha embasbacado, não exatamente pelo texto, mas a métrica de “uau isso é muito legal”, afinal para uma criança viada ter a Carrie-Anne Moss com um corte de cabelo sapatônico e o Keanu Reeves vestindo couro já era o suficiente para me conhecer aquele universo pós-apocalíptico das irmãs Wachowski.
O tempo passou e ocorreu o fenômeno que volta e meia toma grandes fenômenos culturais e artísticos como The Matrix, que é a apropriação dos seus símbolos e dos seus discursos progressistas tomados pela extrema-direita e ideologias masculinistas. A pílula vermelha literalmente se tornou o epicentro de representação à um movimento misógino, transfóbico e reacionário por parte de grupos majoritariamente compostos por homens cisheteronormativos que se vestiam de Neo e achavam que o texto do filme encaixava em suas ideias distorcidas, e binárias, de mundo. Assim como o Neo manda um dedo do meio para o Agente Smith logo no começo do filme, a Lily Wachowski mandou um outro dedo do meio no Twitter para Donald Trump e Ivanka Trump quando eles replicaram a deturpação daquilo que o texto de The Matrix significou um dia. Homens de extrema-direita como Trump e Musk adoram The Matrix, mas arbitrariamente desprezam as leituras queers que o filme agrega.
Revisitando anos depois, com mais bagagem dos elementos sci-fis que o próprio The Matrix vangloria-se (entre animes como Serial Experiment’s Lain e Ghost In The Shell), ir novamente para a simulação de códigos de dados criadas por um computador avançado, e enxergar ali comentários interessantes sobre a reivindicação de lutas de grupos minoritários contra o sistema de normas da sociedade heterocentrada e capitalista, tornou o filme mais socialmente importante e marcante pra mim. Além da realidade virtual permear a perseguição de grupos marginalizados e subculturas através de uma tecnocracia investida por big techs da era tecno feudal, que procuram manter o sistema de dominação por empresários da tecnologia que querem dominar todos os veículos de comunicação base da nossa sociedade e sucatear isso em prol de lucro, todos os temas correlacionados de duas mulheres trans em 1999 acerca do nosso futuro deixaram o filme mais demarcado à comunidade LGBTQ+. The Matrix sempre foi mais nosso do que deles, assim continuam se mantendo na programação da vivência heterogênea de uma sociedade tradicional, e não à toa quando Morpheus menciona os “inimigos” que iremos enfrentar durante da jornada para desmantelar o domínio da Matrix, o primeiro token que aparece na tela para representar isso é o de um policial civil, e a burocracia estatal dos arranha-céus que os comandam de cima.

Eu havia esquecido como The Matrix também é deliciosamente um produto de sua própria subcultura, aqui em parâmetros queers equivalentes. Não só simplesmente pelo uso dos trajes de látex, os óculos escuros, mas a dialética de uma cultura marginalizada que é patrimônio imaterial da própria comunidade, sendo a estética clubber e underground, uma forma de resistência à exercer a própria liberdade de pensamento e do próprio corpo. The Matrix pincela tantos comentários sobre o corpo padrão e o corpo da disforia de gênero, quem quer os controlar, como a humanidade virou uma colheita para as máquinas do futuro e qual o interesse de manter você (e o restante de nós) em um cubículo de controle de identidade simétrica. A descoberta do Neo que a Matrix é uma simulação da realidade modifica códigos de gênero em sua existência, servindo de foco para a transição de corporal em uma fuga do sistema capitalista, e eu tenho certeza que esse código alcançou a comunidade trans a qual viu Matrix no ápice do seu impacto no cinema e na cultura norte-americana, em um momento onde havia necessidade das conversas modernas do começo do século 21 sobre identidade designada e construída do meio social. Era uma época onde essas discussões não conseguiam mais se restringir às entrelinhas e precisavam estar no palco principal. Comenta-se a não-binaridade de gênero, uma pauta tão marcada pela geração atual que colheu os frutos da fuga da programação óbvia do sistema marcado por agentes corporativos uniformizados e replicados, em um filme de 1999, o que torna ele uma leitura futurista até do comportamento geracional em relação a teórica queer sobre identidade de gênero.
