Os curtas de animação do Oscar 2026

Críticas Gerais

As indicações de curtas animados no Oscar são um tiro no escuro. Não dá para prever. O resultado da categoria em 2024, por exemplo, foi frustrante apesar da boa lista. Por isso nem quis ver os indicados do ano passado (ao que consta, um erro, pois dizem que a seleção foi ótima). A de 2026 pode resumida a um nível considerável de experimentação com narrativas mais seguras. 

Borboleta (Butterfly/ Papillon, França, 2024) tem uma estrutura tradicional em flashbacks. Mas conta bons insights ao narrar a vida do nadador franco-argelino Alfred Nakache, judeu e pioneiro do nado borboleta. A cada mergulho na água, Alfred e o espectador submergem em lembranças e sentimentos. O pulo do gato da diretora Florence Miailhe é sua animação em fluxo contínuo: com várias camadas para a pintura a óleo sobre vidro, com intrusões de pastel e areia, a cena seguinte é composta sobre a anterior numa única tela envernizada. Os ruídos visuais, as cores e a fluidez das pinceladas dão o sentido em si. A montagem ocorre não entre as imagens mas por dentro delas — como em uma lembrança viva. 

Já em Forevergreen (EUA, 2025) — disponível no YouTube e um dos favoritos à vitória —, não estranhe se algo soar “meio Disney”: os diretores Nathan Engelhardt e Jeremy Spears são veteranos do estúdio e fizeram este curta nos intervalos do trabalho durante 5 anos. A história do urso órfão que acha proteção num pinheiro é convencional. Mas seu visual enche os olhos: todo feito em CGI, é inspirado nos entalhes em madeira que Spears faz na vida real como artesão. Foram 13 mapas digitais distintos de textura para que cada elemento em cena parecesse uma peça de madeira digital diferente uma da outra — a água “feita de lenha” é de cair o queixo, por exemplo. E seu discurso ecológico não quer dar palestra: é acessível sem deixar de ser pertinente, pois confia no visual.

Para Retirement Plan (“Plano de Aposentadoria”, Irlanda, 2024), deliciosamente bem escrito pelo diretor John Kelly e a roteirista Tara Lawall, o minimalismo é a ordem. Feito em animação 2D com cores chapadas, o foco da montagem é a sensação de avanço temporal. Pois essa é a história de um homem de meia-idade imaginando os mil planos que fará durante a aposentadoria: ler aqueles livros que deixou para depois, aprender um instrumento musical — aquelas coisas que a gente adia para “quando tiver tempo”. A cereja do bolo é a narração de Domhnall Gleeson, um especialista em personagens graciosos e que, vejam só, também era o cara de Questão de Tempo (2013).

O canadense A Garota Que Chorava Pérolas (The Girl Who Cried Pearls, 2025) é, possivelmente, meu preferido. Indicada pela segunda vez ao Oscar da categoria — a primeira por Madame Tutli-Putli, de 2007 —, a dupla Chris Lavis e Maciek Szczerbowski dá a seu stop-motion um nome bem autoexplicativo, pois o que ele tem de poético, tem de melancólico e até sombrio. Na atmosfera, emula algo de Chaplin, em parte, pela ambientação urbana paupérrima da Montreal do começo do século XX e, em parte, pela importância dada ao gestual dos bonecos primorosamente pintados a óleo (os storyboards que guiaram os animadores foram feitos com atores reais). Embora não seja um filme mudo, tem toda a expressividade de um; cheio de desolação, mas de muita beleza.

E deixei As Três Irmãs (The Three Sisters/ Три сестры, Rússia/ Chipre, 2024) por último, pois ele destoa muito dos outros. Terceira indicação do animador Konstantin Bronzit na categoria — desde Lavatory Lovestory, de 2009, e We Can't Live Without Cosmos, de 2016 —, o filme cai sem nem pensar em todos os clichês possíveis; alguns deles incômodos especialmente para as espectadoras, dada a sua maneira… hm… estranha… de desenvolver as personagens do título. A animação, em um 2D deliberadamente grosseiro feito a mão, deveria exprimir excentricidade e humor. Mas como a narrativa se recusa a ir além, ela soa apenas… grosseira. 

 

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