Gladiador (2000): a lealdade como vingança

Críticas Gerais

Não há força física nem habilidade que funcionem sem motivação.

Após um bom tempo adiando Gladiador, finalmente sentei no sofá e corrigi essa falha no meu currículo cinematográfico. E como eu me arrependo de ter demorado tanto para assistir a esse filme. Seguindo o meme de alguns meses atrás, posso dizer que Gladiador se tornou meu novo “Império Romano”. Simplesmente não paro de pensar nele.

Eu tinha boas expectativas sobre esse filme, mas não imaginei que fosse gostar tanto. A obra se inicia com uma batalha em solo germânico que é de encher os olhos e já nos situa dentro da grandeza de Roma. Comandado pelo general espanhol Maximus Meridius (Russell Crowe), o exército romano nos mostra nos primeiros minutos de filme o porquê de Roma ter sido o maior império da Antiguidade e ter sobrevivido por séculos. A organização, o tamanho, as estratégias e a habilidade do exército romano, aliadas à boa direção de Ridley Scott e à coreografia das lutas, nos proporciona uma cena épica de batalha capaz de maravilhar até aqueles que não curtem filmes de guerra.

Mas Gladiador não deve ser visto apenas como um filme de guerra e de batalhas. A lealdade de Maximus ao imperador Marco Aurélio (Richard Harris), a tirania e sede de poder de Cômodo (Joaquin Phoenix), sucessor do Império, e a complexa política romana estão acima das lutas nas arenas. O ponto de partida para a trama é quando o César Marco Aurélio decide “devolver Roma a seu verdadeiro ser”, a República, dando tal responsabilidade a Maximus e irando Cômodo. O assassinato de Marco Aurélio por Cômodo e a negação de Maximus de servir ao novo imperador é o conflito que iremos acompanhar por duas horas e meia que passam voando.

Cômodo manda seus guardas assassinarem Maximus, mas o habilidoso general consegue fugir, até descobrir que sua família pagou por sua deserção. Desacordado nas ruínas de sua casa, ele é levado como escravo e é vendido a Proximo (Oliver Reed) para se tornar um gladiador. Suas habilidades de luta o levam para gladiar em Roma e entreter milhares no Coliseu. A vingança de Maximus começa a tomar forma.

Toda a saga do ex-general é envolta em uma Roma muito bem construída pela Direção de Arte, o que torna fácil a imersão na história. Somos apresentados aos mais diversos territórios do Império: a villa onde Maximus vivia com sua família onde hoje é a Espanha, aos desertos do norte da África e, claro, à grande cidade de Roma, com suas construções imponentes que fascinam até os dias de hoje. As arenas são locais importantes no filme, pois além das lutas entre os gladiadores, vemos, principalmente, Maximus crescendo como um homem machucado em busca de sua vingança contra o imperador Cômodo. O desenvolvimento do personagem se dá nesses espetáculos, com uma fotografia que traduz bem a glória de Maximus e milhares de romanos gritando “Espanhol! Espanhol!”

A lealdade de Maximus é a sua resistência nas arenas. O amor por seu filho e esposa, assassinados a mando do novo César e a indignação com a morte de Marco Aurélio em um golpe de estado que não aceitava uma “nova” Roma é o que fazia Maximus empunhar o gladio e ser aplaudido. Não há força física nem habilidade que funcionem sem motivação. Nos campos de batalha, a motivação era a glória de Roma; nas arenas, a motivação é acabar com essa Roma que retirou o que lhe era mais valioso.

Meu nome é Maximus Decimus Meridius, comandante dos Exércitos do Norte, General das Legiões de Felix e servo leal do VERDADEIRO imperador, Marcus Aurelius. Pai de um filho assassinado, marido de uma esposa assassinada. E eu terei minha vingança, nesta vida ou na próxima.

Lá do alto da tribuna, Cômodo assiste ao espetáculo irado. Os melhores gladiadores e tigres não são suficientes para derrotar Maximus. Todas as virtudes que faltam ao novo César (e que seu pai valorizava) estão presentes em seu inimigo e em sua irmã Lucilla (Connie Nielsen): sabedoria, justiça, força e temperança. Cômodo é o oposto do que Roma precisa para prosperar e Joaquin Phoenix expressa intensamente o ódio e a mágoa de seu personagem. Sua atração perturbadora pela irmã e seu ódio por Maximus refletem um homem perturbado pelo o que ele não é e nunca será.

Gladiador é um épico sobre vingança, mas, acima disso, sobre valores, situada em uma cidade em que ambas coisas estavam sempre em disputa. Ridley Scott dirige muito bem um filme que já é um clássico e que traz de forma rica, mesmo que ficcional em muitos aspectos, um período histórico tão importante para a humanidade e que reflete em nossa sociedade até os dias de hoje.

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