Gosto que o figurino, tão característico de Neo e Trinity condensam a sua transparência pela camuflagem urbana, eles não estão só desviando de balas em câmera lenta, mas desviando das percepções sistemáticas que os cercam e que os querem controlar, o que sintetiza toda a temática dos personagens serem párias sociais em diversas esferas da realidade virtual. Quando a auto imagem é projetada na Matrix, as pessoas que retornam à ela consegue-se impor melhor a própria vontade de espírito, o que é outro diálogo sobre existencialismo diante o indivíduo queer. Nada me tira na cabeça que a boate em que o Neo conhece a Trinity pela primeira vez era algum tipo de bar sadomasoquista noventista, recheado de música eletrônica e sem fronteiras sociais para um encontro tão revolucionário para a causa humana. As irmãs Wachowski pensaram até neste primeiro encontro e como mostrá-lo para nós. Ninguém era tão alheio à realidade cyberpunk dos anos 90 para entrar ingenuamente em um local onde as pessoas exalam bissexualidade e se vestem com roupas de couro para curtir uma noitada longe do estigma social.

Já os temas de ilusão da materialidade humana, realidade e consciência são um checkpoint interessante para conhecermos aquilo que inspirou as irmãs Wachowski e os artistas provenientes que elas inspiraram depois com The Matrix. Assim como demais exemplares do subgênero cyberpunk, onde encontramos alta tecnologia e precarização da dignidade humana e da vida, confrontamos reflexos sobre a conexão da existência humana com uma realidade virtual, dominada pelo controle cibernético de quem se encontra preso nela. Honestamente, o maior preciosismo de The Matrix para mim nem são os milhares detalhes subentendidos da trama e da cinematografia retórica que sim é perfeita, mas sim o abraçamento da comundade e a coletividade que eu senti com o filme indo muito à frente de “entender ou não entender” The Matrix, mas saber que para uma luta de grupo social específico ele é de suma importância. Cinema objetivamente transportador e agregado à construção do telespectador médio.
A sociedade em 1999 tinha medo do bug do milênio, e parece estranho que hoje estamos criando uma noção de realidade onde inteligências artificiais generativas estão sendo realocadas em nossas vivências à força para substituir aspectos insubstituíveis do ser humano, como a nossa subjetividade artística e a capacidade de criar coisas, e os movimentos contrários à isso são tão revolucionários quanto os de antigamente que imaginavam um futuro igualmente pessimista. Quando computadores eram ferramentas auxiliadoras para nós e não como hoje, em que elas evoluíram junto com o sistema neoliberal e capitalista tardio para perpetuar desigualdade em períodos de recessão histórica, econômica e social, The Matrix refletiu tudo isso e mais na época. Não acredito que estamos próximos de uma distopia tão apocalíptica quanto a de The Matrix, mas se deixarmos os poucos porcentos dos tech-bros e empresários escusos do setor da tecnologia segregadora ditarem o que deve ser preservado, criado, produzido, consumido, importado, exportado, enquanto cultura , economia, política e afins, aí sim poderíamos dizer que uma realidade virtual como Matrix não estaria tão longe. De certa forma, assim como no filme das irmãs Wachowski, é a comunidade queer que vai ser a principal armada opositora à esse sistema artificial e sem alma, lutando com munições, estilo artístico e couro, dentro do meio digital e o seu simulacro também.
É pertinente como a franquia Matrix ficou reconhecida como um marco do cinema por um único filme, e as suas duas sequências parecem que caíram em um limbo de simulação, como se não existissem em sua lore metaficcional, mas todos os nerdzinhos fãs de ficção científica estavam errados quando não colocaram os méritos de Reloaded páreo com o primeiro filme. A obra de 1999 é completa em suas intenções e concretização, um filme profundamente concentrado como arte e produto cinematográfico, então não havia uma competição direta que as irmãs Wachowskis poderiam fazer nesta questão. Os principais méritos da sequência pra mim é que ela não tenta “imitar” o primeiro filme, mas sim entrega o budget de ação e pancadaria de videogame que é esperado por nós, e vai em outras vertentes, expandido as discussões de The Matrix para além de um campo de referência.
O Neo é o escolhido, ele tem a consciência disso, mas não sabe o que fazer com esse propósito recebido por ele, e quando a história mais clama que ele se encontre ao entender o próprio destino, ele coloca tudo isso em segundo plano para salvar Trinity, salvar o amor que construiu com ela. Pode parecer relativamente simples na superfície, contudo é um remo na contramão daquilo que os seguidores cultistas (dentro da ficção e fora dela) procuraram manter para o personagem de Reeves. Reloaded é um filme que foca todo o seu arco de desenvolvimento em cima do amor entre o Neo e a Trinity, e apesar de Neo posar como invencível dentro da Matrix, ele fora dela é tão dependente da relação de afeto com Trinity quanto ela própria, invertendo a relação entre ambos de forma interessante, jogando com expectativas do que se espera do indivíduo “masculino” e o ”feminino” em uma relação dicotômica.

Reloaded na verdade sinaliza um obstáculo para as irmãs Wachowski que definiria o caminho tomado por elas no futuro desses filmes, havia muita vontade delas em abordar outras questões da ciberguerra de Matrix, não focando-se na construção de uma identidade de seu filme e sim embasando os seus personagens diante do cenário caótico de desconstrução. É um filme sobre paixão em meio à guerra, Neo pensa em proteger Trinity antes de salvar Zion, algo que o Arquiteto chamou de “anomalias” na programação de Matrix, simplesmente porque ele enquanto um conjunto de dados de computador não conseguia lidar com a diversidade emocional da natureza humana como a que Neo sente por Trinity. Na verdade, o Arquiteto parece-se muito com os fãs mais conservadores de Matrix esperando sempre o mais do mesmo de suas criadoras, do que uma armada de revolução à arte, como os fãs do lado da comunidade queer que sempre foram renegados a esse título.
Vasculhando em fóruns da internet, algumas das principais queixas em relação à essa sequência é de como ele “perde tempo demais” em Zion direcionando um olhar mais humano e menos fugaz para o entre-guerra das máquinas, o que eu puramente discordo. O primeiro Matrix é tão calculado em sua técnica quanto uma máquina faria, ainda que haja extremo charme de blockbuster nisso, então Reloaded procura-se distanciar complementamente disso logo no seu terço inicial, conhecemos bem a fundo a conexão emocional que move aquela sociedade pós-apocalíptica de Zion, construída pelo laço emocional humano e a vontade de estabelecer uma cultura. Intercalado com à uma cena de sexo entre Trinity e Neo, vemos a população de Zion dançando em uma balada subterrânea balcônica embargada por techno-music, e essa sequência icônica se estende bastante até encontrar um clímax satisfatório para os dois momentos. É a irmãs Wachowski convidando a gente para embarcarmos no regozijo de entender a resisência como essa sempre buscadora por conexão humana palatável. Se não conseguimos lidar com a força das relações humanas, carnais, emocionais, psicológicas, como lidar com uma ameaça tão frígida e incapaz de remanejar as mesmas sensações igual uma máquina? Por isso o Agente Smith replicante de Reloaded é outro detalhe que condensa o coração do discurso do filme. Não existe uma barreira para a pluralidade sintética do grande vilão desses filmes, uma programação que consegue se multiplicar ainda é uma programação, mesmo que alheia ao restante do sistema que quer assimilar para construir uma identidade, o que é uma ideia de que até códigos digitais querem ter uma alma dentro da simulação virtual.

É um filme que brinca muito com os nós da nossa cabeça quando indaga sobre escolhas, livre-arbítrio e o pesadelo escondido de escapar do controle sistêmico para cair em outro controle sistêmico, conseguir escapar e se deparar com outro e por aí vai em um ciclo tecnológico sem fim. Se no primeiro filme ouvíamos o Morpheus dizer que o Neo é quem vai salvar a todos, aqui encontramos um espaço maior para entender que cada indivíduo é responsável por suas decisões, não existe um salvador dimensional em específico, o que temos é a modificação desse conceito do ser humano que precisa dos outros, e esses outros precisam de outras também. O Arquiteto poderia ser considerado outra anomalia na Matrix, mas é apenas a decorrência da humanidade se reencontrando na própria busca por uma conectividade, assim Reloaded procura ser muito mais rebuscado em sua filosofia que o filme anterior. Se o texto deste segundo Matrix exponencialmente tornou-se “datado” ou não é uma discussão que não leva o filme à campos mais interessantes, ele é profundamente honesto em tudo, cheio de diversidade cultural que é acima de tudo sobre a resistência humana.
Reloaded como continuação tem o lado pomposo também, toda a sequência com o Merovíngio (personagem peculiar) e a capacidade dele em dar habilidades sencientes para outras falhas na programação da Matrix endurece o discurso separatista do filme, já que ele enquanto programação também é caçado pelos Agentes da simulação. É curioso notar que mesmo ele e a oráculo sejam um fruto da pirâmide engessada criada pelos computadores da Matrix, a busca por assimilar aspectos humanos afligem até às programações da Matrix o suficiente para que elas nos ajudem a escapar desse controle, ou no mínimo, não estejam interessados em nos deletar como indivíduos. Criamos programações, computadores, softwares para pensar por nós, criar, armazenar dados essenciais e essas inteligências artificiais não conseguem fazer nada com essa gama de informações sem parecerem uma cópia metódica de um ser humano, por essa questão discutimos a presença humana no meio artificial e a existência da alma. Desde da Revolução Industrial pensamos que as nossas ferramentas poderiam ser tão mais especiais do que nós que as criamos, e isso acontece dentro de outros circuitos cibernéticos também, a realidade em Matrix não detém nenhuma escolha incisiva já que as máquinas precisam de nós tanto quanto nós precisamos delas.

Reloaded é um caminho até Revolutions, não sendo o fim da jornada, mas construindo ainda mais valor humano sobre ela, pensando além das poses maneiras dos personagens e da câmera lenta imortalizada, aqui o foco não é o recurso cinematográfico mas o que ele quer discutir sobre a vida humana. Esteticamente é tão legal quanto o primeiro Matrix, as irmãs Wachowskis sempre tiveram um senso aguçado para dar identidade para esses filmes. Filosoficamente é tão cheio de floreios que não tem medo de se tornar redundante, e obriga a gente a entender o filme não pelo vocabulário repuxado dos personagens e sim através das motivações deles. Abracem, beijem, transem, confessem seus sentimentos, dancem, ainda têm muita inteligência artificial generativa querendo tomar o nosso lugar, dá tempo de reprogramar o destino, mas não as nossas decisões. Assim, chegamos no primeiro começo de fim da franquia.
Revolutions movimenta algumas peças bem atípicas do mundo de Matrix, é por isso que é tão odiado e amado em intensidades semelhantes. Se o primeiro Matrix nós acorda da simulação, e o Reloaded cria uma jornada mais pipoca na expansão do conceito, Revolutions não está tão interessado em situar-se na Matrix como os seus dois irmãos. As irmãs Wachowski levam a gente para encarar de frente as beiradas da luta humana, Zion é tão punk quanto a cidade das máquinas. Depois de anos tentando combater a esteira industrial a humanidade encontra-se em colapso, interno excepcionalmente. O filme dura quase mais da metade na guerra diesel-punk da invasão de cidade de Zion, considero esse inclusive o grande momento de Revolutions. É balanceando com o desespero iminente do segundo fim da civilização humana em meio à convicção de que falhamos outra vez. O foco é em grande parte nos obstáculos presentes do lado de fora da Matrix, como o Neo cego, Zion sendo escavada de fora para dentro pelos sentinelas, o destino de Trinity, e o filme só se volta para retornar à simulação virtual para resolver a pendência da infecção apocalíptica de Smith. Particularmente eu gostei da vontade criativa de libertar-se da Matrix enquanto um símbolo da trilogia, toda a iconografia dos filmes foi construída pela identidade da Matrix e já estava mais do que na hora de subverter isso. O vôo da Nabucodonosor para cima das nuvens onde vemos pela primeira vez o céu ensolarado é algo genuinamente mágico, uma das minhas cenas preferidas desses filmes.
Revolutions é bem consistente em expor as fragilidades dos seus personagens, o Neo dentro da Matrix pode ser uma espécie de Superman do scifi, tanto como figura quanto em símbolo, já que temos vários acenos à figura de Jesus Cristo e seu sacrifício no final, mas fora dela ele é tão vulnerável quanto qualquer ser humano. A invencibilidade que a simulação proporciona captou até quem vê os filmes, dessa forma não adianta ignorar o sentimento humano por trás de Revolutions. É um filme que resgata a aura sombria do primeiro Matrix em criar imagens de horror com a sua artificialidade e o pensamento distópico, o Smith por exemplo parece uma assombração viral, ele está em todo lugar dentro da Matrix e o desfecho da própria realidade virtual é a padronização da forma de identidade humana como uma espécie de apocalipse digital, e foi nesse filme que eu consegui identificar a influência de Kairo do diretor Kiyoshi Kurosawa para a franquia Matrix. Afinal, não têm nada mais assustador que perceber que o fim da realidade vai vir com homens engravatados.

