O cinema brasileiro e a arte da identificação

Críticas Gerais

A experiência de assistir a um filme brasileiro no cinema em meio a uma sala cheia é definitivamente um momento mágico. Após uma vida acostumados a experienciarmos histórias estadunidenses ou britânicas nas telonas, é muito gratificante poder sentir uma real identificação com o que estamos vendo, e melhor ainda, sabendo que a obra está tendo seu devido reconhecimento; e não, reconhecimento não é a mesma coisa que validação de outras nações, mas sim saber que a nossa história e nossos valores estão sendo transmitidos em outros lugares do mundo, e acima de tudo, sendo falados em nossa própria língua. Chegou a hora dos outros países experienciarem as legendas.

Assistir a O Agente Secreto me levou a várias reflexões sobre a magia da identificação que apenas o cinema pode proporcionar. Ouvir nosso idioma, nossas expressões, o jeito brasileiro de rir (sim, nós conseguimos identificar quando uma pessoa está rindo em português), reconhecer cenários e situações, tudo isso faz parte do pacote da experiência cinematográfica. Nossa joia de Kleber Mendonça Filho traz um longa completamente imersivo em tudo que se propõe: desde a sala mais fechada no fundo de um cartório até a celebração do Carnaval nas ruas de Recife, o espectador consegue se sentir totalmente imerso na história. Aliás, toda a reconstrução dos anos 70  nesse filme é impecável, de cenários e figurinos até pequenos objetos domésticos, como a configuração de uma pia de lavar louça. A trilha sonora desempenha um papel fundamental nessa imersão, com uma marchinha como trilha do momento de perseguição mais tenso da sequência final. Todos esses detalhes se unem de uma forma extremamente orgânica, constituindo um perfeito conjunto da obra para o espectador.

O Agente Secreto'': Wagner Moura e KMF gravam cenas de novo filme na Folha  de Pernambuco - Folha PE

É um fato que o filme e o público devem se encontrar no meio do caminho: a bagagem de vida do espectador é o que vai “desbloquear” suas camadas de entendimento e identificação com a história. Um brasileiro do estado de São Paulo, por exemplo, vai se sentir representado por vários fatores, mas também vai ser surpreendido por algumas referências locais que apenas alguém que vive em Pernambuco vai reconhecer e entender por completo. Sim, estou falando da emblemática cena da “Perna Cabeluda”, uma cena que para alguns pode parecer desconexa, e para outros é logo identificada como uma lenda local. É realmente muito mágico quando um filme consegue cativar o público em geral, apresentando um roteiro de altíssima qualidade, e também consegue despertar reflexões em várias camadas: cultural, política, socioeconômica, e familiar; O Agente Secreto é o exemplo perfeito que se encaixa nessa rara categoria. Com um roteiro muito bem estruturado, esse é o tipo de filme que retém as informações principais em sua primeira metade, construindo um suspense e curiosidade crescentes no telespectador. As informações são fornecidas no momento certo, mais especificamente, na cena do depoimento de Armando. E falando nele, é claro que não posso deixar de aclamar nosso tesouro Wagner Moura, que entrega uma atuação brilhante e sensível, e que equilibra perfeitamente a praticidade do personagem em querer seguir sua vida e sua dor em deixar para trás as memórias e as decepções impostas pelo regime vigente, responsável por abalar sua vida profissional e pessoal. Quando eu já estava incerta sobre como me sentia a respeito da morte do personagem ter acontecido fora de tela, a aparição surpresa de seu filho Fernando imediatamente me trouxe conforto e a percepção de que uma morte fora de tela é justamente a perspectiva que um filho tem da morte de seus pais: a partir de agora, acompanhamos a visão de Fernando, para quem o pai é uma memória distante — é uma figura fora de tela.

São muitos os aspectos do filme que merecem linhas de comentários, como por exemplo, a química entre todo o elenco que funciona tão bem, com destaque para a breve, mas muito impactante cena com Alice Carvalho no papel de Fátima, as metáforas, a metalinguagem presente nas cenas que se passam numa sala de projeção do cinema, entre muitos outros fatores. No fim, acredito que assistir a esse filme é uma experiência enriquecedora em todas as formas, para qualquer público; e o extra se dá justamente no momento em que o fator da identificação fica mais forte para alguns do que para outros. 

É uma alegria imensa ver o filme sendo premiado em Cannes, no Globo de Ouro e com quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Ator e Melhor Filme. Se tem um povo que sabe se orgulhar em voz alta, somos nós, e sempre o faremos da forma mais alegre e festiva possível. Mas no fim, sabemos que esses prêmios são apenas um bônus, pois já temos plena consciência das belíssimas obras que detemos aqui no nosso Brasil. Ouvir o Wagner falando em português em seu discurso de agradecimento no Globo de Ouro foi poder nos ver representados em um ambiente onde fomos ignorados por anos, e esse sentimento de vitória é realmente muito mágico. Mas devemos nos lembrar de que o cinema nacional merece ser celebrado todos os dias, em todas as épocas, e fico muito feliz em ver que estamos nos aproximando cada vez mais dessa realidade: o Brasil é, sim, o país do cinema!

 

Vitórias de 'O Agente Secreto' em Cannes coroam bom momento para o cinema  brasileiro – CartaCapital
Kleber Mendonça Filho premiado como Melhor Diretor no Festival de Cannes, 2025.
Globo de Ouro 2026: Wagner Moura faz história com prêmio de melhor ator de  drama - BBC News Brasil
Wagner Moura premiado como Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro, 2026.

 

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor