"Devoradores de Estrelas" (2026): um abraço no vazio do espaço

Críticas Gerais

Um homem acorda sozinho em uma espaçonave a anos-luz da Terra. Ele não sabe quem é ou o porquê de estar tão longe de casa, o que o deixa sedento por respostas. Logo, ele descobre que a vida no planeta está em suas mãos, bem como a vida em outros mundos.

O que poderia ser um drama existencialista ou um suspense denso e vagaroso segue por um caminho muito mais amigável em “Devoradores de Estrelas” (Project Hail Mary, 2026), longa dirigido por Phil Lord e Christopher Miller e protagonizado por Ryan Gosling. O filme chegou ao seu segundo final de semana em cartaz e já arrecadou mais de US$ 300 milhões em bilheteria, além do fato de que vem recebendo boas avaliações da crítica e do público.

Mas afinal, vale a pena? “Devoradores de Estrelas” é um filme para a tela grande das salas de cinema? É sobre isso que falarei com vocês na coluna de hoje.

Crítica sem spoilers.


Quando eu fiquei sabendo do lançamento deste longa nos cinemas, logo comentei com uma amiga apaixonada por “Interestelar” (2014). Eu cheguei até a me referir ao filme de 2026 como “o Interestellar do ano”, o que não poderia estar mais errado. Isso porque os dois longas se passam no espaço e abordam uma missão com o objetivo de salvar a humanidade de uma extinção vindouro. No entanto, o modo como cada filme aborda essas questões é bem diferente. 

E aqui eu já tenho uma opinião polêmica aqui: “Devoradores de Estrelas” é um filme mais bem-resolvido do que “Interestellar”. Eu não estou dizendo que o primeiro filme é melhor do que o outro, mas sim que ele é melhor resolvido na forma como lida com os seus temas. Até hoje, discutem-se muito os caminhos tomados pelo Christopher Nolan no seu longa de 2014. Algumas pessoas, como a minha amiga, amam a jornada do Cooper (Matthew McConaughey)e da Murphy (Jessica Chastain); outros, como eu, apreciam o filme ao mesmo tempo em que notam inconsistências no roteiro e na direção. O que “Interestelar” queria ser? Um longa filosófico acerca dos limites da vida humana no universo, permeado de teorias e jargões científicos, ou um melodrama focado no amor entre pai e filha? Eu reafirmo meu gosto pelo filme, mas acho ele mal resolvido nessas encruzilhadas temáticas nas quais ele se coloca. 

Eu não vejo isso acontecendo em “Devoradores de Estrelas”. Ao meu ver, longas de ficção científica se beneficiam de um tom pessimista ou, no mínimo, realista. Acredito que os aspectos do gênero são potencializados quando abordados dentro dessas perspectivas. O filme em questão não segue esse caminho, optando por um clima otimista e descompromissado em alguns momentos. Eu não li a obra original; portanto, não sei se o livro segue esse mesmo tom. De qualquer modo, essa é a linha escolhida para o longa e, ainda que não seja a minha preferida, me agradou bastante.

Vídeo do artigo ‘Devoradores de Estrelas’: novo trailer mostra a urgência  da missão espacial vivida por Ryan Gosling
Ryan Gosling colore “Devoradores de Estrelas”

O mistério inicial sobre a identidade do protagonista é resolvido em pouquíssimas cenas. Em questão de minutos, você sabe quem ele é, restando apenas saber a razão para ele estar naquela nave. O filme, então, segue para aquele primeiro ato bem seguro de estabelecer a situação problema que justifica a missão aeroespacial. A premissa é instigante: o sol está morrendo e aquilo que está causando a sua morte é desperta o interesse. Como é de praxe em filmes desse tipo, a ciência precisa ser traduzida para a audiência sem subestimar a sua inteligência. Conversando com um amigo que leu o livro, fiquei sabendo que as questões teóricas e o planejamento da missão é muito mais detalhado na obra original. Sendo assim, Drew Goddard, o roteirista, fez o ótimo trabalho de traduzir toda essa densidade de saberes para o grande público.

Isso, para mim, tem dois efeitos. Em primeiro lugar, você sente lacunas ainda que a adaptação seja bem feita, lacunas essas que podem ser encaradas como um problema (e é justo que seja), ou como um convite para ler o livro. Ao assistir ao longa, você percebe que havia muito mais para ser dito, ainda que o filme possua uma duração de duas horas e trinta e seis minutos. Cheguei a pensar na possibilidade de “Devoradores de Estrelas” ter se tornado uma série de ficção científica, cujo tempo lhe daria maior liberdade para explorar os detalhes que o livro constroi.

No entanto, o filme mira no grande público, não no nicho de hard sci-fi. Nesse sentido, nós temos o segundo feito da adaptação, que é o tom familiar assumido pelo longa. A escolha do Ryan Gosling é uma acertadíssima nesse ponto, pois o ator personifica esse descompromisso de “Devoradores de Estrelas” com um drama intenso e cético acerca da raça humana. Eu não estou dizendo que o filme não te emociona, mas chega um momento em que o peso das situações não é mais o mesmo. Isso pode enfraquecer momentos e sentimentos, mas a proposta do longa fica clara. Ele quer ser um soft sci-fi que invoque o máximo de público possível. Parabéns ao estúdio e à equipe, pois esse objetivo está sendo alcançado desde o lançamento nos cinemas.

Devoradores de Estrelas nos leva até as estrelas para refletir sobre  humanidade

Como esta é uma crítica sem spoilers, eu não vou abordar uma relação fundamental desenvolvida na história. Porém, refiro-me a essa relação como o coração de “Devoradores de Estrelas”. Ela é sentimental, cômica e define o filme como a jornada confortável que ele escolheu ser. Há alguns parágrafos, eu comentei que o dilema do filme deixa de ser a identidade do Ryan Gosling e essa importância marca a razão da sua ida para o espaço. Pois bem, essa duas questões, o tal relacionamento e a viagem para o espaço, se entrelaçam e provam que esse longa é uma boa pedida para quem gosta da temática espacial e científica, mas também para quem espera ir ao cinema para “apenas” se emocionar e se divertir, porque nem tudo filme se propõe a ser um objeto profundo de reflexão.

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