As irmãs Wachowski readaptam o seu discurso tecnológico filosófico para o começo dos anos 2000, porque tudo o que elas gostariam de discutir já havia ganhado forma fílmica nos projetos anteriores, mesmo assim Revolutions encontra-se um momento singelo de intertextualidade quando entrega um desfecho agridoce, justo e equilibrado, porém talvez não o mais aguardado para o fim de Matrix. Finais que não são inteiramente esperançosos ou completamente pessimistas são ambíguos demais para serem desprezados ou abraçados, talvez na época esse terceiro capítulo não tenha sido satisfatório para quem procurava algo mais convencional e concreto, mas Matrix sempre passeou por áreas cinzentas em sua narrativa de desconstrução queer acerca da realidade, Revolutions não ia ser diferente. As irmãs inclusive optam por seguir caminhos mais óbvios e menos pretensiosos em seu filme-desfecho, ou seja lá o que “pretensioso” tenha como significado na cabeça das pessoas.
Revolutions intensifica-se o discurso de pluralidade cultural, étnica, de gênero, presente em Matrix e felizmente isso aqui não é ignorado como parte fundamental da resolução do filme, não à toa o confronto final entre Neo e o Agente Smith é representação da guerra contra burocracia de um rosto só. Se Revolutions apresenta uma constatação, é que a recepção mista de Reloaded deve ter feito as irmãs Wachowski cortarem certas narrativas importantes para a finalização. A última interpretação garante que Zion talvez seja outra camada da Matrix, não de forma literal, mas sim sendo a representação de como problemas institucionais conseguem infectar-se para fora da simulação e podem parar na nossa realidade. Neo não resolve por completo a guerra contra as máquinas, provavelmente entendendo-se mais do que um pedaço de recriação de gênero para manter o sistema funcionando, mas parte de uma luta revolucionária também é sobre entender isso. Não dá pra separar o sentimento humano da forma ou só nos tornamos outras máquinas sem alma. O que torna Revolutions especial é que a gente continua pensando bastante na forma como uma comunidade mantém-se historicamente e socialmente ativa através das suas próprias revoluções, e as irmãs Wachowski saem de cena sem precisar provar mais nada para nós da comunidade LGBTQ+.
Exausto, Neo está se vendo o seu reflexo refletido no espelho e daí ocorre o diálogo de não reconhecer-se por aquilo que ele vê, encaramos com o personagem de forma melancólica uma época que já passou há mais de vinte anos atrás, o Resurrections do título assim como o filme todo é uma grande piada (de bom gosto). Não só a Lana Wachowski está em outro momento de sua carreira como contadora de histórias, como Keanu Reeves e Carrie Anne-Moss procuram-se distanciar da previsibilidade de viver Neo e Trinity outra vez, e isso é importantíssimo para falar sobre a polaridade do quarto capítulo de Matrix, um filme prematuramente controverso.
Acredito que a intenção das irmãs Wachowski nunca foi desmistificar por completo as camadas do simulacro que elas próprias criaram, já que Matrix pode ser ideologicamente sobre qualquer coisa, mas há uma necessidade de reafirmação de uma história que sempre foi delas e nossa também. Lana Wachowski vê o Neo dentro da Matrix como essa esteira rolante dos computadores, revivendo ele para tornar-se outra bateria viva, é como se nada tivesse mudado na superfície, mas tudo mudou para uma sociedade que é totalmente dependente do algoritmo. O Neo desse filme puxa aquele sentimento de apatia social que o Keanu Reeves incorporou pro personagem, o desbalanço de acordar fora da Matrix, mas estar profundamente cansado de tudo, de todos, da sociedade, do sistema, das voltas que ele dá para manter a própria hegemonia, da nostalgia na arte cinematográfica que se recusa a acabar.

Resurrections é antítese não só do primeiro filme, mas do Reloaded e do Revolutions, já que ele categoricamente esquiva-se de combates internos sobre buscar a originalidade e prestar homenagens aos seus antecessores a todo momento. A ideia das sequências mais marcantes de Matrix estão aqui, o bullet time, exército gigantesco de Smiths, câmera lenta, a técnica de filmagem, etc, incluindo cenas onde o filme de 1999 está passando ao fundo do cenário incorporado a projeção com os personagens, mas sem tanto ânimo para entregar esse leque industrial do que já foi celebrado no cinema de tantas formas. Você já viu o Matrix, você já sabe como essa história funciona, porquê o filme precisaria apelar pra nostalgia barata para te entregar alguma experiência? A Christina Ricci fazendo uma ponta como empresária que só é interessada em fazer prequels, spin-offs, continuações, remakes, reboots do jogo que o atual Neo criou é de uma agonia endêmica para a arte, mas foi isso que o cinema de “homenagens” se tornou hoje em dia, enquanto Resurrections pouco estava interessado em fazer outro bullet time para agradar slop nostálgico, filmes como Spider Man: No Way Home entregaram o espetáculo mais pasteurizado do cinema comercial no mesmo ano, de tão plastificado e calculado para agradar o cavalão revisionista que se recusa a ver a festa acabar. Não precisamos ver o Neo voando outra vez, além do repeteco do O Escolhido estar batido para 2022, são fórmulas narrativas que foram expurgadas do filme para a substituição da sua boa substância metalinguística. O culto de jovens garotos ao Neo soa tão ultrapassado quanto no começo dos anos 2000 e Trinity ganha um escopo diferente aqui além de usar látex e lutar em posições sugestivas, ela é tão parte fundamental da resolução narrativa quanto o Neo.
