Sorry, Baby (2025) e o ato de existir no mundo, apesar do que o mundo fez com você
Críticas Gerais
As luzes ligadas ou apagadas de uma casa sempre carregam uma história. Por entre as janelas, podemos imaginar que ali mora alguém que viajou, alguém que se tornou recluso, alguém que saiu mas deixou as luzes acesas por causa dos pets, alguém que dorme cedo, alguém que sofre de insônia, alguém que dá uma festa. Em Sorry, Baby (2025), essas luzes são o que nos guiam pela história da protagonista, do evento traumático pelo qual passou ao acolhimento que recebe e às formas que cria para se proteger.
Tenho falado muito do filme de estreia de Eva Victor desde que o assisti pela primeira vez, mas só agora me dei conta de que ainda não tinha escrito sobre ele. Não há maneira melhor de explorar a relação que construímos com uma obra do que escrevendo ou falando sobre elas. Falar muito sobre um filme por aí é diferente de sentar e formular um pensamento concreto sobre o porquê de ele ter me tocado tanto.
Victor dirige, roteiriza e estrela* Sorry, Baby. Um feito que faz a história passar pela vivência da realizadora, que é uma pessoa não-binária que utiliza os pronomes dela/delu (ou she/they em inglês). Em determinado momento do filme, um close em um formulário preenchido por Agnes (protagonista interpretada por Victor) mostra como a personagem se denomina. Tudo é natural e econômico, a começar pela abordagem do filme ao seu tema principal, que é a vida antes e depois de um episódio traumático.

Quando conhecemos Agnes, ela é uma professora que vive sozinha em um casarão meio isolado, rodeado apenas por árvores sem folhas, características do outono. Essa secura não é apenas pela estação. O filme começa nos enganando com a relação solar de Agnes com Lydie (Naomie Ackie), sua melhor amiga, que chega para uma visita. Aos poucos, vemos que não há brilho nos olhos de Agnes e que esse vazio é preenchido por crises de pânico que, à primeira vista, parecem fruto da famosa síndrome da impostora. Agnes é uma jovem brilhante que tem sua posição profissional invejada por colegas que, nas entrelinhas, questionam suas conquistas.
Eva Victor divide sua história em capítulos, como quem coloca as cartas lentamente na mesa para que a pessoa do outro lado não desvende o jogo de cara. Antes de explicar o que aconteceu com Agnes, ela faz o espectador entender que há algo errado ali, algo que faz Lydie implorar para que a melhor amiga “não morra”, como quem pede a alguém que não se entregue, que exista no mundo.
Me comovi demais com a forma como o filme revela o que “matou” Agnes. Quando a figura do professor aparece no flashback e vemos o interesse especial que ela desperta nele, o quebra-cabeça começa a fazer sentido. O meu alerta começou a piscar quando alguém diz a Agnes, em tom de brincadeira, que o professor está a fim dela, e ligou, de vez, quando vemos a primeira interação de orientanda e orientador sozinhos, em uma cena que Victor dirige com a economia que citei parágrafos atrás. Do plano e contraplano que denotam rotina e obrigação, ao close que mostra uma Agnes mais confiante à medida em que se abre sobre a relação que tem com a obra do homem que está do outro lado da mesa.
Assistir a Sorry, Baby (2025) me levou a outro filme que fala com muita sensibilidade e, novamente, economia (me desculpem por repetir tanto essa palavra) sobre os traumas incutidos por homens. Assim como em Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (Never Rarely Sometimes Always, 2020), de Eliza Hittman, Victor se vale do que não é mostrado, sem subestimar a inteligência de seus espectadores com a exposição do que muda a trajetória de sua protagonista.

São as janelas e as luzes dentro da casa os responsáveis por essa freada brusca no filme. Se, no início do filme, esses elementos anunciam a chegada de quem dá conforto à protagonista, aqui eles quebram o mundo dela. Não precisamos de muito depois disso, porque, mesmo que não tenhamos essa história para contar em nossas vidas, com certeza conhecemos alguém que, assim como Agnes, saiu desorientada e andando apenas no piloto automático.
Sorry, Baby (2025) opera um pouco a partir da insensibilidade da burocracia da vida pós-trauma. Agnes se vê obrigada a repetir sua história para um médico frio, para um grupo de estranhos em um júri (onde ela está, não como vítima, mas como parte do corpo de jurados, cumprindo um dever), e cria uma casca. É uma coletânea de episódios cruéis, com gente que dá de ombros, que reconhece a própria impotência e que revela um pouco de si (a frase ‘sabemos o que você passou. Somos mulheres’ me quebrou demais).
Mas o mais curioso é que, mesmo mostrando a dor de ter que contar sobre o que te aconteceu, de viver novamente o trauma de formas diferentes, Sorry, Baby (2025) não se entrega ao tearjerker fácil. Apesar de mostrar um mundo insensível, o filme coloca ali uma pessoa que descobre como existir nele.
Agnes descobre no humor a forma mais fácil de devolver o desconforto e, aos poucos (bem aos poucos mesmo), descobre que ainda há espaço para a gentileza no mundo. E são esses gestos de afeto que lhe ajudam a ressignificar até mesmo o ato de contar sobre o que lhe aconteceu. Ainda existe alguém que vai te ajudar a respirar fundo, que vai pegar sua mão debaixo da mesa para te dar força, que vai te oferecer um sanduíche, que vai te fazer rir, que vai te ouvir, que vai te mostrar que dá para desligar as luzes da casa e deixar a luz entrar pela janela.
Sorry, Baby está em cartaz nos cinemas.
*Pelo papel, Eva Victor está indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama e ao Critics Choice de Melhor Roteiro Original.









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