Entrevista | Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura: "A gente sente que não está sozinho aqui"
Curiosidades
Conversei com Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho a alguns dias da estreia de O Agente Secreto (2025) nos Estados Unidos e na mesma semana em que ocorreu o Governors Awards. No ano passado, o evento de entrega dos Oscars honorários e do prêmio Jean Hersholt foi o pontapé das campanhas bem-sucedidas de Fernanda Torres e de Ainda Estou Aqui (2024). Mesmo sem ter rede social, o ator sabe que, assim como ocorreu com a colega, sua foto é campeã de likes nos posts do Instagram da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas sobre o evento.
Se as expectativas do público que O Agente Secreto renda um repeteco do Oscar passado pressionam Wagner? Que nada! Para o ator, sentir o apoio dos brasileiros é muito significativo, principalmente após os anos de Jair Bolsonaro na Presidência da República. “É massa, é muito lindo, dá muita força saber que a gente não está sozinho aqui”, resume.
A conversa foi rápida, como é de praxe nessas junkets, mas deu para falar um pouco também sobre os filmes que diretor e ator assistiram na preparação para trabalharem juntos nessa história “cheia de pirraça” ambientada no Brasil de 1977. Teve até revelação de Wagner sobre que clássico do cinema ele nunca tinha assistido até então. Quer saber qual foi? Veja a entrevista abaixo:
Camila Henriques: O cinema do Kleber é sobre cinema, e fala muito pra gente que é da crítica, inclusive pelo passado dele como crítico. E eu queria saber como é que foi a preparação de vocês nas conversas sobre cinema. Porque a gente viu muito sobre a preparação do Wagner como ator e tal, mas... Eu queria saber sobre que filmes vocês conversaram para se preparar para este filme.
Wagner Moura: Teve um momento crítico, muito complicado, que foi quando o Kleber descobriu que eu nunca tinha visto Barry Lyndon (1975). E nesse momento ele pensou, realmente, que talvez ele tivesse feito a escolha errada. Mas ele rapidamente corrigiu esse problema me chamando... Ele falou, você tem que ir hoje lá em casa. E ele projetou Barry Lyndon e realmente é um filme extraordinário. Mas a gente falou muito de Chinatown (1974). A gente falou de...
Kleber Mendonça Filho: A Trama (The Parallax View, 1974).
Wagner: Muitos filmes americanos dos anos 1970.
Kleber: [Filmes brasileiros como] Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), do Hector Babenco.
Wagner: Uma coisa que você me mostrou que você gostava muito, um Globo Repórter, que o [Eduardo] Coutinho dirigiu, chamado O Pistoleiro de Serra Talhada.
Kleber: Incrível. O Pistoleiro de Serra Talhada, nesses seis meses de viagem, eu nunca mencionei. E muito obrigado por mencionar. É um Globo Repórter de 1977. E é absolutamente fascinante. As pessoas podem ver no YouTube, tá lá.

Camila: E nesse processo, essa semana com Governors Awards, as roundtables, o que vocês sentem que está chamando mais atenção dos estadunidenses sobre o filme?
Kleber: Eu acho que o filme chama muito a atenção, mas não é específico dessa semana. É a continuidade de uma série de reações que começaram já no Festival de Cannes. Há um encanto muito grande pela... Pela maneira como... Eles chamam de shapeshifting. Pela maneira como o filme vai se transformando em muitas coisas durante a sua duração, sobre como muitos dos temas rebatem de maneira muito direta nos Estados Unidos de 2025. Principalmente em relação a questões políticas e a questão das universidades. E há um espanto muito grande, em geral, em relação a uma consistência do cinema brasileiro atual, considerando o ano passado, Ainda Estou Aqui (2024), o filme de Gabriel Mascaro também, O Último Azul (2025). E agora com essa força que existe em torno d’O Agente Secreto.

Wagner: Eu fico vendo que... A gente não está aqui sozinho, eu e Kleber, sabe? Eu sinto que a gente carrega o Brasil, os brasileiros. E eu amo o fato dos brasileiros terem orgulho. Foi a coisa que eu mais falava quando Ainda Estou Aqui bombou do jeito que bombou. [O filme de Walter Salles] reconectou o brasileiro com o cinema brasileiro, com os artistas brasileiros. Porque [foi] muito tempo de muita mentira que persiste, de falácia, de não sei o que lá, de Lei Rouanet. Essas conversas, sabe, e eu não tenho mais paciência para esse tipo de coisa. Como é que ainda há essa discussão se o governo tem que apoiar ou não a cultura brasileira?
A gente está aqui mostrando um pedaço do Brasil, sabe? Então é importante que as pessoas aqui vejam esse Brasil, mas o mais importante ainda é que o Brasil se veja nos nossos filmes. E eu vejo que o público brasileiro entende isso, apoia isso, tem orgulho de sermos artistas brasileiros e de estarmos aqui em pé de igualdade com outras produções de outros lugares do mundo e com os próprios americanos. Quando a gente bota a foto minha lá no Governors Award e todo mundo vai lá e clica, é muito bom, cara. A gente se sente muito bem, sente muito amparado, sente que a gente não está aqui só.
A entrevista foi editada para melhor compreensão.
















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