Maratonando os filmes de Matrix pelos últimos dias, ocorreu-me que nem o espetáculo sci-fi das irmãs Wachowski de guerra contra máquinas, realidades alteradas etc, nada disso era tão importante quanto plugar os sentimentos humanos de Neo e Trinity, revelando-se aquilo de importante e essencial que fica no mundo devastado pela frieza das máquinas, e dos empresários da Warner, que é a vitalidade de continuarmos construindo sociedades e artes fundamentais ao desenvolvimento do meio. Em The Matrix, Trinity revive Neo com um beijo para que ele lutasse contra Smith e vencesse, em Reloaded Neo decide salvar Trinity da morte em vez de salvar Zion, o que gera uma rachadura na simulação, em Revolutions, Neo só consegue a paz momentânea da sua luta interpessoal com o sacrifício de Trinity. O passo final é dado em Resurrections, onde essa relação dos dois vira a chave programadora para clamar outra Matrix, uma ainda mais humana. Essa franquia sempre foi sobre os dois, um malewife que trabalha com análise e desenvolvimento de sistemas, e uma mulher dominadora de corset.

De forma intrínseca à rejeição das obviedades que esperava-se deste novo filme de Matrix, Lana Wachowski deixa de polarizar até mesmo o conflito principal da franquia, de repente a guerra contra as máquinas não é tão urgente e sombria como antes. Esteticamente, Resurrections é um filme muito biopunk em sua essência, ele arranca um pouco das convenções que Matrix ajudou a estabelecer na cultura pop com o cyberpunk para brincar com biotecnologia, buscando uma harmonia passível ao solarpunk e o seu otimismo futurista, principalmente porque a angústia da tecnologia era um receio comum no final do milênio, hoje as coisas são encaradas de outra forma, mais horizontais. Graças aos esforços análogos do filme, tomamos um tempo maior para reforçar os laços essenciais humanos, não só de Neo e Trinity, mas do público com o fenômeno cultural que são os filmes de Matrix.
Lana Wachowski observa o seu reflexo no espelho assim como Neo, e torce para que a maior parcela do público preso na simulação virtual de 1999 consiga entender que ela assim como a própria criadora, mudou radicalmente a sua individualidade, não querendo ser o que já foi outrora e sim avançar artisticamente para outros patamares, principalmente porque estamos falando de uma mulher trans mudando a percepção da conjuntura social outra vez na história do cinema. Resurrections expõe tão ativamente como qualquer outro filme da franquia a indiferença em ser totalmente abraçado, quem procura novamente a montagem alucinada, o filtro verde e as frases de efeito, vai se se frustrar bastante e que bom por isso acontecer, Matrix já foi reapropriado para ser muitas coisas, então cabe encurtar a sétima programação que estamos vendo para que ela seja nossa de fato.
Em paralelo com Revolutions, ambos são de forma única algo incompleto, não há um empenho por sequências de ação desafiadoras, mas sim obstáculos típicos de uma história que virtualmente se vendeu como algo especial, mas que carrega outras veias computadorizadas e mais quentes, com coração mesmo. Por conta da má recepção desse filme, provavelmente não teremos um Matrix 5, 6 ou 7 no futuro, e se de certa forma Lana Wachowski ajudou a engenharia cibernética viciada por legados saturados no cinema parar de rodar na sua arte, isso é o bastante para que Resurrections seja no mínimo fortalecedor para reprogramar a realidade que não quer mais que as coisas acabem eternamente. Nenhuma inteligência artificial generativa escreveria esse filme, com todas as suas peculiaridades e defeitos, isso é essencial pro cinema que atualmente ficou refém de algoritmos de repetição e equações para captar o vínculo do outro lado da tela, não precisamos viver em mais uma simulação. Esse é o legado que duas mulheres trans deixaram para a história da ficção científica, e nós como comunidade LGBTQ+ precisamos pegar isso de volta para nós.















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