O Agente Secreto | Crítica

Críticas Gerais

O Agente Secreto, novo filme de Kleber Mendonça Filho, que estreou na competição do festival de Cannes, onde ganhou como melhor direção e melhor atuação masculina, além do prêmio FIPRESCI (associação de crítica internacional). Desde então, o longa vem acumulando vários prêmios, dentre os quais destacam-se Melhor Filme Internacional no Critics Choice Awards e no Globo de Ouro, onde Wagner Moura também venceu como Melhor Ator em um filme de Drama.  Neste domingo, o filme representa o Brasil no Oscar nas categorias de Melhor Ator, Melhor Casting, Melhor Filme e Melhor Filme Internacional.

Em Recife de 1977, Armando, um pesquisador universitário é vítima de uma conspiração do regime militar. Ele precisará se esconder para proteger sua identidade até conseguir fugir do país com seu filho, Fernando. Para isso, adota um novo nome e passa a morar em um prédio com outros refugiados.                       

O Agente Secreto é, antes de mais nada, sobre a memória de um povo que, por vezes, tenta esconder/esquecer seu passado ou, simplesmente, não o conhece, seja por falta de interesse, seja pelos esforços do sistema para mantê-lo escondido. Kleber reconstrói essa memória utilizando o cinema de gênero – principalmente o thriller político – para contar uma história fictícia carregada de verdades.

Kleber ama e domina esse cinema, conhece seus clichês e nuances e sabe moldá-lo para encaixar suas convenções dentro de uma narrativa tão Brasileira, tão Pernambucana. Ainda que tenha sim momentos mais convencionalmente dramáticos – como os encontros entre pai e filho, ou a controversa cena final – a alma do projeto são esses elementos de gênero. É a forma como um diretor recifense retrata a cultura de sua cidade – que é quase um personagem dentro da trama – a partir de uma mistura desses gêneros cinematográficos.

Tome como exemplo a cena da perna cabeluda – uma das melhores cenas do ano – em que Kleber dá vida a uma lenda de Recife, usando-se de elementos do terror/fantasia para criar uma passagem visualmente marcante e lúdica. O tipo de momento que um diretor com muito conhecimento técnico, mas sem bagagem cinematográfica, jamais conseguiria conceber. Esse conhecimento do cinema, em especial de Hollywood dos anos 70s – época em que se passa o filme – é usado não só como piscadelas gratuitas para cinefilia, não é a referência pela referência. Tudo é aproveitado para, junto com o design de produção, evocar a reconstrução cultural da época e do local. O Tubarão de Spielberg lançado em 1975 que rima com as frequentes aparições de tubarões nas praias recifenses.

São essas referências de um entusiasta cinéfilo que dão o tom de O Agente Secreto e o separam de dramas mais tradicionais com temáticas semelhantes. A “questão relevante” está ali, porém o principal interesse é na construção do filme, como deve ser. Ainda que, em alguns momentos, o texto seja excessivamente didático, principalmente no final, durante a maior parte da obra, o que prevalece é um forte bom senso estético que combina imagens e música em passagens memoráveis.

O filme está longe de ser meu favorito do diretor, contudo a utilização das referências cinematográficas para construção da memória de um povo, rendem algumas das cenas que eu mais gosto em sua carreira. Não é somente sobre o Kleber fala, mas é como escolhe contar essa história. Talvez por isso o final – e todas as cenas no presente – me sejam tão frustrantes, quando o conteúdo parece falar mais alto do que a forma. 

 

nota: 4/5

 

texto escrito durante a 49ª Mostra de São Paulo e originalmente publicado no site AOdisseia

 

   

 

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